No caminho, um tropeço

Por Mariana Anconi

 

O certo é incerto, o incerto é uma estrada reta
De vez em quando acerto
Depois tropeço no meio da linha

Marina Lima

 

     Fazer planos. Imaginar o futuro. Criar expectativas. Há quem prefira evitar tudo isso para não se deparar com a frustração. Como será viver o tempo todo evitando frustações/decepções? Trata-se de uma lógica em que a possibilidade de uma decepção vira uma certeza e, consequentemente, a perspectiva de uma vida baseada no que vai dar errado se instala. Ter o controle (ou a ilusão de tê-lo) das situações pode ser uma forma de tentar obter garantias na vida. Felicidade significa não ter frustrações?

     O avanço da tecnologia serve de termômetro e indicativo para as questões e problemas de uma sociedade, por exemplo, os celulares e computadores como dispositivos indispensáveis no dia a dia das pessoas, mas nem eles escapam aos furos. Quem confia plenamente em seu computador durante o processo de escrita de uma tese de doutorado, por exemplo? Salvamos arquivos em inúmeros dispositivos, pastas, pen drive, até na nuvem (à quem pague o céu é o limite). Nesse sentido, busca-se formas de obter menos riscos nas escolhas e mais garantias, sempre com um custo (às vezes alto dependendo da moeda que se paga). 

     Sobre esse preço a ser pago, há quem pague com a moeda psíquica. O tropeço consiste no desgaste psíquico para fazer com que as coisas não "saiam do eixo". Para tapar os buracos há alguns remendos, que, frágeis ou não, tamponam e afastam o sujeito de seu desejo. Há um grande número de pacientes na clínica se queixando de um mal estar difícil  de nomear, que toma conta do corpo, por exemplo, com dores no peito, falta de ar, sensação de desmaio. E para cuidar disso não basta apenas o remendo, pois se trata de uma costura complexa.

     Ao tentar fazer borda ao mal estar em que se vive – através da fala – toca-se no ponto-chave em que justamente as coisas escapam. As incertezas, as dúvidas, e a falta de controle na vida em muitos aspectos. Esse limite, o qual também chamamos de castração, é particular a cada um. A princípio a castração nos leva a pensar que com ela só temos encrenca na vida (problemas e mais problemas). Ledo engano, na verdade, ela ajuda a manter um modo específico de "organização psíquica", seja reconhecendo ou não sua existência, construindo assim a realidade psíquica.  

     E se estamos falando das incertezas, dos furos, da castração e dos efeitos disso, como lidar com isso tudo?

     Poderíamos encerrar o texto retomando algo já dito em outros artigos do Escutatório: é preciso falar sobre como isso afeta a cada um, sabendo que há um impossível em jogo que concerne as certezas da vida. Porém, destaco desta vez,  a questão que está no pano de fundo, que se refere a uma certeza e verdade a qual todos temos que lidar: a finitude. Se há uma única certeza na vida ela é a finitude. A morte está sempre sendo atualizada na vida. 

     A partir disso, pode-se avançar na ideia de felicidade não apenas como um caminho para a vida eterna em que a morte é driblada, mas sim em descobrir o que está em jogo a cada tropeço na vida e, a partir disso, reinventar a própria realidade.

     Em O Sétimo Selo do diretor sueco Ingmar Bergman, Antonius Block joga uma partida de xadrez com a Morte. Faz exatamente o que fazemos ao longo da vida: jogamos uma longa partida ao final da qual estaremos derrotados. Contudo, o destaque fica para a extraordinária cena em que Antonius Block vai a um confessionário e, em vez de um padre, é atendido pela própria Morte e, ao fim do diálogo, Antonius fica feliz por simplesmente jogar. 

 


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