Unheimlich urbano: Psicanálise, Arquitetura e Políticas | Por Mariana Anconi

O espaço urbano como território em constante mudança é feito corpo vivo: pulsional e precisa da linguagem para não ser tomado pelo caos. Essa linguagem articulada às políticas públicas e o que se faz dos espaços, vão dando contornos, limites e produzindo outros espaços no “entre" construções. 

A produção de outros espaços pode fugir à regra, ao planejamento inicialmente projetado para aquele território. Lefebvre (1991) afirma que os cidadãos produzem espaços, inventam lugares e, consequentemente constroem uma arquitetura. Esta arquitetura construída, nos espaços produzidos pelos habitantes gera descontinuidade e um furo na lógica, por exemplo, dos espaços ditos produtivos. 

A arquitetura configura-se como linguagem na cidade, uma espécie de materialização do inconsciente. Uma cidade não é feita apenas do que a arquitetura representa, mas dos espaços que as pessoas inventam a partir desta arquitetura. Esse é o aspecto de corpo que uma cidade adquire, e como corpo, podemos considerar a existência de um "psiquismo da cidade".

A experiência do unheimlich na cidade surge do encontro com o outro estranho e ao mesmo tempo familiar. O outro nos impõe a dialética dos contrastes, das rupturas e com a política dos laços. Uma política que não escapa ao estranhamento. Trabalhei neste texto com a perspectiva do unheimlich como efeito da produção de outros espaços na cidade. Espaços estes que furam discursos, lógicas e ideais.

A palavra unheimlich (em alemão) ganhou estatuto de conceito em Freud no texto Das Unheimliche (1919) traduzido como L’enquietant (em francês) e O estranho (em português) e, mais recendente, O infamiliar (2019). Freud aponta que o estranho é tudo aquilo que, devendo permanecer oculto, acabou se manifestando. Portanto, afirma: “esse estranho não é nada novo ou alheio, porém algo que é familiar e há muito estabelecido na mente, e que somente se alienou desta através do processo de repressão” (FREUD, 1970, p.301). 

No contexto urbano, o que faz com que uma cidade passe de um espaço familiar para infamiliar/estranho (unheimlich)? 

Primeiro, deve-se considerar que as cidades são espaços dentro de outros espaços, mas não só. São constituídas por cultura, história, memória e trauma. São marcadas por corpos que transitam e expressam sua subjetividade. Os muros (como limites de territórios e lugar de expressão) são exemplos do que é possível escrever (e dizer) do mal-estar na cidade. É importante que haja espaço para uma expressividade do nível do mal-estar.

O unheimlich urbano é o que surge nas rachaduras na cidade quando se tenta operar com ideais incompatíveis e, por vezes, perversos. Mais ainda, é o que retorna do inconsciente e causa estranheza, mas que diz de um movimento dos próprios habitantes. É a negação de uma parte do próprio território. É o que se alega ser do estrangeiro (do outro), mas é do mais íntimo em nós.

A experiência do unheimlich pode ser vivenciada a partir do encontro com a diferença entre territórios na cidade. Cito aqui dois espaços possíveis: os espaços públicos (parques, praças, etc) e os terrenos vagos sem a marca da "produtividade".

Na cidade, os espaços públicos como parques, praças, bibliotecas apresentam uma topologia  que permite o deslocamento dos corpos. Esta mesma topologia, que transmite a ideia de uma continuidade entre cidade e os corpos, permite encontros com o radical da diferença, encontros com o estranho, mas que também é familiar.

As cidades passam por transformações o tempo todo. De acordo com Lefebvre (1991) elas são consequência das relações entre os habitantes, ou mais especificamente o produto das relações sociais. No meio destas transformações sócio-econômicas e culturais vemos discursos que produzem o estrangeiro em seu próprio território, por isso, os espaços públicos possibilitam a construção de lugares democráticos e de expressão de sua subjetividade. O encontro com a diferença possibilita a diminuição das fronteiras e os muros entre habitantes e diminuem o desamparo discursivo no campo social daqueles ditos “estrangeiros”.

Os espaços abandonados e esquecidos (vagos) sem a marca da produtividade do discurso capitalista representam uma descontinuidade, uma estranheza (unheimlich) no urbano. São territórios desconhecidos, à margem ou entre prédios, vistos como ameaça. São territórios em geral evitados à todo custo porque ocupam no imaginário dos habitantes o lugar do estrangeiro. 

De acordo com Alessandra [1] do coletivo Escutando a cidade, “os lugares onde se sente a presença do unheimlich na cidade são também lugares de resistência, habitados por sujeitos em deslocamento, por pessoas ou grupos que justamente por estar a margem da cadeia produtiva são capazes de criar novas configurações de vida, que apesar de precárias e oscilantes, como os terrenos vagos, parecem ter algo a nos ensinar sobre como viver em um solo instável.”

A diversidade de territórios dentro da cidade nos coloca a questão:  Mas afinal, quem é o estranho/estrangeiro? 

Podemos partir da ideia de que o estrangeiro nos habita primeiramente, para então deslocarmos para o estranho nos laços e nos discursos que circulam na cidade. Roland Barthes (1993) afirma que a cidade é um discurso e o discurso é uma linguagem: a cidade fala com seus habitantes. Quando políticas públicas operam para que a partir dos espaços públicos sejam promovidos encontros com a diferença, nos tornamos menos estranhos e estrangeiros uns aos outros. 

O unheimlich urbano diz dos territórios nômades, deslocados e que apontam para uma estranheza e uma diferença que habita a cidade. Negar a diferença implica em um retorno do que é recalcado produzindo efeitos de ódio e segregação.  




REFERENCIAS 


FREUD, S. (1909) O infamiliar [Das Unheimliche]. Obras incompletas de Sigmund Freud. São Paulo: Autentica, 288p.


BARTHES, R.  (1985). La aventura semiologica. Trad. R. Alcalde. Barcelona: Paidós, 1993.


LEFEBVRE, H. (1991) The production of space. Blackwell publisher, Oxford, 33p.


[1] A cidade fala - texto disponível em: http://escutandoacidade.com.br/semanario/193296-a-cidade-fala

A Educação, os laços e a Psicanálise

 Por Carolina Escobar

 

Há algumas semanas alguns de meus colegas do ensino fundamental criaram um grupo virtual na tentativa de nos reunir 16 anos depois. Emoções, lembranças e constrangimentos à parte (rs), foi uma situação que me fez pensar que a escola é um dos lugares mais importantes para a construção de laços – com os colegas, com a cultura, com o que o cerca. É também lugar de vivenciar desencontros e dificuldades, que são tão importantes quantos os laços formados.  

As queixas escolares são frequentes demandas para os psicanalistas, mas confesso que tenho especial atenção àquelas que têm a ver com a aquisição da leitura e escrita. Há algo na queixa dessas crianças e adolescentes que intriga os familiares, os educadores e até eles mesmos. Alguns apresentam questões que se cronificam de tal forma que se tornam marcas determinantes na maneira que a criança estabelece relações com toda sua vida. 

Como o mundo se torna grande e incrível quando passamos a olhar as grafias  que o compõe e lê-las! Compreender a mensagem talhada no papel transforma todas as coisas. E ser capaz de talhar algumas também, deixar marcas, comunicar-se, então? Quanta potência! Quais os efeitos subjetivos nas dificuldades de adquiri-la?

Recentemente retornei à textos freudianos que há muito não tinha contato. Mais uma vez me surpreendi com a atualidade e, principalmente, com a radicalidade do pensamento que Sigmund Freud construiu e nos presenteou. Apesar de não ser o único momento em que ele levanta questões para pensar a relação da psicanálise com a educação, é em texto que encontro elementos que me fizeram pensar. 

Em os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) – um dos meus textos favoritos de Freud – encontramos uma das contribuições freudianas mais marcantes: a sexualidade começa na infância. Com esta afirmação, Freud desloca a questão da sexualidade da noção biológica ligada à reprodução, ideia vigente até então. Para ele sexualidade não se resume ao sexo (ato sexual). 

Sexualidade é o que coloca duas pessoas em relação, que possibilita a criação de laços e vínculos que nos diferenciam dos animais.

Tais vínculos são criados pelo corpo, mais especificamente por alguns pedaços dele; aqueles que também possibilitam uma demarcação de dentro e fora para nós mesmos: a boca (por onde nos alimentamos e exploramos o mundo desde muito pequenos), o ânus (lugar de nosso corpo que expele restos que podem ser presentes – “olha o que eu fiz mamãe! Dá tchau para ele!”), os genitais (que, em algum momento, compreendemos ser marcados por representações culturais que nos interrogam sobre o que somos/desejamos ser); e também o olhar (como o que dará notícias do interesse e/ou do desagrado de quem nos relacionamos). Ou seja, as relações se apoiam no corpo (pulsional) para serem estabelecidas.

Mas o que isso teria a ver com a educação e , mais especificamente, com a aquisição da leitura e escrita? 

Me lembro do caso de um pessoa no início da adolescência que, até então, não sabia ler nem escrever. Chega até mim com o encaminhamento de seu médico quando nenhum exame (da bateria realizada) apresentava resultados que justificassem a não apreensão da leitura e escrita. Não parecia um adolescente, mas sim uma pessoa muito mais jovem; em dias de muito calor, a mudança hormonal se fazia presente nos cheiros que invadiam a sala de atendimento sem que, aparentemente, percebesse. Em uma das sessões diz “Se conseguir ler e escrever, vou crescer. Como olhariam para mim? Como eu olharia para mim?”.

Ou então quando outra pessoa contava, muito angustiada, do medo que estava sentindo em não passar em uma prova muito importante em sua vida e se recorda de ter sido a única pessoa de sua classe que demorou para ser alfabetizada; “Lembro que sentia tanto medo de não conseguir aprender que evitava ao máximo chegar perto de um lápis; dizia para meus pais que não esperassem isso de mim, apesar de que acho que o que eu queria mesmo era que gostassem de mim apesar daquela merda toda”. 

Nestes fragmentos (e em tantos outros), a aquisição da leitura e escrita representa algo no laço com o outro e é esta uma das contribuições dos psicanalistas no que tange à estas queixas. Freud já dizia “Nós (…) temos todos os motivos para dedicar interesse a esses fenômenos temidos pelos educadores, pois deles esperamos obter esclarecimentos sobre a configuração original da pulsão sexual” (1905, p.82).

Bem, de volta ao (re)encontro com o ensino fundamental: mal posso esperar!

Sobre a formação do analista


Por Maiara Marques


“A psicanálise se transmite de duas maneiras, em dois lugares diferentes: de um lado, na experiência dessa prática que é a relação entre um analista e um analisando; de outro, em sua presença na vida pública segundo estas três modalidades: a teoria, as instituições ditas psicanalíticas e as relações que os psicanalistas mantêm com a sociedade civil em que vivem. Um dentro e um fora”.

Philippe Julien

Escolho compartilhar com vocês, em meu primeiro texto da coluna, a reflexão que faço e, pela qual sou afetada, sobre a formação do psicanalista. O tema me desperta interesse, pois estou enviesada por esse percurso de formação.

Uma das coisas que sou mais questionada quando menciono que faço formação em Psicanálise é como funciona e quanto tempo dura essa formação. Geralmente começo expondo que esta é proposta por Freud (1919) enquanto tripé: análise pessoal, estudo da teoria psicanalítica e supervisão da clínica do analista em formação, sob a orientação dos psicanalistas mais reconhecidos. Continuo explicando que o tempo dessa formação é permanente, e que o processo de se autorizar analista obedece a um tempo subjetivo e que passa, como nos orienta Freud em “A questão da análise leiga” (1926), pela análise pessoal e não só pela teoria.

Apresento ainda que Lacan, na Proposição de 9 de julho de 1967 sobre o psicanalista da Escola, traz o pensamento que “o analista se autoriza por si mesmo e por alguns outros”. Esse processo também é amparado por uma instituiçãode formação, dispositivo onde um saber não-todo é compartilhado e onde se dá a transmissão de Psicanálise. Quase que imediatamente noto a expressão de estranhamento e inquietação em quem me ouve. Observo que a proposta da Psicanálise vai de encontro aos ditames sociais de obediência ao tempo e à necessidade imediatista de titulação. A formação é subversiva, marcada não por regras regulamentadoras, mas por uma ética própria da Psicanálise, a ética da escuta ao sujeito do inconsciente.

Para pensar a formação do analista recorri a algumas leituras, dentre elas: “A questão da análise leiga” (1926), “Deve-se ensinar a psicanálise nas universidades?” (1919), “Análise terminável e interminável” (1937) e às contribuições de outros colegas psicanalistas na obra “Lacan e a formação do psicanalista” (2006). A partir dessas, fui instigada a pensar a formação do analista a partir da ética psicanalítica e não de uma regulamentação, bem como que a formação não está relacionada ao ensino nas universidades, cursos de especialização ou mestrados.

Em “Ofício do psicanalista: formação vs. Regulamentação” Albertini (2009) conduz um levantamento histórico e uma discussão acerca das diversas tentativas de regulamentação da prática psicanalítica, assim como as divergências entre as escolas e instituições de formação. Observo que nem a própria Psicanálise fugiu de suas teorizações: ela não é do lugar das certezas e nos convoca a discussões permanentes sobre “como se forma um analista”.

Atualmente, algumas correntes da Psicanálise tem pensado a formação do analista por outras vias, a partir da teorização lacaniana, apontando para a articulação da clínica, escrita e da transmissão. Como possibilidade de aprofundamento dessa outra proposta de formação aponto a leitura do recém lançado livro "O psicanalista: na instituição, na clínica, no laço social, na arte - volume 2” organizado pela Michele Roman Faria.

As reflexões me conduzem a pensar que a escuta para a qual o analista se prepara é a escuta da singularidade do sujeito e por não se submeter a critérios regulamentadores (como diplomas, conselhos ou registros de classe) não implica significar que não haja rigor em sua prática. Há rigor no processo de formação do analista, atendendo ao compromisso ético com a palavra a ser trabalhada em associação livre e ao tripé da formação, assim como no compromisso de que esta formação seja permanente, não podendo esta estar dissociada dos processos socioculturais aos quais o analista está submetido.

Pensar a formação do analista a partir da ética da Psicanálise é assumir um compromisso com o “não-saber” como possibilidade de se produzir um saber, dando lugar à subjetividade e emergência do saber inconsciente. Novamente a formação do analista assume seu papel subversivo transitando nos discursos* enquanto transmissão e efeitos de formação.

Reflito também que o desafio de escrever e a proposta de transmitir a Psicanálise também fazem efeitos de formação. Se autorizar falar em nome próprio, criando sua própria articulação significante e a implicação com os efeitos que a palavra produz não teria um viés analítico?

Por fim, noto a importância de todo esse percurso, sobretudo ao destaque dado por Freud e Lacan à análise pessoal na formação. É na análise pessoal, no um a um que há transmissão da Psicanálise e nessa experiência singular se vê a possibilidade de produção de um psicanalista.

*Nota: articulação trazida por Lacan no Seminário 17 “O avesso da Psicanálise”, onde este nos apresenta as formas de laço social entre os sujeitos a partir da definição de quatro discursos: do mestre, universitário, da histérica e do analista. Os laços sociais são construídos e estruturados pela linguagem e, em Lacan, são articulados enquanto discursos. Lacan nesse seminário também nos convida pensar a experiência analítica como experiência de discurso.

Referências:

ALBERTI, S.; LOPES, A.; LANNES, E.; ROCHA, E.; AMENDOEIRA, W. (org). Ofício do psicanalista: formação vs. Regulamentação. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.

FREUD, S. (1919). Deve-se ensinar a psicanálise nas universidades? (Sigmund Freud Obras Completas, Paulo César de Souza, Trad., vol. 14, 1917-1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

_________ (1926). A questão da análise leiga: diálogo com um interlocutor imparcial (Sigmund Freud Obras Completas, Paulo César de Souza, Trad., vol. 17, 1926-1929). São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

_________ (1937). Análise terminável e interminável. (Sigmund Freud Obras Completas, Paulo César de Souza, Trad., vol. 19, 1937-1939). São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

JORGE, M. A. C. (org). Lacan e a formação do psicanalista. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2006.

LACAN, J. (1967) Proposição de 9 de julho de 1967 sobre o psicanalista da Escola. Em: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 2003.

Saúde mental e trabalho

Por Mariana Anconi

Fui convidada a falar neste mês de Novembro sobre saúde mental e trabalho em um podcast da área de tecnologia (ZOFE - click aqui). Discutimos sobre alguns aspectos relacionados ao sofrimento psíquico, mal-estar e as demandas no mercado de trabalho. 

Um tópico em específico ganhou destaque: a síndrome do impostor. A princípio, não é um diagnóstico reconhecido pelo DSM (1), mas que está muito presente na fala de trabalhadores. O impostor, é um significante que circula muito entre profissionais da tecnologia. Descobri inclusive que existe um livro famoso da área de TI que tem este significante no título. 

A sensação de ser um impostor aparece na presença de uma angústia, associado a ideia de inferioridade em relação aos colegas de trabalho, de não pertencimento a determinado grupo. A pessoa não se reconhece em seus próprios méritos, se sente um impostor de suas próprias ideias. 

Uma cena que me ocorre sempre que surge este tema se refere a alguém em frente ao espelho que, ao ver sua própria imagem refletida, vê outra versão sua. É como um duplo, que traz a dúvida, confusão e horror sobre si mesmo. Este sujeito em frente ao espelho pensa: esse outro, que também sou eu, me coloca em risco, uma vez que, como impostor, pode ser descoberto a qualquer momento. É a ideia de que podemos ser traídos por nós mesmos. O homem não é senhor de si, ou “ o eu não é senhor de sua própria casa” como formulou Freud em 1917.

Nesta condição de impostor, mesmo que muitas pessoas se identifiquem, afetos e sentimentos podem estar envolvidos de diferentes formas em cada pessoa. Inclusive, este poder ser pensado como mais uma forma de falar de um mal-estar que aparece principalmente relacionado ao trabalho.

Durante a conversa no podcast surgiu a questão sobre como “ter" saúde mental no trabalho. Antes de tentar formular uma resposta, foi importante retornar a uma questão inicial: O que é saúde mental? 

Não é uma pergunta de um único caminho. É necessário optar por um discurso, um saber, para pensar sobre o tema. Além disso, esse saber, de preferência, tem que abrir o diálogo, pois ainda há uma nuvem cinza que paira sobre estas duas palavras (saúde mental), como um tabu,  relacionado ainda a crenças que julgam moralmente aqueles acometidos por algum sintoma ou psicopatologia. Isso faz calar, silenciar o sujeito. 

Quando o assunto é saúde mental, para a psicanálise o sofrimento é trabalhado no um a um. Ele é entendido como uma resposta da pessoa ao que está difícil de lidar,  ou ainda, ao impossível. Os diagnósticos dos manuais podem ser pensados como tentativas de se nomear um mal-estar que habita o sujeito. 

Freud (1930) fala do mal-estar como o impasse do sujeito, ou seja, sua impossível adequação ao ideal de universalidade que lhe é imposto pelo Outro. É preciso que ele (o paciente) fale sobre este diagnóstico, ou esta nomeação, e que possa construir um saber próprio a respeito.

Além disso, que possa colocar em suas palavras sobre o que se queixa. Há uma aposta ética do analista para que comece pelo “sinto mal” e faça um movimento lógico para o sintoma. Quinet (1991, p. 20-21) afirma: “ É preciso que essa queixa se transforme numa demanda endereçada àquele analista e que o sintoma passe do estatuto de resposta ao estatuto de questão para o sujeito, para que este seja instigado a decifrá-lo.” 

"Ter" ou "não ter" saúde mental não é uma questão da psicanálise. O que a práxis psicanalítica aponta tem a ver com o sofrimento e a impossibilidade de se ter uma vida mais "leve". Freud fala de saúde mental de um jeito que parece simples e que tenta responder a menos ideais: saúde mental é ter a capacidade de amar e trabalhar. Se você consegue realizar ambas tarefas, está num bom caminho.

A psicanálise não se propõe a curar o sujeito, a noção de cura passa pelo o que cada um faz com seu sintoma, e a que ele (o sintoma) está respondendo. Entende-se aqui por sintoma como uma formação do inconsciente, também como resposta do sujeito aos discursos que circulam na sociedade.

No trabalho, os discursos circulam e estabelecem demandas, seja em uma empresa de TI, um grande banco, escritórios de advocacia, profissionais da saúde, autônomo, trabalho informal, subempregos, etc. 

Existem patologias que estão associadas especificamente ao campo do trabalho, como a  síndrome do impostor. O que de início já chama atenção, pois se trata de um recorte do sofrimento em um único aspecto da vida.

A partir da clínica, no que concerne ao mal-estar relacionado ao trabalho ou não, é possível recolher algumas falas que apontam para uma posição subjetiva de jamais estar em condições de satisfazer o que se espera do outro. Apontar isso e trabalhar com os ideais que o colocam em situação de impotência são possibilidades de direção do tratamento analítico.

Destaco dois aspectos que nos ajudam a pensar os sintomas. Pontuo como fatores internos e externos que podem ser vistos como mesmo lado de uma figura topológica (banda de Moebius).

De um lado temos o discurso que rege no mundo corporativo, das empresas que não deve ser desprezado e afeta trabalhadores. Demandas da empresa que giram em torno de produtividade, números e claro, retorno financeiro que o funcionário oferece a empresa. A pressão para atingir metas, ou apresentar um projeto relevante representam demandas que tem efeitos diversos em cada um. 

No entanto, os discursos reproduzidos no trabalho (como o do capitalista proposto por Lacan - Seminário XVII) produzem sintomas já até bem “aceitos” socialmente, servindo bem à lógica do mercado e das empresas, como a pessoa que se diz workaholic (termo em inglês para "trabalhar em excesso"). Além disso, a diminuição dos direitos trabalhistas, também produz sofrimento, que com um traço perverso dificulta ainda mais a vida do trabalhador.

Por outro lado é importante articular tais demandas, por vezes excessivas, com o que cada um  faz diante disso ou como lida. Assim, destaco aqui três aspectos associados ao sofrimento que merecem atenção na clínica:

  • Ideal: um ideal que vira a única possibilidade de ser bem sucedido, acompanhado do pensamento: se eu não sou o que eu gostaria de ser, eu sou nada. 

  • O lugar que se ocupa na relação com o Outro: o outro pode ser excessivo nas demandas ou ainda, impossível de satisfazer. São acompanhados da ideia: O que estão esperando de mim?; O que acham do meu trabalho?; “Eu não sou tudo isso que pensam que sou”; Lacan no Seminário X fala da angústia produzida quando alguém fica no lugar de objeto de gozo do outro;

  • A repetição e sofrimento: Repetimos no significante aquilo que gera sofrimento. É preciso que alguém (um analista) escute a repetição e opere como causa do desejo.

Com todos os aspectos levados em conta, considerando o mal estar e a forma como cada um lida referente a posição subjetiva frente as demandas sociais e no trabalho, a saúde mental pode (e deve) ser pensada para além da ideia de ausência de patologia. Canguilhem em O normal e o patológico (1943/1995) nos adverte que o patológico não possui uma existência em si, podendo apenas ser concebido numa relação, num contexto social.

Quando procurar ajuda? Quando houver sofrimento. 

Notas

(1) DSM-5 - Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais» de American Psychiatric Association.

Referências 

CANGUILHEM,G. (1943/1995) O normal e o patológico, trad. Maria Thereza Redig de Carvalho Barrocas e Luiz Octavio Ferreira Barreto Leite. – 4a. Ed.- Rio de Janeiro, Forense Universitária.

FREUD, S. (1917) Conferências introdutórias sobre psicanálise. Obras completas, ESB, v. XVIII. Rio de Janeiro: Imago.

________. (1930) ”Mal estar na civilização", Obras completas, ESB, v. XXI, p.65-148.   

LACAN, J. - Seminário X - A Angústia (1962-63), documento de circulação interna do Centro de Estudos Freudianos de Recife.

________. (1991[1969-1970]). O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

QUINET, A. (1991) As 4+1 condições da análise. 13. reimpr. Rio de Janeiro: Zahar.

 

Ensaio sobre política

No último sábado, do banco de uma praça podia-seouvir o som das árvores e das peças de dominó quedeslizavam pelas mesas de jogo e entretinham homens de meia idade. A sublime contemplação daquela atmosfera pacata fora interrompida por grande barulho que se estabeleceu naquele lugar. O silêncio fora quebrado por uma fila de carros e trios elétricos em apoio a um candidato à presidência. Ao som de gritos de guerra e gestos armados, a paz da tarde rompeu-se naquele instante,não fosse a cena que aparecia do outro lado da praça.

Um grupo de jovens caminhava de forma leve, se tocavam trocando carícias e ao mesmo tempo riam das histórias que contavam, tinham entre eles a viva expressão das suas sexualidades, das suas artes, expressão do que para eles significava ocupar aquele espaço; tornaram-seresistência. Viviam a praça.O outro grupo, extremado, ora apontavam aos jovens suas armas imaginárias, ora pulavam em seus carros com frenesi.Ambos os grupos faziam política com suas falas e seus corpos. Existindo cada um à sua maneira, impactados com a existência mútua. Pesava no ar, assim como pesa o medo, a rigidez da divergência de pensamento.

O historiador e cientista político AchilleMbembé, no texto A era do humanismo está terminando (2016), conversou com esse cenário quando disse em sinal de denúncia que “a política se converterá na luta de rua e a razão não importará. Nem os fatos. A política voltará a ser um assunto de sobrevivência brutal em um ambiente ultracompetitivo”.

Essas formas de existir, atravessadas pelas histórias  que as constituem,encontraram-se naquela tarde para um embate. Ambos circularam pela praça, ofereceramsuas ideias ao lugar que habitaram. O estado democrático de direito prevê o diálogo, a divergência de ideias, com a ressalva de que não seja normalizado “um estado social de guerra” nas palavras de Mbembé, ou um clamor mortífero que rompe com a humanidade; temos em memória as lembranças do fascismo e as suas marcas nefastas à humanidade. Para esse teórico o próprio fazer político está em vias de resistir à sedução do capital “a transformação da política em negócio coloca o risco da eliminação da própria possibilidade da política”. Em tempos de capital, alguns discursos políticos oferecem como solução à crise das instituições, da economia e das relações sociais uma espécie de administração tal qual uma empresa; parecem denegar que a dinâmica das relações humanas é mais complexa do que os seus cases de sucesso.

No texto Filosofia do ressentimento, sociedade do espetáculo (2011) no livro Freud – mas por que tanto ódio¿, o psicanalista Roland Goricomenta sobre a atmosfera francesa em meados de 2010 “perderam cruelmente a esperança e a confiança no futuro e temem pelo pão cotidiano dos seus filhos” [...] “trata-se de uma crise no céu da democracia que, como a nuvem da erupção vulcânica, escurece o horizonte de nossos contemporâneos. Jean Jaurés não cansou de nos avisar: o pior, para uma democracia, é a ausência de autoconfiança”.O grande desafio da sociedade atual, não só a brasileira, parece ser a preservação da capacidade de fazer política a partir das diferenças.

O sol se pôs. As pessoas deixaram a praça. Não havia mais carreata, nem jovens nem carícias. E aquele espaço existiu com vida enquanto todos passaram por ali.

Aos analistas, lembremo-nos do dever de sempre se posicionar do lado da denúncia de todo discurso que tem por ética calar a palavra, calar o corpo de sua expressão. Façamos, enquanto cidadãos, função de praça onde a palavra possa existir e resistir. Não há psicanálise sem política, pois não há nada que milite mais do que o próprio inconsciente.

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Desenlace

Esta semana fui a um restaurante e presenciei um diálogo entre pai e filho. O pai tentava conversar com o garotinho sobre o uso do celular à mesa. Disse que se um dos dois usasse o celular alguém ficaria sozinho e, que seria muito mais legal, se eles dois ficassem conversando e brincando juntos.

O garotinho – por volta dos cinco anos – continuou insistindo, dizendo que queria brincar com o celular. De repente, a conversa iniciada com cuidado e paciência pelo pai, tomou outro rumo, quando este percebeu que não seria fácil convencê-lo. Irritado, perguntou ao menino: "Quem manda aqui?”

Prontamente, a criança respondeu: "o dono do Outback!”

O diálogo entre os dois foi o que me fez pensar, nesse momento, sobre as relações, os laços. Em uma busca rápida na internet encontrei a seguinte definição de laço: “Nó corredio facilmente desatável, com uma, duas ou mais alças.”

Acredito que há muitas outras formas interessantes de poder dizer sobre isso, mas esta definição me chama atenção por dar ênfase na facilidade do desfazer ou desatar o laço, ou seja, a possibilidade do desenlace.

Nas relações, seja na família, no trabalho, nas relações ditas amorosas, o que muitas vezes é visto como o que é sólido (certezas) se desmancha no ar, como disse Karl Marx(1). Na vida, os laços são como os do sapato, ora apertam, ora soltam, ora derrubam. Um laço conecta dois ou mais entre si, salva da solidão, conforta, assegura, tranquiliza, mas também o laço amarra, acorrenta, constrange, limita, incomoda.

A psicanálise se dedica ao tema com vários estudos. Um dos jeitos de avançar na discussão sobre os laços é pela ideia do laço social. O que faz laço entre pessoas ? Antes de nos assegurarmos com uma resposta, podemos partir da ideia de que os laços sociais são tecidos e estruturados pela linguagem e, com Lacan são, portanto, denominados discursos.

Ou seja, há diferentes possibilidades de estabelecermos laços sociais. Lacan aponta quatro formas: o discurso do mestre, universitário, da histérica e do analista. Acrescentando posteriormente um quinto discurso, único que não faz laço: o discurso do capitalista.

Os discursos são, na interpretação de Lacan, os quatro modos de relacionamento apontados por Freud (1930) como fontes do sofrimento do Homem: governar, educar, analisar e fazer desejar. São impossíveis  aos quais o Homem se propõe a realizar, mesmo com seus fracassos.

O que podemos pensar com Lacan é que existe um impossível em cada discurso. O laço proposto por cada um não está garantido. Se pensarmos no discurso do mestre, por exemplo, há uma dependência do outro para que opere sua função. Na educação, ser professor não garante que haverá ensino se, o outro (aluno), não reconhecer o lugar de quem ensina (mestre).

Com os pais de crianças, também podemos pensar os lugares que ocupam no ato de educar. A questão é, por qual via o fazem? Os laços podem operar com diferentes tons e significantes.

No caso da conversa em que mencionei no início do texto, o lugar de "quem manda aqui” não estava garantido com um reconhecimento pelo outro (criança). A posição do menino diante do discurso operado pela fala do pai desmontou o laço proposto.

A maneira como cada um responde ao discurso é o que também possibilita fazer giro e mudar para outras formas de laço. 

A certeza do “quem manda aqui” fracassou, como acontece inúmeras vezes na educação de crianças. A resposta do garotinho foi bem humorada, pois provocou risadas aos que estavam por perto, mas silêncio entre os dois.

De volta a pergunta, o que faz laço? Considerar a possibilidade do desenlace e seu impossível (não sua impotência), desmanchando a solidez das certezas, pode ser uma via para dar espaço ao desejo. 

 

(1) Manifesto comunista  (1848)

O que é um corpo?

Por Carolina Escobar

 

A interrogação sobre o corpo funda os primórdios da Psicanálise. As famosas cegueiras, impedimentos motores, paralisações, fortes dores, etc. levam Sigmund Freud a estudar os casos de histeria buscando decifrar o que acontecia com os corpos-enigma dessas mulheres. Eram enigmas, pois não eram encontradas causas orgânicas que justificassem os fenômenos descritos e, mais ainda, porque desafiavam a organização anatômica dos órgãos e músculos.

Sua teoria, após se pôr a escutá-las, é que a aparição dos sintomas corporais teria um sentido relacionado com representações inconscientes construídas na história de cada uma; mais especificamente a uma experiência vivenciada por elas como traumática.

Há uma grande contribuição freudiana nos estudos sobre o corpo; pois apresenta uma quebra de paradigma. Inserido no contexto médico, o corpo era compreendido como um sistema orgânico que responde às leis da biologia e da fisiologia; desde Freud, ele também passou a ser compreendido como efeito de uma construção particular (e inconsciente) que só pode ser feita com e pelo intermédio da linguagem.  

Apesar de serem formulações que, até hoje, servem de base para a inserção e posicionamento do psicanalista nos mais diferentes contextos de sua atuação; não são novidades para os psicanalistas, nem para os interessados pela psicanálise. No entanto, recentemente tive acesso a um livro que trouxe novos elementos para pensar o corpo e pensei em compartilhar com vocês neste texto.

Em ‘Inventando o sexo’ o historiador Thomas Laqueur (2001) se dedica para o estudo da história social e da medicina com a intenção de refazer os passos feitos dos gregos até o nascimento da teoria de Sigmund Freud naquilo que diz respeito à anatomia humana.

O autor resgata o pensamento de Galeno de Përgamo (c. 130-200), influente anatomista da tradição ocidental, uma vez que suas ideias foram difundidas de forma extensa até o final do século XVII. Segundo ele, o corpo humano seria composto por apenas uma anatomia – isto mesmo! Igual para todos os seres humanos.

Nos dias atuais, nos aproximamos da teoria do sexo único com estranheza, ainda mais quando descobrimos que ela era a explicação científica sobre o corpo, seus sistemas e funcionamento. Para nós, a ciência demonstra que a anatomia humana comporta dois sexos: feminino e masculino. São dois sistemas orgânicos distintos e característicos.

Para Galeno, todos tínhamos pênis. No entanto, ele poderia alojar-se dentro do corpo, ou então pender para fora dele de acordo com os afetos sentidos pelas pessoas e, principalmente, por sexos sociais com diferenças radicais no que diz respeito aos direitos e obrigações perante à pólis; “(...) ser homem ou mulher era manter uma posição social, assumir um papel cultural, e não pertencer organicamente a um sexo ou a outro. O sexo era ainda uma categoria sociológica, não ontológica” (2001, p.177)

Mas qual seria o impacto desta leitura? Aquilo que nos tempos atuais é compreendido como uma verdade (duas anatomias compondo o conjunto dos corpos humanos) também seria efeito de uma construção cultural e linguageira. 

O ato de nomear e a forma como isso é feito, são capazes de fundar a existência de algo.  Qual seria o efeito disto sobre a subjetividade, assim como sobre as modalidades de sofrimento em cada tempo? E no nosso?

 

 

Laqueur, Thomas Walter. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud/ Thomas Laqueur; tradução Vera Whately. – Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

 

A loucura e seus destinos

Por Anastácia David

 

A loucura, palavra feminina, foi derramada entre as mulheres como lava da misoginia. “Por que gritam essas mulheres?”, “Do que se queixam?”, “Por que paralisam?”, perguntou-se a medicina para responder aos fenômenos da histeria, panis normalis dosim repetatur¹ diziam. Àqueles, homens e mulheres, que alucinavam e que contavam de experiências que não condiziam com a realidade de todos, eram encarcerados e suas palavras esvaziadas de sentido, estavam no registro da desrazão e mereciam o exílio, o asilo, a inanição ou precisavam alcançar uma fé. Em resumo, falamos da história da loucura² na modernidade.

Nesse longo período entre os séculos XVII e XIX ressaltam-se nesse texto dois pontos fundamentais: a visão de mundo cartesiana e o surgimento dos grandes manicômios. No projeto do cogito a loucura trazia notícia de algo insuportável, a égide da razão mostrava a loucura como um erro que precisava ser reparado a qualquer preço. A ela era oferecido o manicômio; grandes instituições, a princípio eclesiásticas e posteriormente hospitalares, que se misturava toda sorte de pessoas que sofriam mazelas da mente e sociais. Essas pessoas deixavam sua autenticidade e experiência histórica para ser objeto de investigação, ou ainda, da administração totalitária da instituição. Desumanização é a palavra. 

Os grandes hospitais gerais e manicômios foram contemporâneos de Sigmund Freud que iniciou sua clínica com os estudos sobre histeria no final do século XIX e início do século XX. Freud funda sua teoria da escuta das mulheres que sofriam de maneira trágica e dolorosa dos sintomas da mente, sintomas histéricos. Articula a “cura” a partir da função dialética da fala e da escuta analítica.

Freud apresenta que a concepção de normal e patológico é uma construção social e opõe-se, com essa proposta, às ideias dos alienistas da época. Retoma a tragédia contida na loucura e a coloca no campo da psicopatologia, fundamenta a necessidade de tratamento médico, analítico e, sobretudo, do olhar com humanidade para a pessoa que sofre intensamente. Elabora os conceitos de realidade e funcionamento psíquico. Os momentos de crise tinham, agora, o sentido de tentativa de cura.  

Para Jacques Lacan, a forma como o sujeito é estruturado de maneira a ligar-se ao laço social, estrutura o funcionamento da sua teia simbólica; o campo da linguagem para o sujeito inscreve a experiência única de sua existência, que pode ser a loucura. Existe potencia criativa no discurso do sujeito que sofre, é vivenciada na linguagem e cabe ao analista com o seu trabalho ser sensível a uma logica que é do outro e não tem a ver com trazer de volta a razão, mas acompanhar e deixar advir um bem dizer.  

No Brasil, concomitante ao movimento de luta pelas “diretas já’ e redemocratização, viveu-se o movimento de luta anti-manicomial por volta do ano de 1970. A luta foi encabeçada por profissionais da saúde, pessoas que necessitavam de terapêutica adequada para o seu sofrimento, seus familiares e população. Notaram que a ausência da escuta e da rede de apoio social, evidenciava grande desamparo da rede pública de saúde. O sofrimento psíquico intenso, disruptivo, amedrontador daquele que vive com a loucura e seus familiares não possuíam espaço para o cuidado adequado naquele tempo. 

A ideia é romper com a clausura e amparar o sujeito dentro da sua rede, do seu território. Constroem-se os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ligados à legislação do Sistema Único de Saúde e Saúde Mental. Ainda hoje o processo de reforma está em andamento; a revolução iniciou uma transformação sobre a forma como é vista a loucura e quanto ao entendimento do que se torna importante no cuidado em saúde mental. Têm-se ganhos graduais e processuais que envolvem uma compreensão cultural ampla. É preciso que os governos acompanhem as discussões sobre saúde mental para que seja possível uma sociedade sem manicômios, com opções de centros de saúde mental, acesso a medicações, terapêuticas e, principalmente, escuta.

As formas de sofrer da humanidade apuram-se e atualizam-se ao longo do tempo, seja pela experiência do sujeito com o laço social seja pelas contingências históricas vividas. Vemos o crescimento de novos sintomas como cortes no corpo, medicalização da vida, ansiedades relacionadas às redes sociais dentre outros sintomas.  Percebe-se que a loucura refina suas maneiras e exige refinamento de escuta e rede de acolhimento à dor emocional. A sociedade muda e mudam-se também as formas de sofrer; atualizam-se as formas de representação da dor humana. 

Qual destino daremos para a loucura nos nossos tempos? 

Continuemos na busca por assegurar um lugar de escuta para a loucura. 

 

 

¹ FREUD. Sigmund. A História do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. ESB Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

²   FOUCAULT. Michel. A História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1977.

 

Dois anos de Escutatório: Isso não é psicanálise

A cada ano, no mês de junho, dedicamos um espaço de nossa programação para comemorar o aniversário do site.  É um exercício que nos permite construir questões sobre o que nos faz continuar investindo numa transmissão que passa pela escrita, mas não só.

Ano passado passamos pelo tema da tecnologia como ferramenta de transmissão e, desde então, já  estamos advertidas que a transmissão na psicanálise não está garantida a princípio. Ela se dá de forma inconsciente e acontece a partir de uma aposta feita a partir da ética psicanalítica. Na comemoração de 1 ano de site estávamos às voltas com a questão da transmissão e sua especificidade na psicanálise. Desde o início deste projeto dizíamos: O Escutatório é um site de psicanálise !

E hoje? Continuamos no tempo desta frase?

Nos sentimos convocadas a  tentar responder a isso, assim como a pensar os rumos do site e de nossa escrita através do saber enigmático que Magritte transmite em suas obras.

Este artista – considerado por alguns como surrealista – nos faz construir enigmas através da arte. Apesar de ser considerado como integrante do movimento surrealista; ocupou uma posição diferente dos surrealistas em vários momentos, inclusive, quando disse não ter sido influenciado pela psicanálise e que não tinha interesse nesse saber. 

Magritte dizia: "Minha arte não tem influência da psicanalise" ou "Isso não tem a ver com psicanálise ".  Assim também como escreveu: "Isso não é um cachimbo" ou ainda, "Isso não é uma maçã" em seus famosos quadros. Marcas características de seu trabalho.

Uma das contribuições de sua arte foi problematizar a imagem enquanto representação verdadeira. O cachimbo que enxergamos no quadro é uma representação dele e, portanto, nunca será o objeto em si. Algo fica de fora.

De volta as nossas questões quanto a escrita neste site e sobre a afirmação feita há um ano atrás "Esse é um site de psicanálise",  invertemos a lógica para  "Isso não é psicanalise".  Ao dizer isso, entendemos que esse é um site de Psicanálise, mas seu conteúdo não define o que ela é. Não a representa em sua totalidade.

O Escutatório é uma representação não-toda da psicanálise. E, só assim, é possível continuar nesta aposta de transmissão.

Neste mês de julho, além de comemorar os dois anos de site, faremos uma homenagem a arte de Magritte. Em cada post publicaremos uma obra feita por ele e um retorno à trechos de algumas publicações feitas por nós e por nossos convidados.

Entre-vistas com Vera Iaconelli

Apresentamos aos nossos leitores a entrevista realizada com a psicanalista Vera Iaconelli. Todas as respostas foram transcritas de audios enviados pela nossa convidada. Dessa forma, mantivemos o estilo informal comum à fala oral.  

A seção "ENTRE-VISTAS"  do site Escutatório consiste em perguntas feitas aos profissionais que apresentam um percurso pela psicanálise e, através de seus posicionamentos acerca de questões atuais, nos convidam a refletir e a (des)construir saberes. Lembramos que as respostas se referem ao modo de pensar do convidado sobre o tema proposto por nós. 

Esperamos que as "entre-vistas" aqui publicadas possam inspirar e suscitar questões para além das que foram colocadas ao nossos convidados. Agradecemos a Vera pela disponibilidade e generosidade em participar deste projeto.  

Boa leitura a todos! 


Vera Iaconelli é psicóloga e psicanalista. Atende em clínica particular jovens e adultos. Colunista do jornal Folha de São Paulo. Mestre e Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, Membro da Escola do Fórum do Campo Lacaniano SP, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Professora convidada do setor de Especialização em Psicologia Hospitalar da Maternidade São Luiz, Professora convidada do setor de Psicologia do Hospital do Coração, Conselheira Técnica da Associação de Doulas de São Paulo ADOSP, Diretora e professora no Instituto Gerar. 

Vera Iaconelli é psicóloga e psicanalista. Atende em clínica particular jovens e adultos. Colunista do jornal Folha de São Paulo. Mestre e Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, Membro da Escola do Fórum do Campo Lacaniano SP, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Professora convidada do setor de Especialização em Psicologia Hospitalar da Maternidade São Luiz, Professora convidada do setor de Psicologia do Hospital do Coração, Conselheira Técnica da Associação de Doulas de São Paulo ADOSP, Diretora e professora no Instituto Gerar. 

Escutatório: Como foi seu encontro com a Psicanálise?

Vera Iaconelli: A minha escolha pela psicanálise passa pelo sofrimento pessoal. Busquei psicoterapia na adolescência, passei por várias abordagens, até que eu encontro no setting analítico o que é essa experiência psicanalítica; me encanto e percebo os efeitos sobre mim. Na época, já era psicóloga e começo a fazer toda uma guinada a partir da minha experiência como analisante. 

 

Escutatório: Recentemente você se tornou colunista do jornal Folha de São Paulo e, desde então, tem escrito sobre sua linha de pesquisa tendo como referencial teórico a psicanálise tal como proposta por Jacques Lacan. Como você entende a inserção e o papel do psicanalista na mídia jornalística?

Vera Iaconelli: Sou uma psicanalista que foi convidada para ser colunista; mas não sou jornalista como às vezes as pessoas me chamam. Seria absolutamente incorreto. Não tenho formação como jornalista e nem escrevo deste lugar. Tem a ver com uma aspiração pessoal que sempre tive na minha carreira: a de me comunicar com os pais, com os leigos, com os profissionais de outras áreas, médicos. Enfim, sempre me interessou muito que a psicanálise não ficasse entre muros. Que a gente pudesse transmiti-la no público, falar de coisas que tocam o humano em qualquer circunstância e que dizem respeito a todos nós. É claro que, a gente como psicanalista, tem jargões, tem uma linguagem própria, por vezes bem hermética, mas como sujeitos, tentamos nomear uma experiência que todos temos em algum nível. Então, isso sempre me interessou e a Folha acabou sendo um lugar onde adquiriu um alcance muito maior... escrito. Isso me encanta muito.

 

Escutatório: O tema da perinatalidade e parentalidade está sempre presente nos cursos oferecidos pelo Instituto Gerar. Para você, qual a importância de se discutir nos cursos de psicanálise estes temas? 

Vera Iaconelli: O Instituto Gerar começa com questões da Psicanálise, da perinatalidade e da parentalidade e vem ao longo desses vinte anos fazendo esse percurso. Só que esses temas são muito amplos. A Psicanálise é um tema amplo e a perinatalidade também; porque há as adoções, os lutos perinatais, a questão da misogenia, e das identidades de gênero, as questões de políticas públicas de saúde, de instituição. É amplo e estamos fazendo parcerias cada vez mais interessantes com instituições que às vezes não trabalham especificamente com isso, mas que trazem um diálogo que nos encanta e faz a gente crescer muito. 

Sobre a parentalidade, mesmo que você não tenha tido filhos, você é filho de alguém. As análises sempre vão tocar e circundar o tema da origem e do fim. Não tem análise que não passe por essas questões. Então, a parentalidade acaba sendo um lugar em que isso está previlegiado. 

É lógico que não existe, de forma alguma, na psicanálise, espaço para pensar uma especialização. O psicanalista especializado em perinatalidade e parentalidade é uma bobagem. Não é disso que se trata. A gente tem o referencial psicanalítico que é um campo de tratamento e de pesquisa sobre a questão do sujeito, de intervenção, mas temos campos de fenômenos. A perinatalidade e a parentalidade encerram fenômenos. Estudamos o campo de fenômenos sem supor que existiria um sujeito que poderia ser predicado a partir do campo. Sujeito drogadito... não existe isso; existe o sujeito, ponto. Em sua singularidade, atravessado pelas questões culturais...mas existem campos de fenômenos em que a gente tem que saber o que se passa, até para poder estar mais aberto para o que vem do sujeito.

 

Escutatório: Quando os pais de crianças pequenas devem procurar um psicanalista?

Vera Iaconelli: Quando houver sofrimento dos pais e/ou da criança. Um bom psicanalista não começa uma análise prontamente. Primeiro ele fará as entrevistas iniciais, se ele achar que não é o dispositivo analítico que cabe para aquele sofrimento poderá, perfeitamente, encaminhar para outro profissional; ou simplesmente, durante as entrevistas, fazer com que os pais se deem conta disso. Começar uma análise para uma criança é um processo que pode ser muito surpreendente. Tem situações em que você não passa das entrevistas iniciais e os pais já vão - eles próprios - buscar sua análise ou fazer terapia de casal. Nas primeiras consultas pode ocorrer efeitos analíticos e terapêuticos que mudam um processo e criam uma nova demanda. O sofrimento na forma do enigma do sintoma é o que será o norte para os psicanalistas.

 

Escutatório: Qual a importância da escuta de gestantes através da clínica social de atendimento do Instituto Gerar?

Vera Iaconelli: Coordenamos uma clínica social que atende sujeitos em situações diversas. Temos pesquisas que se debruçam sobre o entendimento desse campo que passa pelo ciclo gravídico e puerperal, mas também pelo campo das adoções e das perdas puerperais.

Quando oferecemos esse tipo de atendimento descobrimos, a partir do estudo desse campo, a presença da pobreza do apoio social para essa população. As mulheres são o final da cadeia alimentar; ou seja, elas vêm depois dos seus bebês, são tratadas com menos importância que os próprios filhos. A mulher negra e pobre então, nem se fala! Essas mulheres muitas vezes estão numa tarefa hercúlea de criar uma criança numa situação péssima e no Instituto Gerar criamos um espaço para escutá-las; mulheres e homens que estão lidando com a tarefa imensa da perinatalidade e, também, nos casos de adoção.

Nesse processo, vamos descobrindo a falta de assistência e, ao mesmo tempo, grande exigência de que essas pessoas estariam, ou deveriam, estar aptas a cuidar de um outro numa condição de muita precariedade.  Tem todo o discurso de construção de vínculo... Nós, do Instituto Gerar, entendemos que a formação de vínculo é algo que pode acontecer ou não, mas as condições sociais devem ser dadas também para garantir que o sujeito possa se ocupar disso. Ocupar-se do vínculo sem se sentir ameaçado na sua integridade moral e física. É claro que existem pessoas em situação psíquica desfavorável para levar uma função parental adiante. Trabalhamos com todo esse campo também, mas é surpreendente como diante de uma situação tão complexa, no exercício da função parental, as pessoas são totalmente demandadas sem receber apoio.

É isso que o Instituto tenta oferecer. Além do apoio pontual a fulano e sicrano, a gente propõe a discussão desses temas e faz pesquisas para trazer a público o que a gente, enquanto sociedade e coletividade, têm feito com as mães e os pais: pessoas que se dispõem a criar outros humanos.