Entre-vistas com Ana Laura Prates Pacheco

Hoje o Escutatório inicia uma nova seção no site chamada "Entre-vistas" que consiste em uma série de diálogos com profissionais que apresentam um percurso importante pela psicanálise e, através de seus posicionamentos acerca de questões atuais, nos convidam a refletir e a (des)construir saberes. Lembramos que as respostas se referem ao modo de pensar do convidado sobre o tema proposto por nós. 

Esperamos que as "entre-vistas" possam inspirar e suscitar questões para além das que foram colocadas para nossa convidada. Desde já agradecemos a Ana Laura pela disponibilidade em participar deste projeto.  Boa leitura a todos! 

Ana Laura Prates Pacheco é Psicanalista, Psicóloga. Mestre e Doutora em Psicologia Clínica pela USP (IPUSP). Pós-Doutora em Psicanálise pela UERJ. Pesquisadora convidada do LABEURN, UNICAMP. É AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - Fórum de São Paulo, da qual é fundadora. Participou do Secretariado do Passe no Brasil (2008-2010) e foi Diretora da EPFCL-Brasil (2010-2012). Atualmente é representante do Brasil no Colégiado de Representantes da Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano. Foi editora da revista Stylus (2008-2010). É coordenadora da Rede de Pesquisa de Psicanálise e Infância das Formações Clínicas do Campo Lacaniano, além de transmitir em seus próprios Seminários. É autora, dentre outros, de: "Feminilidade e experiência psicanalítica"(Haker, 2001), de “De la fantasía de infancia a lo infantil de la fantasía” (Letra Viva, 2012) e “Da fantasia de infância ao intanfil na fantasil” (Annablume, 2012) e “La letra de la carta al nudo” (Um-decir, Asociacion Foro del Campo Lacaniano de Medellin, 2015). E-mail:  analauraprates@terra.com.br

Ana Laura Prates Pacheco é Psicanalista, Psicóloga. Mestre e Doutora em Psicologia Clínica pela USP (IPUSP). Pós-Doutora em Psicanálise pela UERJ. Pesquisadora convidada do LABEURN, UNICAMP. É AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - Fórum de São Paulo, da qual é fundadora. Participou do Secretariado do Passe no Brasil (2008-2010) e foi Diretora da EPFCL-Brasil (2010-2012). Atualmente é representante do Brasil no Colégiado de Representantes da Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano. Foi editora da revista Stylus (2008-2010). É coordenadora da Rede de Pesquisa de Psicanálise e Infância das Formações Clínicas do Campo Lacaniano, além de transmitir em seus próprios Seminários. É autora, dentre outros, de: "Feminilidade e experiência psicanalítica"(Haker, 2001), de “De la fantasía de infancia a lo infantil de la fantasía” (Letra Viva, 2012) e “Da fantasia de infância ao intanfil na fantasil” (Annablume, 2012) e “La letra de la carta al nudo” (Um-decir, Asociacion Foro del Campo Lacaniano de Medellin, 2015).
E-mail: analauraprates@terra.com.br

Escutatório: Como foi seu encontro com a Psicanálise?

Ana Laura: Meu encontro com a Psicanálise foi ainda na infância, por volta de uns 5 anos de idade. Morávamos em uma cidade do interior de São Paulo e minha mãe, que era professora de filosofia na UNESP, ia toda semana fazer análise em Ribeirão Preto. Uma vez ela me disse que ia me levar para conversar com seu analista, uma ideia que me pareceu muito bem vinda! Fiquei bastante ansiosa, esperando o dia do encontro. Na estrada eu já imaginava a sessão de análise que faria... O curioso é que pensava em falar mesmo, e não em brincar ou desenhar. Fiquei na sala de espera enquanto minha mãe fazia sua sessão, e quando ela saiu me disse que o analista tinha achado melhor não me escutar. Não faço a menor ideia do que possa ter acontecido, mas sei que essa sessão que na houve inaugurou minha relação com o inconsciente. Aos 16 anos, finalmente iniciei uma terapia em dupla – eu e minha melhor amiga. Algo um tanto inusitado. Decidi cursar Psicologia para ser Psicanalista. Interessava-me, sobretudo, a clínica com crianças. Mas os primeiros contatos com a Psicanálise na faculdade, em meados dos anos 80 foram um tanto decepcionantes. Até que comecei a atender, e iniciei uma análise, ainda não lacaniana. Fizemos um grupo de supervisão muito interessante com a falecida professora Jussara Brauer, a partir do qual vários projetos foram realizados (até hoje alguns de nós temos consultório juntos). Quase ao mesmo tempo, iniciamos um grupo de estudos de Freud com o Alejandro Viviani, que foi muito importante, e em seguida o encontro decisivo com o também falecido professor Luis Carlos Nogueira, com quem aprendi as primeiras lições de Lacan. A partir daí foi inevitável iniciar uma análise lacaniana. Meu encontro com a Psicanálise, como podem notar, foi causado por um curioso e precoce encontro faltoso que me marcou...

Escutatório: O que você entende por escuta analítica?

Ana Laura: Perguntinha difícil, hein?! Eu sempre brinco que a Psicanálise é um patrimônio cultural da humanidade. Pensei em dizer um patrimônio imaterial, mas acho que não, é um patrimônio material mesmo: a materialidade do significante, naquilo que ele porta de equívoco, e a materialidade da letra, em sua estrutura de rasura e marca. A escuta analítica é algo muito peculiar, sui generis, porque é uma escuta que produz uma letra, com a qual se pode escrever algo novo na vida. Gosto muito dessa imagem que Lacan usa, sobre a escuta analítica tratar-se de um forçamento, um forçamento através do qual é possível fazer ressoar outra coisa que não o sentido comum. Não canso de me surpreender com essa incrível disposição de Freud em operar com a linguagem, criando uma nova razão – um novo discurso, se preferirem – ou, se não cria-lo – já que temos notícias de que Sócrates já operava com ele – ao menos transforma-lo em uma experiência clínica inédita na Modernidade. Essa possibilidade de manipular a ocorrência transferencial de modo a extrair desse laço social inusitado algo tão original como um desejo decido, o consentimento a um modo de gozo e um novo amor, é algo sensacional! Escutar o outro, nas mais diversas esferas é reconhecidamente algo importante e transformador. Não é a toa que vocês criaram esse neologismo tão bem vindo: Escutatório. Mas a escuta analítica tem algumas peculiaridades, não é? Essa deformação do ouvido ocorre no divã, e graças a essa experiência sua afinação é dissonante.  Tal como o poeta, nós nos deixamos levar pelo duplo sentido, pela polifonia, pelo caráter estrangeiro de toda língua, pelas imagens sonoras e assim podemos operar com o inconsciente. É como entendo o uso que Lacan faz da palavra francesa antiga dupes. A escuta analítica deve ser dupes. Ser dupes é “cair como um patinho”, ou seja, se deixar levar pelas variações entre sons e sentidos que compões a língua, e porque não reconhecer, lalíngua.

Escutatório: É possível tecer relações entre a materialidade citada com as manifestações corporais que compõem o sintoma de cada sujeito?

Ana Laura: Sim, é possível tecer essas relações, mas para tanto seria preciso um longo desenvolvimento teórico. Lembremos que Lacan, na década de cinquenta, articula o sintoma com a estrutura da metáfora. É o que permite, aliás, sua decifração a partir da interpretação, visando a construção e o atravessamento da fantasia fundamental. Mas sabemos que nos anos setenta, Lacan define o sintoma como acontecimento no corpo. Aqui, não se trata do corpo enquanto imagem, mas do corpo enquanto aquilo de que se goza. São noções clínicas e teóricas bastante complexas. O sintoma enquanto marca de gozo singular tem íntima relação com a letra, que é um conceito exterior à Psicanálise, mas que interessa a Lacan justamente por portar uma fixação e uma identidade diferente do significante. Embora a letra seja uma criação do significante, ela é idêntica a si mesma. Daí Lacan propor essa homologia do sintoma com a letra, na escrita do enodamento dos registros do Real, do Simbólico e do Imaginário. É claro que para desenvolver esse ponto seria ainda necessário distinguir as ocorrências corporais nos diferentes tipos clínicos: o fenômeno psicossomático, a somatização na neurose obsessiva, a conversão na histeria e assim por diante.

Escutatório: Como você vê os processos de singularização e subjetivação na atualidade?

Ana Laura: Não sei se entendi bem a pergunta, mas vou tentar interpreta-la... Penso que a questão da singularidade é estrutural no falasser – neologismo inventado por Lacan para falar desse pleonasmo, já que só há ser da fala. Então temos sempre as três dimensões: o universal da linguagem que nos causa, e que chamamos sujeito desejante; o modo particular como cada sujeito entra na linguagem e inventa sua fantasia, seu delírio ou seu fetiche; e a singularidade da inscrição sem par que nos torna únicos e, até certo ponto, incomunicáveis no que diz respeito ao gozo, e que chamamos de sintoma – ou sinthoma como preferem alguns. Algumas experiências humanas permitem, para além das tradições e das identificações, acessar essa singularidade. Certos artistas, certos amantes, ou algumas vivências de limite absoluto. E essa é também a promessa da experiência analítica, que o faz, entretanto, de um modo inédito. O que acontece é que os psicanalistas precisam estar à altura dessa promessa. Bem, isso posto entendo que o que vocês estão chamando de subjetivação é algo que inclui outra variável que é a história e, portanto, inclui os efeitos da passagem do tempo. Como a estrutura se manifesta em diferentes momentos históricos e, por outro lado, como as coordenadas de certos momentos históricos afetam a própria estrutura. Pensando nisso, Lacan inventou os discursos, que escrevem laços sociais que predominam em um dado momento histórico. Mas como podemos falar sobre os processos de subjetivação – como vocês mencionaram – de nossa época, da atualidade, como disseram. Lacan recomendou aos psicanalistas que renunciassem a essa prática aqueles que não alcançassem em seu horizonte a subjetividade de sua época. É um grande desafio e um paradoxo, pois nunca alcançamos o horizonte... A atualidade nos escapa a cada segundo, e não estamos imunes aos seus efeitos. Mas talvez eu possa dizer que, mais sério do que a espetacularização, tão bem descrita por Débord, o que me preocupa é a aceleração sem precedentes provocada pela aliança entre o capitalismo de consumo e o discurso cientificista. Suspeito que a bizarra epidemia atual de “autismo” tenha a ver com isso. A ver...

Escutatório: Você poderia falar um pouco mais sobre essa relação entre o capitalismo de consumo e o discurso cientificista com a epidemia de "autismo" e se ela também se aplica a outros diagnósticos?

Ana Laura: Esse foi um tema que eu trabalhei há alguns anos atrás, estimulada pela participação da Rede de Pesquisa de Psicanálise e Infância do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo no Movimento Psicanálise Autismo e Saúde Pública. Eu me perguntava por que o “autismo” é a bola da vez. Gosto de colocar “autismo” entre aspas devido à imprecisão cada vez mais patente desse diagnóstico. O “autismo” ou o seu “espectro” é epidêmico, como atualmente se constata na saúde pública, dada a ampliação dos fenômenos clínicos que podem ser incluídos nessa categoria.  Meus argumentos estão em um texto que foi publicado da revista A PESTE vol4 n2. Autismo e Segregação. A categoria clínica “autista” hiperboliza a série de paradoxos apresentadas pelo binômio hipermoderno segregação-concentração. Se o autista se auto exclui, justamente por recusar a entrada no Discurso do Mestre enquanto discurso da estrutura, a neuropsiquiatria do capitalismo avançado o concentra no universo da genética, e tenta proibir-lhe a psicanálise. Em tempos de infância generalizada, portanto, não nos surpreende que as questões relativas à infância estejam na ordem do dia e, mas especificamente, as crianças autistas. Talvez fosse o caso de nos perguntarmos se não estaríamos todos concentrados em uma mesma “doença da libido”, para usar uma expressão de Colette Soler. A resposta do psicanalista, entretanto, não está nem do lado da segregação nem do lado da concentração, na medida em que faz valer um discurso que sustenta a singularidade e a diferença absoluta.

Escutatório: Qual a função do analista nos debates das questões da polis?

Ana Laura: Sei que minha posição quanto a essa questão está bem longe ser unânime, mas considero que o analista tem uma função crucial nos debates das questões da polis. A ideia do Psicanalista enclausurado nas quatro paredes do consultório me parece incoerente com a história do movimento psicanalítico, desde Freud. O analista, em sua experiência clínica, tem a oportunidade de entrar em contato com as formações do inconsciente e com os modos de gozo; e isso permite o acesso a um saber muito específico sobre os laços sociais. O analista escuta, mas a posteriori pode ter voz e tomar a palavra. Aliás, é sua responsabilidade! Cabe a ele transmitir, amplificar isso que se recolhe em sua experiência, como fazemos quando falamos no megafone, em uma manifestação, ou no jogral das manifestações secundaristas atuais. O saber que a Psicanálise produziu sobre os laços pode ser de grande valia para a construção coletiva de um amor mais digno e de uma sociedade mais justa. O discurso do analista é incompatível ao fascismo e ao discurso do capitalista. Isso é estrutural, queiram ou não os psicanalistas mais conservadores. 

 


Gostou da publicação? Acha que outras pessoas poderiam se interessar? Compartilhe em suas redes sociais para que outras pessoas tenham acesso também !