Afinal, qual a ética da psicanálise?

Por Mariana Anconi

      O que nos traz em mente ao falar de ética nos dias de hoje? Não parece difícil pensar na esfera política a qual (sobre)vivemos que traz questionamentos quanto a ausência ou presença dela. Atrelado a isso, vê-se um movimento em julgar os comportamentos e práticas pela via da moral, ou mesmo uma tendência em ter que estabelecer o lado bom e o lado mau, o herói e o vilão das situações, o que reforça o pensamento maniqueísta pautado em uma norma ideal e universal dos comportamentos. Seguindo esta linha, supomos uma ética presente nos laços e vínculos pessoais e de trabalho que nos leva ao encontro daquela proposta pela filosofia. 

  Basta uma pesquisa rápida com a hashtag #ética na internet para confirmarmos a generalização da noção de bem ou mal ou dos comportamentos morais esperados em sociedade. Facilmente encontramos um discurso vinculado às práticas profissionais e às relações humanas pautadas na razão e na preocupação de se ter uma "consciência leve". Frases que destaco: "Não existe travesseiro mais macio do que uma consciência limpa"; "Ética é aquilo que você faz quando todos estão olhando"; "Se quiser conhecer uma pessoa, não ouça nada do que ela diz, apenas observe seus atos". Fica claro o caráter avaliador e normativo dos comportamentos e dos atos numa perspectiva aristotélica.

   E a ética da psicanálise? Em que ela se baseia? Seria a mesma proposta por Aristóteles à Nicômaco? Se pensarmos que ela visa a um bem final e universal com auxílio da razão, não. Portanto,  se há um bem, precisa-se definir à que bem visa a ética psicanalítica. Seria o bem-estar, por exemplo? Vejamos.

    Alguns pacientes procuram por atendimento psicanalítico quando encontram-se com dúvidas referentes a um conflito moral e ético, por exemplo: o que é certo e o errado, escrúpulos por determinada conduta, vergonha por alguma atitude, pensamento ou até mesmo um sonho. Nesses casos, esse conflito o faz renunciar de seu desejo (inconsciente) e permanecer em uma repetição que o mantém em sofrimento. 

     Ao bater na porta de um analista, em termos gerais, o paciente busca a cura e a resolução de seu problemas. Diante disso, destaco dois pontos importantes: A demanda de felicidade "plena" – feita pelo paciente – e o desejo inconsciente. Esses dois pontos – a meu ver – são norteadores para pensarmos a ética na clínica psicanalítica. 1. A demanda pela felicidade “plena”  por parte do paciente embora plausível, não deixa de evocar alguns problemas, uma vez que, cabe ao analista sustentar – na transferência com o paciente – a dimensão trágica para que a demanda de felicidade se transforme naquilo que irá impulsionar o analisando/paciente ao acesso ao que lhe é mais particular: seu desejo inconsciente. 2. O desejo inconsciente, exatamente por ser inconsciente não está “localizado” na razão, é algo que escapa à consciência. No entanto, sua existência pode ser indicada, por exemplo, pelo sintoma (resposta que o paciente apresenta frente a um conflito psíquico) que, por ter o caráter de metáfora, ao mesmo tempo que vela, revela-o. 

      Logo, a ética psicanalítica não trabalha na promessa de felicidade plena ou bem universal, mas sim, a partir de uma escuta pautada na suspensão do juízo moral diante da fala do paciente, constituindo uma aposta no singular das respostas de cada um.  O analista segue na direção de apontar ao sujeito a dimensão de responsabilidade por suas questões e seu desejo.

     Portanto, estamos falando de uma ética que não impõe ideais morais ao paciente, e que leva em conta o paradoxo do conflito psíquico. Por exemplo, uma pessoa com algum tipo de vício (álcool, drogas, etc.) está avisado pela sociedade, familiares e por si mesmo das consequências para sua saúde e bem-estar, porém ele persiste em sua posição, mesmo que acarrete sofrimento. Aí está o paradoxo do conflito psíquico. Por outro lado, o analista não repete o discurso moral ao paciente, mas aponta para a causa de seu desejo. Desse modo, pode-se entrar em cena o que conta como responsabilidade do próprio sujeito por suas paixões. Essa é a ética anti-normativa e anti-universalista. É a ética psicanalítica do bem-dizer. 

 


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