Medicina e Psicanálise

Por Carolina Escobar

   

    É bastante comum que pessoas procurem por um analista após terem iniciado um tratamento medicamentoso. Muitas dessas pessoas dizem: “Meu médico disse que precisava vir aqui porque o que está acontecendo é coisa da minha cabeça e preciso tratar meu emocional”.

    Mas o que poderia significar um encaminhamento como esse? Por que este encaminhamento se faz necessário? Para que associar a Medicina à Psicanálise (e vice versa)? Perguntas como estas acompanham quem chega aos consultórios dos analistas e também os próprios analistas.

    Nos dias atuais é comum a ideia de que seriam campos separados por um grande abismo, e o que consegue atravessar são ecos, meias palavras, fonemas, diferenças e, em alguns momentos, intolerância. 

    É comum escutar que o que justifica a dificuldade na comunicação entre os profissionais que atuam nestas áreas de saber é justamente a presença deste abismo como um desencontro epistemológico. O curioso é que muitos dos elementos fundamentais na constituição destes saberes só puderam existir quando diante de um impasse que revelava esse desencontro. 

    Freud era médico de formação e trabalhava como neurologista no Hospital Geral de Viena, foi neste contexto que soube da existência de casos de mulheres que apresentavam sintomas corporais importantes como cegueiras, impedimentos motores, paralisações, fortes dores, etc.; porém as causas eram enigmas para a Medicina, uma vez que não eram encontradas causas orgânicas.

    A Associação Americana de Psiquiatria propõe a construção do primeiro DSM (1952) para funcionar como uma ferramenta confiável de classificação dos comportamentos humanos; este seguia os critérios de compreensão da Psicanálise. O objetivo era orientar a clínica médica e sistematizar quais sintomas seriam tratados primeiro.

     No entanto, a clínica médica propõe como cura a eliminação do sintoma ou transtorno; e os transtornos ou sintomas que podem ser observados são muito mais numerosos e diversos dos que encontrados no primeiro DSM! 

    Mais uma vez um enigma, desta vez localizado pela Medicina no diagnóstico psicanalítico, uma vez que encontram a necessidade de mais categorias que digam do comportamento humano ao considerarem as classificações anteriores imprecisas e pouco científicas.

    Pois bem, aí estão os dois saberes sendo construídos a partir dos desencontros e enigmas gerados nesta interface! 

    De fato, a Medicina e a Psicanálise são saberes diferentes! Principalmente porque partem de pressupostos distintos. Enquanto a Medicina é uma clínica que diagnostica e atua a partir daquilo que está no alcance dos olhos (“Me mostre onde dói!”), a Psicanálise encontra como principal elemento diagnóstico o que escuta do analisante (“Fale sobre o que dói”).

    Olhar e escuta marcam posições distintas; estas dão origem a duas compreensões, dois manejos, duas técnicas e duas direções para tratar a dor. 

    Este não é um cenário diferente do que as perguntas iniciais deste texto evidenciam, uma vez que nelas há uma visível inquietação frente ao encaminhamento para tratar do “emocional” quando o mal-estar se manifesta no "corpo”; ou vice-versa.

    Se há um desencontro porque devo me consultar com este ou aquele profissional? 

   A questão é que neste raciocínio o abismo diz respeito a um impeditivo, um desencontro que gera afastamento. Um momento! É disso que se trata? De um desencontro que impossibilita, que faz atravessar apenas fonemas, ruídos sem sentido, sem conversa?

    Ora, e não foram os próprios enigmas, abismos e desencontros que movimentaram e constituíram saberes como recursos tão importantes para tratar a Dor? Porque tratá-los como excludentes?

    A potência destes tratamentos é a de funcionarem como motores; tanto na construção de um lugar social para o sofrimento humano; quanto na produção de subjetividade! Sempre diante do abismo e não sem ele.