Que história é essa? Psicanálise e o mito de Édipo

Por Anastácia David

 

É comum ouvir o termo “Complexo de Édipo” seja na áurea teoria analítica exercitada nas universidades e escolas de psicanálise, seja nos corredores das casas, no meio das praças em conversas fugazes onde se diz: “fulano está com complexo de édipo”, como se de alguma maneira se configurasse como uma espécie de patologia da qual se precisa curar.

Com nenhum rigor teórico-metodológico a teoria freudiana em relação ao Complexo de Édipo é invocada de forma “silvestre” ou melhor dizendo, “selvagem” ¹, ou seja, utilizada fora do contexto principal que a fez surgir como uma espécie de domínio público de botequim. Esse desuso não torna menos importante esses lugares de enunciação, pois é lugar da voz do público em relação ao texto analítico e é passível de escuta, mas também é necessária a elucidação por parte dos analistas desse e de outros conceitos fundamentais à clínica.

Por que não tratar do uso deslocado e corriqueiro dessa teorização? Essa é uma construção de saber muito cara aos analistas, base importante da teoria desde Sigmund Freud. A saber, seu conceito fundamental sobre a teoria da sexualidade e a constituição do aparelho psíquico e mais adiante na história da psicanálise, a releitura do tema feita por Jacques Lacan (1901-1981) que ampliou a teorização com a dimensão do sujeito desejante e a elaboração do conceito de metáfora paterna. 

O uso casual da expressão “Complexo de Édipo” não causa ou causou danos à teoria da psicanálise, que supera o mau uso de seus conceitos há mais de cem anos. A questão é que esse mau uso escancara a resistência em relação aos conceitos cunhados por esse saber e sobretudo alimenta os pensamentos fantasiosos sobre o fazer analítico.

Salvaguardadas as devidas proporções, no primeiro caso trazer um mito grego como alicerce à teoria analítica, quer dizer um lugar especial reservado a esse tipo de narrativa dentro da teoria. Para a psicanálise, o mito assume uma tarefa importante: apresentar uma narrativa particular onde se pode pensar a partir do mito a história do sujeito e seu enlace com a história da humanidade. Os mitos são importantes à teoria freudiana porque eles fazem uma articulação entre o singular e o coletivo, uma intersecção entre a história do sujeito e a história da humanidade (VERSIANI, 2008). O mito ocupa lugar de representação do drama humano. Segue-se, então, pela trilha da contribuição lacaniana.

Para recordar: o Complexo de Édipo foi inspirado no texto de Sófocles 427 a.C. “Édipo Rei”. Na mitologia, Édipo diante de uma trajetória determinada toma como diretriz de vida a tarefa hercúlea de livrar-se do seu destino infeliz, matar seu próprio pai e desposar sua mãe, tal como advertiu o Oráculo de Delfos.

O mito diz, à luz da psicanálise lacaneana, que para todo ser humano imerso em linguagem, a exemplo do bebê, há uma teia de palavras – significantes* - que o irão conduzir à um processo de identificação estrutural com aquilo que é o desejo de seus pais, amar e entregar-se como oferta, vislumbrando ser a satisfação absoluta do desejo de um deles. Para equacionar, respeitando as mais diversas formas de famílias existentes, diremos que o bebê se identificará com aquilo que seria o objeto* do desejo materno* e necessitará que haja uma interdição dessa equação para que desse enquadre emerja um sujeito que, por sua vez, possa ser um sujeito desejante* e não somente o resultado de um espelhamento com o que imaginariamente seria o desejo materno. É preciso que algo interdite essa colagem. Um pai, por exemplo; um trabalho, um outro filho, algo que possa fazer função de corte; metáfora paterna*. Tudo isso acontece no interior do seio da família até que possa haver o tempo para o corte simbólico, castração*. 

O que é importante observar para além da cena do incesto contida no mito é a riqueza do diálogo, da narrativa mitológica, que serve de bandeja ao conteúdo para pensarmos a questão do homem como sujeito desejante. Jacques Lacan no texto “O mito individual do neurótico” (1953) afirma que o homem passa a se humanizar na relação com seu semelhante.

Uma análise se faz de uma narrativa, onde o sujeito irá construir, reconstruir, recontar sua história. Na medida em que a fala progride, tem valor de mito como nos diz Lacan.

 

*conceitos psicanalíticos – ao longo do texto foram apresentados conceitos psicanalíticos complexos tanto em sua elaboração quanto em sua compreensão. A literatura analítica, os grupos de estudos, as atividades das escolas de psicanálise, o percurso em supervisão e analise pessoal são amparos para a compreensão desses conceitos. Esse texto não possui interesse em esgotar a sua explicação, mas aproximá-los daqueles que se sentem convocados ao estudo da psicanálise.

 

Referências

 

¹ Texto: 

 FREUD, S. 1976.__(1911). Psicanálise silvestre. Em: Edição Brasileira Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XI. Rio de Janeiro: Imago. 

 

LACAN. J. (1953 b/2008). O Mito individual do neurótico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

 

VERSIANI, Renata Nogueira Rocha Clementino. Mito e Psicanálise. Brasília, 2008. 14 p. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica e Cultura)- Departamento de Psicologia Clínica, Instituto de Psicologia, Universidade de Brasilia (PCL/IP/UNB), 2008.