Quando o analista interrompe o tratamento

 Por Mariana Anconi

Toda análise tem um fim. Pode ser o tempo de um 'fim de análise' ou o tempo de uma interrupção (definitiva ou não). As situações de interrupção estão sujeitas a ocorrer dos dois lados (analista e analisante).

Do lado do analisante (paciente) a situação de uma interrupção merece uma atenção  por parte do analista, pois entende-se como efeito de um conceito chamado 'resistência'. Lacan já apontava que é uma resistência à escuta, portanto, está do lado do analista. Essa é uma advertência importante que muda os rumos sobre o manejo na clínica entre os psicanalistas.

Para além da resistência, os atendimentos podem ser interrompidos por outros motivos e questões que atravessam os pacientes, como contingências da vida (viagens, morte, impossibilidade de pagar o tratamento, etc) e, destaco aqui, o 'estilo do analista', que interfere para que a transferência opere no tratamento (condição crucial para que os manejos produzam efeitos).

E quando o analista interrompe a análise de seu paciente?

Podemos pensar em inúmeras situações para que uma análise seja interrompida: um analista que decide se aposentar e não mais atender no consultório; Um analista que resolve tirar um ano sabático; Um analista que muda de país ou cidade; Um analista que adoece e precisa se afastar por um tempo; Um analista que morre.

De todos os casos, a morte seria a única contingência em que não haveria um "tempo 2" para que se pudesse manejar os efeitos disso na transferência. Para as demais situações, quando necessária a interrupção, o analista pode manejar os efeitos dela em um segundo tempo, efeitos singulares que, inclusive, podem atravessar os sintomas dos pacientes, como a sensação para alguns de que ele desaparece (morre) ou abandona. Porém, nessss casos ainda existe a possibilidade de endereçar algo ao analista quando, por exemplo, estiver em situações de angústia, mesmo que seja através do uso de tecnologias (telefone, skype, facetime, etc).

Um dos efeitos interessantes para alguns analisantes é o da constatação de que seu analista tem uma vida para além daquele fragmento de tempo em que se encontram no consultório. Isso não é por acaso, afinal de contas, no decorrer de uma análise,  o analista opera uma função, como agente causa do desejo (a) e não de sujeito barrado ($). Portanto, quando as contingências da vida aparecem do lado do analista, além de serem uma novidade, isso não é sem efeitos.

Como cada analista faz a interrupção do tratamento é particular ao estilo de cada um, mas sempre pautado na ética do não desamparo na angústia. Do lado do analista também há efeitos quanto a interrupção de seus atendimentos, por exemplo, ao mudar de cidade/país.

Quando um analista se despede não é das pessoas (seus pacientes) exatamente.

É e não é.

É, porque a cada sessão o analista marcou uma presença/ausência com o corpo. E não é, porque se trata de um lugar que ocupa para operar um discurso (analítico), uma oferta que fez àquelas pessoas: sua escuta. Portanto, ele não se despede das histórias, nem das frases enigmáticas, que ouviu. Tudo isso se transforma em outra coisa, que não é da ordem do conhecimento empírico nem é cumulativo.

A clínica só acontece quando o analista pode sustentar uma aposta (que não é às cegas) inerente à escuta e, que coloca a todo tempo, o seu próprio desejo de analista em questão. Sustentar isso é efeito desse desejo e não causa.

Analisantes começam e terminam suas análises. Esse não é um caminho linear. Há voltas, labirintos, buracos e lacunas. Como cada um atravessa esse caminho é singular. Não há manual que represente o mal estar humano.

A clínica tem um fator da transitoriedade (com ou sem interrupções) que não a faz perder seu valor, justamente por produzir marcas no sujeito a partir de cortes no tempo. As marcas; estas sim, podem atravessar o tempo.

 

 

Trecho do texto 'Sobre a transitoriedade' de Freud (1915):

O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. (...) Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, do modo que, em relação à duração de nossas vidas, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado encanto. Um flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal. Realmente, talvez chegue o dia em que os quadros e estátuas que hoje admiramos venham a ficar reduzidos a pó, ou que nos possa suceder uma raça de homens que venha a não mais compreender as obras de nossos poetas e pensadores, ou talvez até mesmo sobrevenha uma era geológica na qual cesse toda vida animada sobre a Terra; visto, contudo, que o valor de toda essa beleza e perfeição é determinado somente por sua significação para nossa própria vida emocional, não precisa sobreviver a nós, independendo, portanto, da duração absoluta.