O que você pensa sobre o uso da tecnologia na transmissão de um saber? por Christian Dunker

Por Christian Dunker

Christian Dunker é psicanalista, professor Titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Seu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015), lhe rendeu seu segundo prêmio Jabuti na categoria de Psicologia e Psicanálise. 

Christian Dunker é psicanalista, professor Titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Seu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015), lhe rendeu seu segundo prêmio Jabuti na categoria de Psicologia e Psicanálise. 

Do início ao fim de seu ensino Lacan associou o inconsciente ao saber, seja ele um saber suposto, um saber em dialética com a verdade ou ainda um saber como meio de gozo. Isso culmina na ideia do inconsciente (em alemão Unbewusst) transliterado para o francês une-bévue (uma aberração, erro, espanto) do saber. Se o inconsciente se estrutura inicialmente como uma linguagem, ele é também momento de uma dialética com o saber. A experiência recente com uma rede mundial de computadores corresponde a uma reorganização dos modos de saber, que traz consigo uma redefinição de fronteira entre o público e o privado, bem como dos suportes materiais e práxicos da linguagem. Lacan insistiu muito sobre as variações dos modos de linguagem, sempre extraindo consequências para nossos modos de subjetivação, inclusive em sua dimensão histórica. Neste sentido vamos encontrar o tema da carta de amor no surgimento do romance provençal, a importância subjetiva da noção de obra em Joyce, o tema do mito e da história no debate entre as formas orais e escritas de cultura.   

    Torna-se óbvio, neste contexto, afirmar que a mudança de meios representada pela vida digital afeta nossos complexos discursivos, nossos regimes de enunciação e nossa experiência de fala. Há sintomas que anunciam isso. Crianças com mutismo seletivo, autistas que encontram nas facilidades da escrita digital um meio expressivo bem como neuroses que se organizam em torno da temporalidade digital, que é muito diferente do tempo da fala ou da experiência intervalar da comunicação epistolar ou do sistema de publicação que envolvia a forma livro. 

    Zizek, em seu ensaio pioneiro, de 1999, perguntava se seria possível atravessar a fantasia no ciberespaço.  Seu argumento contra os pós-modernistas, que viam o espaço digital como uma matéria prima para o exercício da liberdade e flutuação de identidades, que a vida digital mostraria mais e mais a nossa prisão fantasmática, induzindo não a liberdade mas a constatação de nossa pobreza imaginativa, propiciada pela suspensão de certos limites de linguagem e de comunicação, por exemplo, uso de pseudônimos, anonimato e possibilidade de entrar em espaços privados com alta densidade erótica e pornográfica. De certa forma Zizek tinha razão. Na internet quem tem muito o que dizer o dirá com maior repercussão e com um nível de alcance translinguístico e transcultural jamais imaginado. Por outro lado, aqueles que tem pouco a dizer tendem a aumentar o volume da voz e se verão expostos em sua pequenez ou seu sentimento de irrelevância.  Muitos tem associado tais modos de relação com a emergência da cultura do ódio, no Brasil, com a cultura do ressentimento, como a dos jovens nerds solitários do “4chan” que ajudaram a eleger Trump. Há indícios que certos processo de radicalização e de alistamento em aventuras como Estado Islâmico e terrorismo dependam de certos efeitos discursivos tonados possíveis pela vida digital. 

    Na psicanálise teremos efeitos ambíguos como estes. Por isso suspeito um pouco da hipertrofia da noção de transmissão em detrimento da ideia mais freudiana de formação. A formação é um trabalho de quem recebe, se responsabiliza e presta contas, pública e privadamente sobre seus progressos na relação com o saber, que caracteriza o “autoriza-se por si mesmo e por mais alguns”. A transmissão parece-me um destes conceitos que eram revolucionários na época em que Lacan os cunhou, mas que se tornaram radioativamente ideológicos em nossa época. A transmissão para Lacan era um processo indiscernível da tese de um discurso que não seria do semblante, e de uma crítica da noção de autoria em sua conexão literária com o conceito de obra. A transmissão é de quem faz não de quem recebe. Uma grande ideia que, no entanto, pode alinhar a psicanálise contemporânea com uma massa de transmissores, anônimos ou inconsequentes, tornando o autorizar-se por si mesmo uma espécie de versão pós-moderna do self-made-man, ou seja, o self made analist

    Enquanto discutíamos a radicalidade da Escola de Lacan em 1967, acontecia de tudo na internet: gente querendo profissionalizar a psicanálise como uma seita religiosa, gente vendendo carteirinha de psicanalista ou manual com o tamanho exato que um divã deve ter, gente criando o código de ética dos psicanalistas, gente declarando abertamente a psicanálise como uma pseudociência, gente vendendo formação psicanalítica on-line, gente dizendo que a psicanálise era uma invenção dos nazistas ou dos esquerdistas, gente dizendo que a psicanálise estava por trás de ou incorporada em tudo quanto é tipo de psicoterapia sugestiva. O espaço público, quando ele acontece tem horror ao vácuo, se você não ocupa alguém o fará por você. Infelizmente analistas estabelecidos e garantidos, não só não querem se arriscar nesta barbárie, como não contribuem muito para que o problema que se coloca para os mais jovens, em termos de percurso de formação e complexidade do processo de autorização, seja repensado.  Não precisa ser uma oposição simples entre a transmissão vertical e genealógica ou a transmissão horizontal em superfície infinita da experiência digital. Acredito em transmissão transversal, não sem formação pessoal, direta, sem procuração ou anonimato. 

    É certo que a reorganização e disponibilidade do saber, como ordem simbólica de enunciados torna o estudo, a pesquisa e a divulgação das ideias psicanalíticas uma experiência inédita. A antiga autoridade condominial dos mestres que encurralavam pessoas em circuitos de transferência convergentes foi saudavelmente exposta á diversidade de meios e a emergência de uma polifonia de vozes. Muitos vão ver nisso uma corrupção das práticas sagradas e uma profanação do que deveria ser a verdadeira psicanálise. Fico espantando com a virulência e com o caráter rudimentar de certas críticas que recebo, principalmente de psicanalistas, em torno de meu programa de questões sobre a psicanálise, o Falando Nisso. Dá-se por certo que se alguém se deixa filmar é porque tem uma paixão narcísica e exibicionista. Que se alguém se envolve com política é porque quer se tornar candidato. Que se alguém fala de psicanálise de forma aberta, pública e gratuita é porque está disposto a se autopromover ou tem uma agenda escondida de interesses sórdidos ou partidários. Isso denuncia como estávamos pensando a organização do saber em psicanálise, ou seja, como a administração de um bem precioso, que deve permanecer sob a guarda de um grupo especial, para que o capital cultural ou capital social, associado com este saber, não se dissolva ou se “massifique”. Neste sentido a internet aplicou um saneamento básico absolutamente bem vindo para um tipo de relação com o saber-poder que é histórica e constitutivamente antagônico com a ética da psicanálise, como tentei mostrar em meu livro sobre “Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica”.  

    Neste contexto radicaliza-se a distinção entre pesquisa e a apresentação da psicanálise ao debate público e a formação dos psicanalistas. Esta pode ser facilitada e democratizada com a transmissão digital, assim como pode ser aviltada com a substituição do laço coletivo e pessoal de transferência, seja analítica, seja de trabalho, pelo anonimato. Desde sempre o poder das associações psicanalíticas dependeu de dois fatores: sua força como instância de certificação e reconhecimento da formação que ela dispensa, o que Lacan chama de garantia, mas também da força indireta de facultar aos psicanalistas, que estes se apresentem ao mundo. Um espaço público que no qual eles podem dizer que pensam desta ou daquela maneira, que praticam a psicanálise neste ou naquele estilo. Infelizmente poucas associações pensaram-se a si mesmas como atores sociais no espaço público, seja como versões de uma associação científica, seja como um escola definida por uma comunidade de experiência, seja ainda como uma entidade política da sociedade civil. Este atraso organizativo foi atropelado pela chegada deste novo suporte transmissivo que é a internet. Vemos então escolas se organizarem em escala global e a psicanálise desenvolver-se me lugares remotos, como o Líbano e a Patagônia, com uma facilidade espantosa e impensável sem a facilidade da comunicação digital. Mas vemos também uma relativa perda de algo que para a psicanálise é insubstituível, e que de fato a torna artesanal, que é o encontro com psicanalista, em uma experiência de fala (e não de escrita), em primeira pessoa, com corpo presente. E o seu respectivo correlato em termos de supervisão ou de vida associativa.  

    Por isso vejo com alguma restrição, tanto teórica como pela própria experiência, a ideia de um tratamento inteiramente desenvolvido por Skype. Os carteis que participei on line, nunca foram muito bem sucedidos e os debates que acompanho, mesmo por listas de email, facilmente evoluem para a tensão imaginária à qual estamos habituados na vida digital. Como dizia Lacan, não há progresso, como não se sabe o que se se perde de um lado, não podemos calcular, com perfeição, o que ganhamos do outro. Hoje, provavelmente, há muito mais discussão sobre psicanálise e participação dela neste espaço público-privado, estruturado topologicamente como uma Garrafa de Klein, graças à internet, do que jamais houve. Umarenovação crítica é exigida por estes novos meios.