Sobre a travessia do adolescer

Por Lorena Bitar

 

De um lado, um pai assustado com o filho que começa a desobedecê-lo, dar “respostas tortas” e não se interessar mais pelos programas da família;

De outro, uma mãe preocupada com as novas amizades da filha, que se deixa influenciar pelo o que os outros querem e não demonstra maturidade para se virar sozinha;

De outro, um pai incomodado com a falta de responsabilidade que a filha vem demonstrando ao tirar notas baixas e não respeitar os limites impostos pela família.

O que existe em comum nesses relatos? 

Poderia dizer que trata-se de pais queixando-se dos filhos, e filhos tendo maus comportamentos com pais. Poderia também contar que ambos os filhos passam pela fase da adolescência, ou pela temida “aborrescência” como é nomeada por alguns. Isso talvez poderia explicar alguma coisa, já que pelas lentes da “aborrescência”, o que fica em evidência são jovens rebeldes, que questionam as normas e aborrecem-se contra seus pais.  

 Mas prefiro não parar por aí. 

Pelas lentes da psicanálise podemos ver quão trabalhosa e dolorosa esta passagem pela adolescência pode ser. Minha experiência em um Núcleo de atendimento à adolescentes e jovens, e mais especificamente como analista de um grupo terapêutico de pais de adolescentes e jovens adultos, me permitiu acompanhar de perto essa travessia que afeta pais e filhos, e que muitas vezes é mal compreendida, pois entra em jogo uma complexa rede de terrenos desconhecidos, ideais desconstruídos, conflitos velados, e dores e perdas mal explicadas.

O adolescer envolve uma série de transformações que convoca o adolescente à desligar-se da infância e preparar-se para a vida adulta. Para reorganizar-se subjetivamente em um novo lugar - o de adulto - , é necessário que o adolescente vivencie um luto pelas perdas do momento anterior da infância e assim diferenciar-se dos pais. Neste tempo, perde-se o corpo, perde-se o lugar supostamente protegido e perde-se os pais idealizados da infância. 

É um processo doloroso e conflituoso de renúncia dos objetos de amor, que evidencia para o sujeito que para crescer, é preciso tolerar perder. 

Para os pais, também é uma experiência dolorosa ter que lidar com a perda do lugar idealizado “daquele que tudo sabe sobre o filho”. Esse lugar de saber, que na primeira infância foi imprescindível para educar e cuidar do filho, agora passa a ser questionado. 

É quando as divergências e as agressividades acentuam-se, e o estranhamento em relação àquele que até então “fazia parte de mim” começa a aparecer, produzindo muitas vezes um sentimento de frustração e falta de reconhecimento. Mas o que muitas vezes não é reconhecido neste processo, é que os filhos na tentativa de diferenciar-se simbolicamente dos pais, acabam distanciando-se fisicamente, tendo atitudes que destoam ou até opostas daquelas já familiares ou esperadas. 

“Colocar-se do contra” por exemplo, pode ser uma tentativa de experimentar um lugar diferente dos pais e encontrar jeitos mais próprios de ser. 

Questionar o valor de um pai, ou demonstrar mais interesse em um amigo, pode expressar uma forma de desconstruir o lugar poderoso e idealizado dos pais da infância.

A rebeldia, muito associada no senso comum à adolescência, pode significar uma forma do adolescente não conformar-se com o caminho escolhido pelos pais. São descompassos e mal entendidos, que vem carregados de mal estar, e que fazem parte do processo de experimentação que ajudarão o adolescente a elaborar o seu conflito e caminhar na busca de novas identidades. 

Relembro uma fala de José Saramago citada por um pai do grupo mencionado acima. A fala dizia: 

"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. 

Perder? Como? 

Não é nosso, recordam-se? 

Foi apenas um empréstimo".

A adolescência é um tempo fundamental e estruturante do sujeito, que exige uma mudança de lugar tanto para os filhos quanto para os pais. Ressalto que mudar de lugar, não significa abandonar ou largar de mão. Trata-se em sua essência de um processo psíquico e simbólico de suportar sair do lugar ideal e onipotente daquele que tem domínio sobre o filho e permitir que este possa ir em busca de sua própria forma de ser e existir, mesmo que isso implique erros, tropeços e caminhos diferentes.