Observações sobre o corpo

Por Mariana Anconi

 

     O corpo é medida, forma, conteúdo e duração. É objeto de estudo de diversos saberes que, vez por outra, deparam-se com sua complexidade. Singular e plural. É causa e efeito. Está na ambivalência. Da constituição no narcisismo ao reconhecimento da imagem no espelho pelo Outro. Júbilo.

     Uma vez inserido na linguagem o corpo é também lugar de expressão do sujeito. A fala, o discurso e a metáfora atestam. Nos ditos populares aparece constantemente. Quem nunca conheceu uma pessoa que "fala pelos cotovelos."? Ou quem nunca "meteu os pés pelas mãos"? Ou ficou com "água na boca" ao olhar um bolo de chocolate?  Quem nunca "quebrou a cara"? , Ou conheceu alguém "cara de pau"?, Ou ainda alguém que "meteu o nariz onde não foi chamado"?  As expressões coloquiais e populares demonstram maneiras pelas quais o sujeito pode se apropriar do corpo no laço social. 

     Quanto a isso, há muitas maneiras de se apropriar. Em sua obra “O mal-estar na civilização” (1930), Freud esclarece que a beleza, a limpeza e a ordem ocupam posição especial entre as exigências da civilização.  Com o corpo não é diferente. Tendemos a repudiar tudo o que é feio, sujo ou desordenado porque tememos essas características em nós mesmos, daí a rejeição (mesmo que inconsciente) com os quais não nos identificamos. 

     De certa forma, vemos nas diversas experiências contemporâneas com o corpo, a presença dessas exigências e o repúdio ao que não corresponde ao "padrão" de beleza e saúde por exemplo. Aqueles que tentam corresponder a isso, persistem na frustração. Em alguns casos tornam-se pessoas angustiadas e tristes. O espelho ganha uma nova função para além do reflexo: Eu não me vejo mais, vejo apenas o meu ideal (aquilo que não sou ainda). Dependendo de como se lida com o ideal ele pode servir para impulsionar o indivíduo para a vida ou ajudá-lo a tamponar um buraco, uma falta que é essencial ao sujeito. E aí os efeitos são nefastos.

     Atualmente, questões relacionadas a experiência do corpo na religião e ciência, no exercício sexual, nos regimes alimentares, treinamentos físicos, etc. podem definir ideais presentes na cultura estabelecendo parâmetros que acabam tornando-se verdadeiros imperativos às pessoas, deixando de lado a singularidade dos corpos. Não é à toa que os debates sobre o corpo e o que se faz dele  – como no aborto – sempre retornam à nível de tabu na sociedade. 

     Esse corpo ora me é próprio, ora alheio. Não o conheço totalmente. E quando acho que conheço, me surpreendo. As manifestações patológicas no corpo sinalizam algo do sujeito. Uma enxaqueca que persiste, uma falta de ar, uma erupção na pele, os pelos do corpo que caem, etc. Ao contrário do que se pensa, o corpo não fala. Quem fala é o sujeito do inconsciente. Tais manifestações da ordem de um não-saber colocam o indivíduo frente a possibilidade de se implicar ou não com o que não reconhece como seu. "Se não é meu, o que faço com isso?" Há quem se cale por não ter respostas. E há quem se utilize de outros recursos (fala, escrita, a arte) para ir em busca delas.

     Na arte, o corpo apresenta nuances e convoca os expectadores. Em sua conferência – no Encontro Internacional do Corpo Freudiano - Escola de Psicanálise realizado mês passado em Búzios - RJ – a psicanalista Paola Mieli ao falar do corpo faz alusão as intervenções artísticas, dentre elas, a de Marina Abramovic, dando destaque para a intervenção chamada de Imponderabilia realizada primeiramente em um museu na Itália com seu parceiro Ulay, também artista performático. Marina e Ulay ficavam nus, frente a frente na entrada do Museu. Os visitantes eram obrigados a passar pelo espaço limitado entre eles. Cada pessoa que passava tinha que decidir qual dos dois iria encarar. A reação dos visitantes diante da situação é o efeito mais intrigante – e cômico – da performance. Acredita-se que nesta situação a verdade de cada indivíduo é exposta por meio da situação incomum que precisa ser enfrentada. O melhor da performance consiste na tomada de posição do sujeito no momento em que é convocado. Assim como na vida.

 

Impoderabilia (Bolonha, 1977) 


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