O analista silencioso

Por Carolina Escobar

        Um atendimento psicanalítico possui alguns elementos que são facilmente identificáveis: o divã, um analista silencioso e a fala de quem procurou por análise. Estas são ferramentas fundamentais para o caminhar de uma análise, uma vez que possibilitam um dos pressupostos básicos da Psicanálise: o acesso ao que há de mais particular em cada sujeito.

          Teremos a oportunidade de pensar cada um deles, no entanto, a proposta deste texto será a aproximação de um tema que, muitas vezes, é entendido como ponto de tensão por interessados e curiosos em Psicanálise. 

          Muitas vezes o silêncio do analista é entendido e vivenciado com desconforto, mas quais poderiam ser suas funções?

          No Estudos sobre a Histeria* (1996), Sigmund Freud relata os casos das mulheres que atendeu no final do século XIX; elas manifestavam angústia, dores e alterações corporais, como paralisias, sem que estas fossem justificadas por causas orgânicas. 

            Diante do fato de que os tratamentos médicos convencionais não surtiam efeitos diante deste tipo de sintomatologia, Freud se propôs a escutar- não sem antes ser repreendido por uma de suas pacientes que o acusou de falar demais- o que essas mulheres tinham a dizer sobre seu sofrimento e se deu conta da potência que a fala possui para tratar a dor de existir.

            O que o psicanalista percebeu a partir da experiência de escuta dessas mulheres deu origem ao que se tornaria a técnica mais característica da Psicanálise: a associação livre. 

             Desde então, cada paciente é convidado a dizer tudo aquilo que lhe vier à cabeça, sem qualquer tipo de censura ou omissão, por mais banal que lhe pareça o assunto. Ao analista, é preciso escutar o que cada sujeito diz sobre si, contar com a linguagem para intervir e apostar que, ao conhecer a verdade particular que cada um constrói a respeito de si, o sujeito possa inventar outras possibilidades para sua vida e para lidar com seu sofrimento.

            A questão que se coloca é: para escutar é preciso silenciar.

            O silêncio não é a ausência de palavras. É com a linguagem que o analista opera, por isso, a intervenção que o analista faz com sua voz possui tanta importância quanto seu silêncio no manejo e direção do tratamento.  A ausência e/ou a presença da voz do analista possuem – ambas – a função de intervenção.

            Neste sentido, qual poderia ser o incômodo com o vazio que o silêncio apresenta? 

           Talvez o equívoco seja pensar que a linguagem é feita apenas de palavras, sons e sentido. Quando, na verdade, é o sem sentido, o silêncio e o negativo que a colocam em movimento. Eles estão presentes, de forma intrínseca, em cada palavra pronunciada. 

           O motor para a construção de linguagem que dá sentido para a existência de cada um, é exatamente o sem sentido. Ao se deparar com ele, cada um irá contar com a linguagem para poder interpretar suas vivências e construir seu mundo, construir a sua verdade

          Advertido de que o sofrimento de quem procura análise diz respeito a um abalo desta construção particular, quando sustenta o silêncio, o analista convoca o pronunciamento das palavras e provoca que o analisante se apresente com sua fala.

          O espaço produzido na ausência do som é ativo. É um campo potente para que cada sujeito possa estar consigo mesmo da maneira mais íntima; acessar a cena que sustenta sua realidade e, principalmente, (re)criar novas produções de sentido quando em contato com o silêncio.

           Para isso, contamos sempre com a linguagem em seus abismos e costuras.

 

 

 

*Freud, Sigmund. Estudos sobre a histeria[1893-1895]. Rio de Janeiro: Imago, 1996.