Entre-vistas com Mario Eduardo Costa Pereira

Apresentamos hoje aos nossos leitores a entrevista realizada com o psiquiatra e psicanalista Mario Eduardo Pereira. A seção "ENTRE-VISTAS"  do site Escutatório consiste em uma série de postagens com perguntas aos profissionais que apresentam um percurso pela psicanálise e, através de seus posicionamentos acerca de questões atuais, nos convidam a refletir e a (des)construir saberes. Lembramos que as respostas se referem ao modo de pensar do convidado sobre o tema proposto por nós. 

Esperamos que as "entre-vistas" possam inspirar e suscitar questões para além das que foram colocadas para nosso convidado. Desde já agradecemos ao Mario Eduardo pela disponibilidade em participar deste projeto.  

Boa leitura a todos! 


Mario Eduardo Costa Pereira é psicanalista, psiquiatra, professor titular de Psicopatologia Clínica pela Aix-Marseille Université (França). Professor livre-docente em Psicopatologia do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, onde dirige o Laboratório de Psicopatologia: Sujeito e Singularidade (LaPSuS). Diretor do Núcleo de São Paulo do Corpo Freudiano - Escola de Psicanálise.

Mario Eduardo Costa Pereira é psicanalista, psiquiatra, professor titular de Psicopatologia Clínica pela Aix-Marseille Université (França). Professor livre-docente em Psicopatologia do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, onde dirige o Laboratório de Psicopatologia: Sujeito e Singularidade (LaPSuS). Diretor do Núcleo de São Paulo do Corpo Freudiano - Escola de Psicanálise.

Escutatório: Como foi seu encontro com a psicanálise?

Mario Eduardo: Meu primeiro contato com a psicanálise foi bem precoce. Eu tinha em torno de 17-18 anos quando iniciei minha primeira análise pessoal, mais ou menos na mesma época em que havia sido aprovado no vestibular para a faculdade de medicina, em Porto Alegre. Essa associação análise pessoal + experiência de formação médica teve um efeito decisivo sobre mim. Naquela época, no Rio Grande do Sul, os cursos de Medicina - e a especialidade de Psiquiatria em particular - eram muito marcados pela Psicanálise, especialmente a de orientação kleiniana. Assim, já na disciplina de psiquiatria, que se desenrolava do terceiro ao sexto anos, estudávamos os conceitos básicos da psicanálise, a obra da Melanie Klein, os textos de Freud e alguns autores da psicologia médica. Um outro fato decisivo em meu percurso foi que no terceiro ano da faculdade fui convidado por meu professor de psiquiatria, o Dr. Manoel Albuquerque, para fazer parte da equipe de acompanhantes terapêuticos (AT) de sua clínica particular, que à época era provavelmente a maior do estado e uma referência no sul do país. Assim, durante a maior parte da faculdade - terceiro, quarto, quinto e sexto  anos - pude acompanhar pacientes psiquiátricos nos aspectos mais pessoais e quotidianos de suas vidas. Em geral, eram pacientes graves, internados por situações psiquiátricas das mais diferentes naturezas: psicóticos, esquizofrênicos, indivíduos com transtornos afetivos, pessoas com dependência de substâncias psicoativas. Isso me deu ocasião para conviver de maneira muito próxima com a vida concreta desses sujeitos, com seus sofrimentos, com seus sintomas, com seus esforços para melhorar. Tinha contato direto com suas famílias, percebia diretamente suas interações com o paciente. Viajei com muitos deles, estive em suas casas, em uma relação direta, muito próxima, muito íntima, com pessoas que passavam por estados de perturbação mental extremamente intensos. 

Esse trabalho era feito com supervisão sistemática, semanal. Tínhamos uma equipe de ATs muito dinâmica, dirigida por supervisores autenticamente implicados com esse tipo de trabalho e muito competentes. Íamos, também, com uma certa frequência fazer supervisão em Buenos Aires, pois os argentinos tinham já uma larga experiência de acompanhamento terapêutico de orientação psicanalítica. Isso foi uma coisa muito forte para nossa formação. 

No sexto ano e último ano da faculdade, fiz meu estágio final de psiquiatria no Hospital São Pedro - um grande hospital psiquiátrico  de Porto Alegre – mais especificamente na divisão psiquiátrica Melanie Klein, ligada à Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Seu diretor era o professor David Zimmermann, um grande psiquiatra e psicanalista gaúcho, que havia sido por duas ocasiões vice-presidente mundial da IPA (International Psychoanalytical Association) e criador, em Porto Alegre, do Curso de Especialização em Psiquiatria, de clara orientação psicanalítica e referência nacional na área.

A equipe de docentes daquele estágio era constituída quase integralmente por psiquiatras com formação psicanalítica. Dessa forma, minha entrada na psiquiatria deu-se através de uma perspectiva psicanalítica, o que a meus olhos parecia totalmente evidente e natural. Tudo isso foi decisivo em minha formação. Meu primeiro contato com a psicanálise se deu, portanto, de uma maneira muito viva, muito concreta, com minha análise pessoal, com um contato clínico intenso com pacientes psiquiátricos graves e com a participação em grupos de estudo de psiquiatria e psicanálise, na faculdade e fora dela. Minha análise pessoal, iniciada ainda bem jovem, me colocava em contato comigo mesmo e com a experiência da descoberta do próprio desejo, da responsabilização por ele. Era uma descoberta precoce e concreta da potência da transferência e do que significa eticamente, pessoalmente, a busca da própria verdade.

 

Escutatório: Na sua opinião, quando é indicado procurar um psiquiatra e quando e indicado procurar um analista?

Mario Eduardo: Considero que uma pessoa deve procurar um psiquiatra quando a intensidade dos seus sintomas, ou mesmo sua natureza, sejam tais que o sujeito sofre de uma maneira intensa, mas que isso não o conduz a nada, a não ser à dor, ao desespero e a risco de passagens ao ato graves e de consequências potencialmente irreversíveis. Não é um sofrimento que o leva a se interrogar, a produzir alguma forma de busca a respeito de si mesmo, da sua verdade, da sua participação no seu próprio sofrimento, ou seja, quando o sintoma gira em círculos, paralisa; quando a pessoa sofre muito, mas sem retirar nada de produtivo desse sofrimento.  

É interessante lembrar o papel que originalmente se atribuía aos psicofármacos ainda nos anos 50. Nessa época, quando na França e na Suíça começaram os estudos com as primeiras drogas que fizeram a revolução psicofarmacológica - a clorpromazina (antipsicótico) e a imipramina (antidepressivo) - os pesquisadores e teóricos que buscavam desenvolver modelos para a aplicação clínica dessas drogas nunca pensaram que os psicofármacos constituiriam por si próprios o elemento central do tratamento do transtorno mental. De maneira prudente, eles consideravam que a psicofarmacologia deveria ser vista como um tratamento que permitiria colocar o sujeito em condições mentais de se interrogar a respeito de si mesmo, a respeito do seu sofrimento, a respeito de seus impasses, ou seja, os tratamentos psicofarmacológicos psiquiátricos eram concebidos como auxiliares importantes para que outros tipos de abordagem psicossocial, psicoterápica, e mesmo psicanalítica, pudessem ser instaladas de maneira efetiva. 

A clínica psicanalítica, num sentido mais estrito, é de uma outra ordem. Ela surge quando o sujeito sofre, quando o sujeito se vê em um impasse da própria vida e, de alguma maneira, pede ajuda, deixando uma porta aberta para uma interrogação a respeito da sua própria verdade, que está se manifestando de uma maneira que não está muito clara para ele, através daquele sintoma, através do sofrimento. E um encontro transferencial com um psicanalista produz nele esse efeito de se interrogar ainda mais profundamente sobre a verdade daquilo que está acontecendo com ele. A presença do analista o interpela profundamente  sobre “isso” que desconheço de mim, mas que desesperadamente tenta se manifestar da forma que consegue, ou seja, através do sintoma, do sofrimento, do impasse, dos sonhos, através, enfim, de tudo aquilo que o seu padecimento começa a revelar de si mesmo a si mesmo, enquanto sujeito de um desejo inconsciente.

 

Escutatório: Como você entende a função social da psicanálise em tempos de biopolítica e medicalização da vida?

Mario Eduardo: Eu considero que diante da maciça medicalização da vida contemporânea, diante da presença do biopoder incarnado não apenas na medicina, mas sobretudo como ideologias e práticas diretrizes da vida quotidiana, é claro que a psicanálise tem uma importância política muito grande, enquanto ator significativo no laço social; tanto de interpelação, de denúncia, de debate, de abertura. Mas eu diria que o mais importante de tudo é que a psicanálise precisa conseguir permanecer como resto insolúvel em face às promessas de completude oferecidas pelo espirito de nosso tempo, instalando-se, portanto, como fonte de transferência. Ou seja, é justamente naqueles momentos de impasse, de crise, nos quais o sujeito vê-se fracassar em seus esforços para se definir integralmente através do discurso da ciência, do discurso médico, do discurso psiquiátrico, através do discursos dos ideais sociais, que ele pode perceber que existe nele algo de mais fundamental, que o interpela profundamente quanto a sua fidelidade a seu próprio desejo. Isso produz efeitos, produz sintomas, produz interpelação, produz questionamentos sobre si mesmo e o sobre o mundo em que se está instalado. 

A psicanálise pode e deve garantir esse suporte para o aprofundamento da interrogação que o sujeito faz sobre si mesmo, na medida em que se sustenta como resto que não se deixa dissolver, que não se deixa digerir pelos ideais de adaptação social, de bem-estar, de gozo completo e absoluto, de diminuição de riscos, de uma vida realizada enquanto excitação, que é sempre uma espécie de busca constante de uma satisfação plena. A psicanálise deve ser capaz de acolher, mas também de interpelar, o sujeito naquilo que este tem de clivagem, naquilo que “a outra cena” tenta se revelar, se expressar e que pode encontrar na situação analítica, na transferência proposta pela presença do psicanalista - tanto na clinica, quanto na cultura - um lugar ao qual endereçar essa sua busca pela verdade, a partir de um real que em si mesmo não se deixa dissolver e diluir nessas propostas de uma solução definitiva para a dor de viver, que são feitas pela medicalização da vida e pelos ideais de uma realização de vida plena propostos pelo laço social contemporâneo.

 

Escutatório: Em seu livro Pânico e Desamparo (ed. Escuta, 1999) você estabelece uma relação íntima entre linguagem e o desamparo. Poderia falar um pouco mais sobre isso?

Mario Eduardo: No meu livro Pânico e Desamparo (ed. Escuta, 1999), eu desenvolvo a ideia de que o desamparo é a dimensão fundamental do sujeito. E que esta, em si mesma, não é um mal; é simplesmente  uma condição de falta de garantias e de uma abertura para uma existência para a qual não existe uma definição a priori do caminho a ser tomado, nem uma garantia transcendental do destino a dar para nossas pulsões e fantasias. E que nos interpela com essa abertura à liberdade, ao risco, à responsabilidade que temos que assumir por nossos atos. Diante disso, ao descobrir subitamente a radicalidade dessa falta de garantias, de não contar com uma instância superior que oriente a priori suas tomadas de posição enquanto sujeito, o sujeito pode se desesperar e entrar em pânico face a essa tão insuportável revelação. Paradoxalmente, esse desespero não deixa de ser uma espécie de interpelação para que alguém venha a consistir, a ocupar esse lugar vazio de fiador absoluto de nossa existência. 

Não é à toa que a direção do tratamento é aquela que conduz o sujeito ao contato com seu próprio desamparo, mas de uma maneira tal que essa descoberta possa ser tolerada, subjetivada e investida de um sentido erótico. É somente assim que o sujeito poderá vir a amar essa falta de chão, porque esta é justamente o espaço de liberdade que lhe permite tanto existir como sujeito de seu próprio desejo, quanto se responsabilizar por sua posição desejante singular. Uma análise deve permitir que o sujeito se defronte, sem garantias e sem álibis, com as marcas de seus traumatismos fundamentais, de modo que possa delas se apropriar e se instalar como sujeito de desejo. O fato de não ter uma garantia superior e transcendental deve, assim, constituir necessariamente uma razão de desespero. Ao contrário, essa é a condição para que ele possa ser sujeito tanto da sua própria existência, como da sua inscrição no laço social com os outros.

E a linguagem é justamente a condição que nos instala em nossos corpos, no mundo, no interior do um laço social com os outros. Ela é esse próprio campo de abertura e de possibilidade, de criação, de gestão simbólica e erótica da nossa incompletude. Em outras palavras, a linguagem é ao mesmo tempo aquilo que revela nossa incompletude, mas, ao mesmo tempo, a  possibilidade de construirmos por nossa própria conta, nossa instalação no mundo. A psicanálise mostra que o desamparo constitui a um só tempo nossa referência ética para existir e a nossa pauta poética de constituição de nós mesmos. Nossa única possibilidade de instalação erótica e responsável na vida, enquanto necessidade constante de criação e de convívio com os outros.