Inconsciente?

Texto por Carolina Prado

 

   “Você é psicanalista?! Então me diz, o que é o inconsciente, afinal?”. Esta é uma pergunta que escuto com frequência ao me apresentar como psicanalista nos mais diferentes lugares. É mesmo uma questão que intriga e não nego que ela foi a responsável por me impulsionar a ser analista.

    Entretanto, apesar de rapidamente associado à Psicanálise, o Inconsciente não foi um conceito proposto por Sigmund Freud. Esta é uma discussão preciosa é extensa; por isso, neste texto será apenas apresentada de maneira breve, já que, neste momento, pretendo dar alguns passos em relação à compreensão do Inconsciente da Psicanálise.

       O interesse pelos processos não-conscientes, ou que não acessamos de forma refletida, teve seu início na filosofia. Pensadores como Espinoza, Kant e Schopenhauer já se ocupavam da busca pela compreensão do que está para além da racionalidade do pensamento, e o compreendiam como contraponto aos fenômenos da consciência (“fiz sem saber, portanto fiz de forma inconsciente”).

        Freud era um dos estudiosos que estava inserido neste cenário cultural; no entanto,  revoluciona com o que até então era compreendido, quando localiza no Inconsciente a causa das manifestações humanas. Friso que a grande proposta freudiana foi propor que aquilo que escapa à consciência é produzido em um lugar que possui funcionamento próprio, é regido por determinadas leis do sistema inconsciente e não é, apenas, oposto à consciência.       

               A psicanálise não nega a existência do orgânico, das necessidades fisiológicas, dos neurônios ou dos órgãos; porém, propõe que cada pessoa irá relacionar-se de maneira particular e construir um saber sobre si por intermédio do campo da palavra. Ou seja, cada pessoa dará sentido para sua vida a partir da interpretação que constrói daquilo que é; seja seu corpo, suas relações, os fenômenos culturais, enfim, a realidade que o cerca. 

          Esta é uma construção particular que só pode ser feita com e pela linguagem. Com a linguagem, somos capazes de interpretar os fatos, que uma vez interpretados, se tornam uma verdade, a verdade de cada um de nós. Sem nos darmos conta, construímos uma verdade que será responsável por nortear e fornecer a consistência necessária para que possamos dizer “Eu existo”.

         Neste sentido, fica clara a importância desta construção particular inconsciente; é com e a partir dela que reconhecemos a própria existência. Não é a toa que fenômenos que sejam capazes de abalar esta verdade causam sofrimento e adoecimento àspessoas que, por vezes, chegam aflitas em suas análises com o objetivo de compreender sua dor.

        Quando um analisando fala durante a sessão, apresenta seu mundo, suas representações, a compreensão que possui de sua existência sem saber que é uma verdade particular e inconsciente. 

        Diferente do que é dito no imaginário cultural, o Inconsciente não está nas profundezas da mente e precisa ser escavado e decifrado para que encontremos a essência da pessoa; ele se encontra na superfície, no que está presente o tempo todo, no que mostra com seu corpo e, principalmente, nas palavras enunciadas na fala. 

       ‘Fale de maneira livre tudo o que lhe vier a cabeça’ é um pressuposto básico nos consultórios dos analistas. A associação livre é uma ferramenta valiosa, pois, na verdade, apesar de ser aparentemente livre, a associação produzida é determinada pelo saber sobre si que construímos sem ter consciência disto. Neste sentido, um ato falho – equívoco em uma produção de linguagem (fala, escrita, memória, ato) – é sempre um ato bem sucedido, já que comunica algo da verdade inconsciente daquele analisando. O Inconsciente se manifesta na e pela linguagem.

          Ao supor que o Inconsciente é um saber que comunica o que há de mais particular de cada pessoa, um analista possui a importante função de escutar, reconhecer este saber e sustentar a possibilidade de que cada analisando possa acessar os determinantes que operam em sua vida e, a partir disso, inventar novas possibilidades para desfrutar a própria vida. 

       


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