O que fazer com o sintoma?

Por Carolina Escobar

A aparição de um sintoma é, na maior parte das vezes, o que impulsiona a busca por um analista. Sintomas no sono, nas relações, no corpo, na fala; algo claudica, não se encontra explicação; porém é capaz de tirar a vida dos trilhos.

Muitos relatam aos seus analistas estarem intrigados com o fato de que, até o momento de suas vidas, aquele mal estar nunca havia acontecido antes. Não a toa ser tão comum a vontade de eliminá-lo, já que estamos falando de um mal estar que, em determinados níveis, pode atrapalhar - e até mesmo impedir - que as coisas mais rotineiras sejam feitas. 

Nesse exato momento, aparece em meus pensamentos muitas falas que trazem esta questão à tona: “não tenho me reconhecido no que me tem acontecido, de repente sinto uma vontade de chorar que não consigo controlar! Chego a ter que parar o que estou fazendo, ir embora do trabalho...só queria que isso parasse!”, ou  “procurei por esse atendimento a pedido de meu médico, pois essas dores de barriga horríveis me fazem passar mal todos os dias. Ele me afastou do trabalho, mas temo que essa licença médica me prejudique. Preciso de ajuda!”; e até mesmo “estou sem conseguir dormir há uma semana! O que está acontecendo comigo?”.

São relatos angustiados e carregados de interrogações. Por que procurar um analista nestas situações? Desde os momentos inaugurais da construção de seu pensamento, Sigmund Freud já apontava para a ideia de que aquilo que nos acomete poderia ser efeito de um processo Inconsciente. E, partindo deste pressuposto, propõe um método com procedimentos característicos que poderia ser uma proposta de tratamento para estes sintomas. 

Para a psicanálise, os sintomas podem ser entendidos como enigmas; algo curioso, muitas vezes ambíguo e que parece incompreensível; mas que, ainda assim, comunicam algo da particularidade daquele sujeito. 

Dias atrás, lendo o seminário sobre ‘A transferência’ (2010) de Jacques Lacan, me deparei com uma passagem que explicita essa questão:  “(...) o homem é marcado, é perturbado por tudo aquilo a que se chama sintoma – na medida em que o sintoma é aquilo que o liga aos seus desejos” (p.331). 

Trabalhar com o sintoma é complexo vide esta contradição contida em sua formulação: o mesmo ponto que quero eliminar por causar mal-estar, diz respeito ao que me é mais íntimo.  

Como lidar com ele?

Dar ouvidos a um sintoma e, assim, localizar seu caráter de querer dizer alguma coisa, oferece a abertura para que cada sujeito possa (re)conhecer o que ele conta de sua particularidade, visando, então, a extração do que há de singular em cada sujeito – dimensão ética do tratamento psicanalítico.

 A aposta contida no ato de escutar do analista é que isto poderia produzir um novo posicionamento daquele sujeito no que diz respeito à sua vida e quando em relação com outras pessoas. Uma nova posição diante das coisas – e do próprio sintoma – gera efeitos que podem ser recolhidos não só pela pessoa que o vivência, como por quem a rodeia.

Por esta ótica, é possível fazer a leitura de que a repercussão do tratamento psicanalítico poderiam atingir tanto o mal estar localizado no âmbito dos romances familiares (particular); quanto aquele que se faz presente no laço social.

    Lembro- me de uma afirmação de Dominique Fingermann (2011) que dá à escuta do sintoma como insígnia do mal-estar um lugar importantíssimo para aquilo que caracteriza o fazer de um psicanalista; já que é o que oferece a abertura para produzir o incurável – o saber fazer com o sintoma.  

Nela, Dominique aponta que, dessa forma, seria possível “(...) devolver ao sintoma seu alcance político, seu efeito revolucionário” (p.93). Revolucionário pois, ao balançar o que um dia estava nos trilhos, inaugura o espaço para a invenção de um novo trilhamento. Singular, mas não solitário.

 

    

Referências citadas:

Fingermann, Dominique. A política do sintoma na direção da cura. In: Stylus n.22; p.91-99- Rio de Janeiro, maio 2011.

Lacan, Jacques. O seminário, livro 8: A transferência, 1960-1961. -2ed.- Rio de Janeiro: Zahar, 2010.