Morada do desejo

Colunista: Anastácia David

Colunista: Anastácia David

Em certa ocasião de uma análise ouviu-se do analista a seguinte frase: “É sim, é preciso falar da dor”. A dimensão de dor que o analisante – aquele para quem se dirige o tratamento – se referia naquela circunstância, tinha a ver com uma dor no campo das emoções, falava-se sobre uma ferida, algo difícil de falar, algo mais profundo.

Dor subjetiva, ou seja, que não se delimita ao corpo e nem tampouco à mente. Uma dor que se inscreve, sobretudo, na linguagem – não há outra forma desse sujeito falar de si que não passe por essa dor que sente. 

Quantos de vocês já não presenciaram um discurso dessa forma? Quantos de vocês já não viram alguém assim, onde isso se mostra de maneira mais evidente?

Voltando a situação da análise citada, o analisante segue falando ao analista:

“Não sei se você se recordadaqueles filmes onde a trama consiste em um corte no tempo onde cada dia vivido é a repetição do anterior, como se houvesse um marco inicial e, todos os dias subsequentes fossem a repetição deste primeiro dia”.

E continua: 

“Posso relacionar o meu sofrimento emocional, essa dor, como esse Feitiço do tempo, onde eu esbarro nos mesmos entraves e como num Dejà vu penso que estou eu novamente entrando naquela mesma situação.”

Naquele momento falava-se de uma situação que sempre se apresentava ao analisante e a questão que se formulou durante a sessão foi: 

“Até quando irei padecer desse mal que me leva a crer, que eu estou criando?”

Vamos deixar um pouco de lado a sessão de análise criada, pois ela ainda temum longo percurso até o seu fim – terminável ou interminável – para pegarmos essa cena onde o sujeito se põe a falar para o analista.

E se põe a falar justamente das situações que se repetem em sua vida e cujasrédeas não parecem estar em suas mãos. 

São essas, as situações repetidas, que estão em volta do núcleo traumático e do sofrimento nele contido.

Observa-se que antes, nos exemplos dos filmes,  o sujeito se vê sozinho no momento de passar por essa angústia e de vivenciar o seu dilema. 

No decorrer de uma análise a proposta é que se possa construir um elo de trabalho – transferência – para atravessamento do sofrimento, para atravessamento dessas situações citadas hoje, mas também de muitas outras tão frequentes nas análises como, por exemplo, fobias, tristezas profundas, ansiedade.  

Parece não haver muito sentido falarmos do mito da busca da felicidade quando gastamos uma grande energia com aquilo que nos causa sofrimento. É importante lembrar que estamos nos referindo a atravessamento, e não remissão da “dor de existir” e do real da falta inerente ao humano. 

Diferente dos filmes o que se pode com uma análise é conhecer o mecanismo de que algo em si próprio o está guiando para aquela situação. É necessário repetir, falar muitas vezes sobre o sofrimento, para que o ouvido atento do analista possa pinçar algumas palavras que abram para novas significações, novas formas de falar sobre a mesma coisa, novas formas de ação: ato. 

Mas então estamos supondo - e quanto a esse conhecimento devemos integralmente ao inventor da psicanálise - que existe uma força que nos impele a viver situações e da qual não nos damos conta até adentrar num processo analítico. Ou seja, até nos dispormos a falar e permitir que essa fala caminhe livremente por diversos assuntos até encontrarmos a “verdade do sujeito”, até que ele possa se dizer.

A matéria prima do trabalho analítico está onde o sujeito pode advir, tal com Freud afirma e Lacan repete. 

Psicanálise é movimento, entre palavra e ato. É preciso falar para um outro que possa da coxia dirigir a cena do setting analítico para que se possa dirigir a cena de sua própria vida. 

O que buscamos afinal? É possível correr atrás daquilo que liberta, é possível correr atrás do diferente? A neurose tem como grande aliada a sensação de culpa e o gozo, essas “dores da consciência” como se refere Freud em seus textos.

Então, o que se pode numa análise não é deixar de sofrer. A promessa que se cumpre ao final do percurso analítico é esvaziar-se da toxicidade da vida humana como construída nos dias atuais e poder dizer que seu desejo aponta para um lugarque é diferente,  singular, e não sentir-se sozinho ou menos humano por escolher e se posicionar. Sendo assim, o lugar para onde aponta o Desejo é morada da verdade sobre o sujeito, da verdade sobre si.

 


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