A angústia e o vazio de sentido no trabalho: Qual a lógica por trás d'Isso?

Por Mariana Anconi

“Isso funciona tão bem, tão rápido, que isso se consuma”   Lacan

 

Lembro que por volta dos meus 15 anos fiz minha escolha profissional. Cheia de idealizações, mas muito clara para mim naquele tempo. Foi baseada em uma conversa com uma amiga um pouco mais velha pela qual eu nutria certa admiração e que havia começado o curso de Psicologia. Durante a conversa, falamos sobre temas diversos, mas principalmente a respeito dos mitos e tragédias gregas. Ali decidi que queria escutar pessoas. 

Eu não sabia muita coisa sobre Psicologia. Sobre a Psicanálise eu havia tido contato somente com o livro A interpretação dos sonhos - Freud (1900) na oitava série do ensino fundamental. Não sabia se iria ganhar dinheiro, ou mesmo se o "mercado de trabalho" na cidade a qual eu morava na época era favorável à prática clínica. Não fazia ideia inclusive que escolhia uma das profissões consideradas impossíveis por Freud. Muito não-saber, poucas respostas e muito desejo. Hoje vejo que foi um conjunto de fatores interessantes para uma futura psicanalista.

14 anos depois e a prática clínica tem me feito retornar, através dos pacientes, às questões relativas as escolhas profissionais e as dificuldades e angústias na formação (ou seria deformação?) profissional. Entendo a clínica como um termômetro que sinaliza o nível de angústia nos sofrimentos presentes na cultura, ou seja, o que aparece como tema nos sofás, divãs e poltronas nos consultórios dos psicanalistas está atravessado por construções de uma sociedade e cultura ao longo do tempo e, mais ainda, por alguns discursos estabelecidos.

Os discursos são regidos por diferentes lógicas que geram efeitos de impossibilidade e impotência no laço social. Até aí tudo bem, porque lidamos o tempo todo com estas duas condições. Porém tem um discurso que inviabiliza justamente o laço social, promovendo uma ruptura – discurso capitalista – e é por ele (não somente) que muitas pessoas se veem adentrar no espiral do sem sentido quando se queixam de seu trabalho e profissão.

O cenário atual apresenta ideais muitas vezes insustentáveis. Por trás das tecnologias administrativas importadas dos países desenvolvidos,  e de toda uma racionalização imprescindível para competição, da figura do empreendedor, da exaltação de figuras emblemáticas, cria-se uma mentalidade gerencialista que ultrapassa as fronteiras das empresas e passa a tornar modelo para uma representação de sociedade. Vide o cenário político sendo representado pelos gestores. 

Nesse sentido, problematiza-se o imperativo de adaptação ao mundo do trabalho contemporâneo. O mercado financeiro talvez por lidar diretamente com o capital (seu meio e seu fim) tem números expressivos de pessoas angustiadas frente ao real da ruptura entre aquele que agencia o discurso (agente) e o outro inserido nessa lógica. Como consequência, vemos a produção de novas formas de se preparar para estas demandas, por exemplo, o trabalho de profissionais que ocupam um lugar privilegiado de "conselheiro", como alternativa àqueles que buscam direção na carreira, mas também como tentativa de corresponder às demandas regidas por significantes como liderança, gerenciamento, alto desempenho e perfomance, inteligência emocional, etc. Vocabulário comum no meio corporativo. 

Esse movimento de buscar respostas de si e para si em um outro não é inédito, os efeitos disso no sujeito dependem também do que vem como resposta desse outro.  A angustia frente ao sem sentido presente no mercado de trabalho clama por respostas. Não é a toa que a oferta de profissionais na posição de mestres frente ao desamparo do outro só cresce e faz levantar algumas questões. Afinal, o mestre só existe na relação com o escravo. Só que no caso da lógica do capital, seria um mestre ao avesso, que faz o sujeito acreditar que ele é o agente, produzindo sempre novos gadgets.

Os jeitos de lidar com a angústia, as frustrações na profissão, o vazio de sentido em um trabalho são particulares e não merecem generalizações. No entanto, quanto aos jeitos de lidar que implicam em sofrimento, há de se considerar a oferta de uma escuta para além dos significantes impostos pela lógica do discurso do capitalista. Uma escuta aberta com produção de um saber subjetivo.

Sempre lembro da importância das perguntas "certas" a serem feitas, mais do que na insistência em respostas vazias. Como saber se uma pergunta é pertinente? Através do efeito que ela causa. Um profissional desavisado poderia dar ênfase na pergunta "O que motivou estas pessoas a escolherem uma profissão que as fazem infelizes?". A pergunta que se propõe e que promove a construção de um novo saber vai na linha da "Por qual lógica e ideais estas pessoas estão atravessadas ao fazerem suas escolhas? E d'Isso, só elas podem dizer. 


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