Brincar, para quê?

Por Lorena bitar

 

“Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz.”

Chico Buarque

   

   A infância está permeada por vários olhares. Para alguns é a época da inocência, pra outros a época nostálgica do “eu era feliz e não sabia”, pra outros é associada à total ausência de preocupações, onde o que importa é só a alegria e a brincadeira. 

   De fato, uma criança ainda está aprendendo como funciona o mundo. Os atos não tem o mesmo peso, e podem experimentar um pouco da vida adulta – por meio da brincadeira – sem sofrer as mesmas consequências, afinal estão brincando. E brincam não apenas para se divertir, mas para experienciar um pouco mais do mundo à sua volta. 

   O brincar é peça fundamental na vida de uma criança; ele contribui para a aprendizagem, a criatividade, a exploração, a interação. Mas para além disto, o brincar é parte do processo de constituição psíquica de um sujeito.  

Explico!

    As crianças, por não possuírem todo o aparato simbólico da palavra – já que estão em desenvolvimento – utilizam o brinquedo como suporte imaginário para expressar seu mundo interno, seus conflitos e seus desejos. Disso depreendemos que o brinquedo opera como ponte para o ato simbólico do brincar, na medida em que permite que os conteúdos internos da criança se tornem palpáveis em coisas do mundo real, como uma espécie de materialidade imaginária. 

    É por meio da brincadeira também, que as crianças experimentam outras posições, podendo sair de uma posição de passividade, e se colocar ativamente na cena. As vezes vemos crianças que são submetidas à algum tipo de violência ou agressão, e na brincadeira se posicionam como aqueles que mandam ou agridem, como uma tentativa de dominar a situação, mas também de criar e produzir novos sentidos a partir dessa experimentação. 

   Freud em seu texto Escritores Criativos e Devaneios (1908 [1907]), comparou o brincar da criança com a atividade criativa do escritor. Ele nos conta que ambos criam seu mundo próprio, investem grandes quantidades de emoções em suas criações e ajustam-no para um jeito que lhes fique mais prazeroso. Mas acrescenta, que apesar da energia investida e da seriedade com que o fazem, ambos reconhecem que o mundo da criação é diferente da realidade, sendo isto que distingue o brincar do fantasiar.

   Esse universo da criação aparece muito bem retratado no documentário fruto de um lindo projeto de pesquisa chamado Território do Brincar, idealizado por Renata Meireles e David Reeks, com co-realização do instituto Alana e participação de algumas escolas parceiras. 

   Nele, o brincar é capturado em sua espontaneidade, com materiais pouco estruturados, permitindo que a criança se apresente a partir dela mesma e da exploração daquilo que há ao seu redor. A ideia central do projeto é de olhar para a brincadeira por si só, sem conteúdos amarrados ou propostas sugeridas, com a função de permitir à criança interagir, experimentar, imaginar e explorar o mundo que a cerca. 

   Na medida em que constroem brinquedos, imaginam as cenas, criam estórias, transformam panelas em tambores, garrafas em barcos, madeiras em móveis, os pequenos encenam, articulam, projetam e elaboram os acontecimentos da sua vida.

  Mais ainda, quando brincam e criam, reproduzem em ato aquilo que lhes falta e desejam alcançar – o desejo de ser grande e os ideais que tem de si - e neste tempo, presente, futuro e imaginação se misturam. 

   As brincadeiras de faz-de-conta, de ser adulto ou de personagens mágicos e super-heróicos, colocam em cena, por um lado, aquilo que é da ordem do impossível de alcançar, e por outro, criam lugares possíveis para a criança se posicionar no mundo. 

   E acredito que aí reside a riqueza do projeto, onde desconstrói a banalização do brincar, e legitima-se seu estatuto de formador da infância. Onde a criança, ao criar, se recria. 

 

 

Referências

FREUD, SIGMUND. (1908[1907]) Escritores criativos e devaneios. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Ed. Standard Brasileira, vol.IX Rio de Janeiro, Imago. 1976.