E agora, onde vou me amparar?

Texto por Lorena Bitar

 Estamos vivendo um tempo em que entristecer confunde-se com deprimir. Que estar sozinho é sofrer de solidão. Que enlutar-se é perder tempo. Que sustentar incertezas é gerador de angústias. Que encontrar respostas é mais importante que qualquer pergunta.

       Nesse tempo, em que muitas vezes calar a dor é mais urgente que ouvi-la, relembro uma frase da psicanalista Denise Maurano que diz: "não podemos nos curar da ferida de sermos humanos”. Nela, a psicanalista se refere a uma marca que aponta para algo que dói mas que também nos torna humano. 

         E afinal, do que se trata essa ferida?

       Nossa vinda ao mundo, não é sem dor. Quando nascemos e nos separamos do corpo materno, carregamos conosco a dor originária e insuperável desta primeira separação. Junto a isto, viemos em um estado de fragilidade biológica e psicomotora, que nos coloca em uma posição de dependência absoluta aos cuidados de um outro, em geral a mãe ou alguém que exerça a função materna. Este outro, ao se ocupar das necessidades fisiológicas e afetivas, opera como um guardião da integridade física e psíquica do bebê, e representa aquele capaz de garantir amor, amparo e proteção. 

     Mas desde os primórdios da vida, vivenciamos um mal-estar frente às situações de vulnerabilidades que é estrutural e elementar. 

        Desta forma, tem algo que a figura materna não é capaz de garantir. E isto não se dá por uma falha ou incompetência, mas por algo que escapa à própria mãe; ela também possui em sua constituição a mesma marca de fragilidade que a faz humana e por isto não está sob seu alcance suprir todo o mal-estar de seu filho. Além disto, a linguagem, que permite à mãe simbolizar o mundo para a criança, também carrega consigo a marca de uma incompletude, já que não consegue oferecer respostas absolutas e definitivas para todas as diversas dimensões da ordem humana. Em última instância, sempre haverá algo impossível de ser dito.

      Sendo assim, estamos diante de um dado inexorável da nossa existência: viemos ao mundo em uma condição de desamparo estrutural e é ao redor deste desamparo que nos constituimos. É por estarmos desamparados, que nos vinculamos à alguém, nos inserimos no laço social, permitindo o mergulho na ordem humana, no mundo e na cultura.

    Na vida adulta, o homem permanece deparando-se com situações de vulnerabilidades, incertezas, e faltas de garantias que evidenciam seu estado de desamparo. Em alguns casos, diante de situações geradoras de angústia ou de sentimentos de desproteção, nos transportarmos inconscientemente ao nosso estado infantil primordial de impotência onde encontramos uma suposta proteção nos braços de alguém. 

    Por vezes, as figuras idealizadas, deuses, ou líderes, surgem como uma saída que exime o sujeito, ilusoriamente, de confrontar-se com seu desamparo, como se um ser superior e protetor, ao cuidar, pudesse dar-lhe a certeza de estar protegido e livre de todos males. 

     O que precisamos compreender é que a marca do desamparo (e da falta de garantias a que todos estamos submetidos) não é algo que podemos superar, mas que precisamos nos apropriar. E apropriar-se implica reconhecer que somos portadores de uma falta fundamental, que nos faz incompletos por essência.

     Sob essa ótica, a psicanálise legitima o que há de fundamental em nossa constituição e abre espaço para o sujeito se situar frente sua fragilidade e, assim, possibilitar a criação de novos sentidos para sua vida a partir do reconhecimento de que não dependemos de um outro para cuidar do nosso próprio desamparo.  

      Isso pode ser libertador!