Corpo e pedagogia (texto-resposta)

Por Carolina Escobar

 Um dos postulados importantes de Sigmund Freud (1923/1996) é “ O Ego é sobretudo um Ego corporal”* e foi inevitável pensar nele ao ler o texto produzido por Jonathas. Esta é uma afirmação que instiga, já que o Eu (Ego), de forma geral, está relacionado com aquilo que identificamos como o que diz de nós. É onde nos reconhecemos e desde onde partimos para nos colocar no mundo. No entanto, como constituímos nosso Eu? Do que ele é composto? 

 

“ Ora, se o corpo é o limite do Eu com o mundo, há que exercitar o contato com o externo. Esse limite permeável que possibilita se apropriar das coisas que estão no mundo e na cultura , que permite deixar marcas e ser marcado, transformando quem se é.

 

        Recolho este trecho do texto de Jonathas, pois - assim como a compreensão psicanalítica - atribui uma função fundamental à experiência corporal no que diz respeito à constituição do que chamamos de Eu.

       Sim, constituição! Uma das subversões psicanalíticas é considerar que reconhecer-se em um Eu não é algo que nos acompanha à priori ou desde o nascimento, ele é construído por cada pessoa de forma particular. Um a um.

         É uma construção que parte do orgânico, da matéria corporal, dos tecidos e bordas de cada corpo; porém, é efeito da maneira que esta matéria é historicizada; ou seja, o que cada pessoa conta sobre o corpo em si.

        Será por meio das trocas, de afetar e ser afetado, e – principalmente - da interpretação que cada pessoa dá para estas vivências que o real da matéria se torna um corpo. O que antes era fragmentado em sensações, pode se tornar uma unidade; um corpo.

         Esta unidade me permite olhar no espelho, me encontrar e me reconhecer em imagem e história: Sou, enfim, Eu. 

 

Corpo é objeto de expressar. Sentir e traduzir em gestos e posturas o que o interior contém, imprimindo suas convicções.” 

       

       Destaco mais um trecho do texto de Jonathas, uma vez que coloca o corpo como instrumento importante de comunicação, relação e estruturação. A possibilidade de diálogo com o pedagogo convidado é rica e apresenta pontos de convergência e conversa com a compreensão psicanalítica. 

        Não é qualquer coisa localizar no corpo um lugar de potência na produção de sentido para a existência, é um ato político! Partindo de que a interpretação da experiência corporal é estruturante, qual a escuta e atenção que ofertamos à corporeidade como um traço que compõem a humanidade?

         Essa é uma das questões que por tempos ressoam até que possamos nos aproximar de possíveis respostas. Respostas das quais estamos implicados do modo mais íntimo. Mais humano.

 

  • FREUD, S. O eu e o isso [1923]. In: Obras Completas de Sigmund Freud, Vol XIX. Rio de Janeiro: Imago Ed.,1996.

 


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