Fale-me mais sobre Isso...

Por Anastácia David

“Fale livremente o que vier a sua cabeça” essa frase, ou seu sentido, é uma das mais repetidas nos consultórios de psicanálise desde sua invenção no século passado. Essa regra fundamental à análise - conceito da associação livre - atravessa o tempo e se atualiza hoje a cada vez que um sujeito endereça ao analista suas questões; seus sofrimentos. 

Quando convocados desse lugar de fala, ou seja, daquele que tem a palavra para consigo, pode-se cair na preocupação de produzir grandes elaborações mentais, frases escolhidas à dedo para definir da melhor forma o problema do qual se queixa. Todavia, não só de questões ontológicas, questões de alta complexidade e grande reflexão vive o analista.

 Definitivamente, quando se sugere ao paciente que este fale de maneira livre “o que vem a sua cabeça”, estamos indicando que a escuta atenta realizada no processo de análise partirá de qualquer ponto que o sujeito trouxer em sua fala, mesmo que este seja um ponto pífio, obsoleto! Mesmo que este decida falar de um pequeno detalhe da sua existência. 

 A psicanálise defende que faz parte do discurso do sujeito não somente aqueles pontos dignos de nota, aqueles que se encaixam, mas também pequenos detalhes, as conhecidas bobagens, besteiras. Ao analista pode-se dizer qualquer coisa como explica Jacques Lacan na conferência de imprensa “O triunfo da religião” de 1974 em Roma. E complementa seu argumento indicando que à análise interessam as coisas tais como elas são, os acertos e os erros tão comuns à vida. Interessa à análise “A vida como ela é” como na obra do dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues - em suas crônicas escritas a pedido de Samuel Wainer e que tinham como função retratar uma série de histórias da vida real para serem publicadas no folhetim.

Esse olhar diferenciado da psicanálise pressupõe uma prática clínica inédita onde o paciente se coloca a falar sobre seu sintoma, seu mal-estar e a partir dessa fala “livre” é capaz de fazer associações que o levam a construir uma nova forma de ouvir-se, uma nova forma de ver- a- si. Uma veracidade sobre o seu desejo. Essa fala livre, mais a intervenção do analista, levam o sujeito a mudar de posição, levam o sujeito ao trabalho, o que Jacques Lacan chamou no seu seminário “Análise e verdade ou o fechamento do inconsciente” (1964) de o “engajamento da análise”.

Nessa veracidade existente no processo de análise podemos identificar para onde aponta o desejo do sujeito e pela ética do desejo escolher se por esse caminho é possível seguir. Sem garantias de felicidade. Certamente a felicidade existe na medida em que podemos vê-la como uma satisfação sempre não toda, não plena, mas, sobretudo, uma satisfação articulada com o Real. Menos idealizada. 

É evidente que essa fala livre não se dá sem resistência por parte do falante; falar de maneira livre se caracteriza como uma busca, uma permissão para que possa emergir da mente aquilo que tem de mais singular do sujeito. A fala livre está vinculada aos sentimentos do falante em relação ao analista; suposto saber e transferência.

A resistência à psicanalise é resistência ao conteúdo que nela habita e aquilo que dela pode advir: a existência de um funcionamento psíquico alheio ao interesse do indivíduo, alheio a consciência; aponta para uma singularidade do sujeito que direciona para aquilo que é diferente no contexto do grupo, a psicanálise aponta para uma fragilidade no âmbito do grupo.

O que Sigmund Freud chamou em seu texto “As resistências à psicanálise” (1925) de “hipocrisia cultural”. Observa-se, nas palavras de Sigmund Freud, que as fontes do ódio à psicanálise não são de natureza, em sua grande maioria, intelectual, mas sim provenientes de fontes afetivas. 

Ou seja, a novidade que a psicanálise conta, essa sobre a existência de um sujeito do inconsciente, gera grande desprazer ainda na atualidade. Convencionou-se na contemporaneidade que é necessário abafar o autêntico, o diferente, para poder conviver em sociedade. Seria essa uma das bases das manifestações de ódio tão presentes na história humana? Seria esse o cerne do massacre ao discurso das “minorias”? 

A sociedade atual constrói uma espécie de culto ao silêncio, prega que “falar dói”, contudo, o que se observa na experiência analítica e na literatura analítica é que a fala é um recurso para trabalhar a dor, para lidar com a dor. Falando abre-se a possibilidade de reconstruir o vivido, elaborar as emoções e dá oportunidade ao sujeito aparecer dando as balizas de para onde aponta o seu desejo.

Falar dói na medida em que se revisita as dores do momento do “trauma”. Quando se fala ao analista esse atravessamento da angustia é acompanhado por ele, é falar sobre a dor do colo – no sentido de amparo - do analista. Qual a contrapartida para não falar da dor? Permanecer com ela guardada em algum lugar de si mesmo? 

Pensemos.

Voltando à questão principal desse texto, a psicanálise é esse outro tipo de saber humano, nem filosófico, nem médico. Que comporta a fala livre do sujeito, que pode falar partindo de qualquer ponto tanto a besteira quanto uma grande elaboração pensada durante dias para ser contada na sessão de análise.

Não é pretensão da psicanálise ocultar seu conhecimento para caber melhor nos critérios científicos. A psicanálise perde ao tentar fazer esse enquadramento científico no que diz respeito à singularidade do sujeito; como objeto de estudo o dito verdadeiro sobre o sujeito não é classificável cientificamente, pois responde a outra lógica, a lógica do inconsciente, mas isso não significa dizer que a ciência não contribui com a psicanálise e vice-versa. São campos do conhecimento que merecem articulação, não enquadramentos. 

A psicanálise antes de qualquer coisa é afeita aos detalhes. Uma letra perdida numa palavra, um gesto que se revela sempre quando se toca no mesmo assunto, o suspirar entre uma fala e outra.

Os detalhes, esses “divinos detalhes” como nos fala o psicanalista Jacques Alain-Miller - numa entrevista dada a Hanna Waar para a revista Psychologies Magazine em outubro de 2008 sobre a temática do amor - nos interessam à medida que dizem algo sobre o sujeito. 

As emoções são guardadas nos detalhes. Percebam: cheiro de café fresco que acabou de ser coado, a risada da pessoa amada, os segundos de explosão da verve amorosa. Esses fragmentos são a matéria prima da análise. 

 

Isso não é só um detalhe. Fale-me mais sobre Isso.