Tempo e corte: Fim de um ciclo?

    Que tempo é esse que renova as esperanças para a possibilidade de um amanhã melhor ou mesmo diferente? Seria esta esperança o efeito de um corte ou ruptura no calendário? Existe um só tempo? A pergunta parece ingênua, mas quando se define a perspectiva pela qual se considera o tempo, ele pode ser vários, mas também pode ser um, por exemplo, o caráter democrático do tempo ao ser finito a todo ser humano.
    Fim de um ciclo? Um ano que passou e promoveu muitas marcas. Em nossa cultura o momento de retrospectiva do ano na TV é muito aguardado. A ideia de poder reviver os fatos, lembrá-los para então, quem sabe, elaborá-los se presentifica. A repetição está aí, mesmo que em seu caráter mórbido, como o de rever cenas tristes e chocantes, mas também de reatualizar o passado, de certa forma, retornar no tempo.
    Em um ano temos como um ciclo completo das quatro estações e das datas que celebramos com os que estão a nossa volta e com quem compartilhamos a mesma cultura. Sem dúvida alguma são marcadores fundamentais para os humanos; assim se organizam, se encontram, convivem. No entanto, nem sempre esses marcadores coincidem com o que marca nossa vida; nossa carne. 
    As horas, os minutos e segundos fazem parte das marcações também. Estamos acostumados a considerar o tempo a partir das batidas do relógio. O tic-tac é o maestro do dia a dia; ele determina o que é um dia, um período, um ciclo. Ele organiza e constrói a rotina. Nos lembra o momento de acordar e, para alguns, até o momento de ir dormir. Promove encontros, mas não os garante. A vida é feita também de desencontros. 
    Ao mesmo tempo que organiza a vida, também é ele que assombra com seu constante lembrete de que uma hora, um minuto, um segundo já se foram. Sem possível retorno. Ele é sentido na pele quando, por exemplo, encontramos rugas displicentes em lugares que nunca imaginaríamos que pudessem enrugar e, no corpo, quando perdemos a força dos músculos e a flexibilidade das articulações. Ele – o tempo – nos atravessa.
    Há um tempo que se caracteriza no corte e não na continuidade. Esse corte é poderoso! Ele é tão potente que é capaz de desbancar os marcadores do tempo coletivo e compartilhado para inaugurar um outro tempo, aquele com o qual o sujeito dança conforme seu ritmo.
    Para os analistas o tempo está para além do chronos. Uma sessão pode ser pontuada a partir do relógio ou no momento de um dizer. Tempo do sujeito se dizer, o tempo do ato, o tempo da repetição, o tempo do fim de uma sessão. Não temos como falar sobre o tempo sem associa-lo à angústia e a castração. Essa angustia que se confunde com a que “mora na filosofia”. Angústia de saber-se finito. O que fazer com o tempo que lhe cabe, com o tempo que resta? Vivê-lo!
    O tempo de uma vida, de um dia, a passagem do tempo sentida na natureza; o sol que se põe para dar lugar à lua que chega soberana do céu. O tempo daquele dia, que define se vamos sair de casa usando casacos e galochas ou se poderemos tomar um açaí no fim de tarde caminhando com sandálias por aí. O tempo subjetivo de uma ligação esperada, de um abraço de alguém que se quer bem. Sua potência? Ser fruto da costura de cada sujeito ao acaso e, produzindo assim, a batida que o caracteriza. 
 

Anastácia David

Carolina Escobar

Mariana Anconi