O Brasil místico: sobre psicanálise e o "lado A" da religião

Por Anastácia David

 

   Vê-se um número crescente de estudos sobre espiritualidade e os efeitos desta nos seres humanos em diferentes contextos. Hoje, longe do interesse de esgotar o tema em questão, a proposta é de apresentar algumas inquietações resultantes do conceito de religião como escolha de vivência da espiritualidade e sua importância na história do homem, do homem brasileiro. 

    Nessa ocasião não falaremos sobre a religião como opressora, como limitante do pensamento nem como perseguidora da qual a amostra temos os tempos da inquisição, dentre outros momentos de intensa violência ligada à religião. Não versaremos sobre o temor a Deus nem as questões ligadas ao sentimento de culpa imbricadas em algumas religiões em especial as de ordem cristã (lado B). 

    A Importância de falar sobre espiritualidade por ser algo mais amplo, contempla com esse sentido generalista diferentes formas de expressão de fé, contudo, é fundamental no Brasil – um Estado laico – falarmos sobre religião nos discursos sobre espiritualidade na medida em que ela diz um mais além sobre o sujeito no âmbito politico, no âmbito das instituições. Para esse texto parece ser fundamental discutir questões sobre religião. Trataremos do lado “A”.

     A Religião é além de um fenômeno individual um fenômeno de grupo, de massa. A psicanálise enquanto saber sobre o sujeito também é grande referência nos estudos de grupo, estudos culturais, antropológicos desde os textos sociais de Sigmund Freud como, por exemplo, Totem e Tabu (1912-1914) ou o texto de base para a escrita de hoje Psicologia das massas e análise do eu (1920-1923).

     Faz-se então um convite ao leitor, de pensar alguns pontos de impacto da religião na nossa sociedade. Para esse intento, escolheu-se dois campos da sociedade, falaremos sobre alguns pontos da importância da família e da escola na formação do sujeito.

     Aqui vamos defender a experiência religiosa como um produto especificamente humano, demasiadamente humano, e sua liberdade de escolha como um dos possíveis destinos onde pode repousar a inquietações relacionadas ao desamparo, a dor de existir. Mais detidamente vamos defender aqui a importância da liberdade religiosa para a construção do subjetiva. 

     Tendemos a concordar com Leandro Karnal, historiador atualmente professor da Unicamp, quando diz “que a crença individual deve ser sempre respeitável” em uma fala realizada no programa de televisão "Café filosófico", disponível no YouTube.

       Para algumas pessoas, não todas, a espiritualidade tem papel fundamental em suas vidas e é importante ser expressada tanto no campo individual quanto no campo coletivo, das relações. 

     Vemos com frequência nas escrituras religiosas, por exemplo, situações onde as principais inspirações de ordem religiosa acontecem em ocasiões de peregrinação, de meditação, de atravessamento do deserto, por vezes um deserto literal e, em outras vezes o atravessamento do deserto como busca pessoal, como tentativa de simbolização da falta constitutiva. Podemos citar grandes revelações vividas pelos chamados "padres do deserto".

      Podemos dizer que, no campo das religiões, existe a tentativa de resposta para as questões primordiais da existência humana como sinaliza Freud – a origem, a sexualidade, a morte.  Delas a religião obtêm êxito no que diz respeito a resposta pois, joga no campo dos dogmas da fé aquilo que não se pode elucidar somente com palavras, deixado a cargo do peregrino da vida o trabalho de elaboração no que diz respeito a sua Angst (angústia, que também podemos ler como medo). E mais, arrisca-se dizer que ainda aqueles que não escolhem a religião como vivência de espiritualidade, aqui no Brasil, sofrem influência delas desde muito cedo.

     A experiência clínica nos mostra que com facilidade temos acesso a recordações relacionadas a episódios com personagens religiosos. Essas figuras, benzedeiras, curandeiras, parteiras, videntes, cartomantes, baianas, povoam o imaginário popular sendo personagens da nossa história. São absolutamente ligados as mais diversas religiões e fazem parte da construção da identidade do povo brasileiro. 

     O Brasil místico se inscreve em nossa fala desde quando crianças em nossos primeiros berços: a família e a escola.

    Em um debate realizado essa semana com o professor e psicanalista Christian Hoffman pontou-se a família e as transformações nela vivida atualmente como sendo de grande valia ao ouvido atento dos analistas, porque é no modelo da família que a “política da cidade é construída”. É também no ambiente escolar, nesse micro-espaço, que pode-se vivenciar as principais relações sociais, as concepções de lei, a perpetuação de conceitos e pré - concepções diversas. 

    Seguindo esse raciocínio é de berço que temos os primeiros contatos com a perspectiva religiosa e são nesses primeiros lugares de convívio, que na infância se aprendem noções de tolerância e sobretudo o seu revés a intolerância. 

      O termo tolerância surgiu no século XVI no momento das guerras religiosas entre católicos e protestantes, refere-se a compreensão, ao respeito pelas opiniões divergentes e ao cuidado com o outro considerando e validando sua liberdade de pensamento, e nesse caso, sua liberdade em expressar sua fé. 

      É importante falar sobre a religião, importante fortalecer o direto do sujeito de construção da sua espiritualidade através do conhecimento sobre o diferente, o entendimento sobre a alteridade, ou seja, aquilo que é forma de existir do outro. Nesse sentido, calar o sujeito na sua expressão de fé, na sua busca pela espiritualidade, ou seja, agir com intolerância diante da fé do outro em qualquer circunstancia é um gesto de recusa do outro, é um ato de violência com o que é da ordem do humano, não deixa de ser uma violência consigo próprio.

     Para encerrar essa breve explanação aponta-se a afirmativa: é possível encontrar os traços do Brasil místico em nós. 

   Sejamos ateus ou não.

 


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