O que você pensa sobre o uso da tecnologia na transmissão de um saber? por Gabriel Vituri

Neste mês de junho o Escutatório completa 1 ano de existência! Preparamos uma programação especial para discutir um tema atual e que deve ser colocado em debate: a escolha pelo uso da tecnologia para transmitir saberes. Tecnologias  como   Skype, WhatsApp,  YouTube que  também estão presentes  no fazer diário dos que se propõem a falar, produzir e/ou transmitir conteúdo. No entanto, acreditamos que abrir o dálogo com outros profissionais sempre é mais interessante e enriquecedor! Assim, apresentamos nosso primeiro convidado, o jornalista Gabriel Vituri, que aceitou escrever e pensar o tema a partir da pergunta: "O que você pensa sobre o uso da tecnologia na transmissão de um saber?".  Ficamos felizes por ter colaborado neste projeto!

Boa leitura!


Gabriel Vituri é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero. Como repórter, passou pelos portais do Estadão e da MTV Brasil,  editou sites na Editora Abril e colaborou com outros veículos, impressos e digitais. Atualmente, é m  estrando em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp, integra o grupo de pesquisa Informação, Comunicação, Tecnologia e Sociedade (ICTS/Unicamp) e atua como jornalista freelancer. 

Gabriel Vituri é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero. Como repórter, passou pelos portais do Estadão e da MTV Brasil,  editou sites na Editora Abril e colaborou com outros veículos, impressos e digitais. Atualmente, é mestrando em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp, integra o grupo de pesquisa Informação, Comunicação, Tecnologia e Sociedade (ICTS/Unicamp) e atua como jornalista freelancer. 

O convite do Escutatório – pelo qual gostaria de agradecer mais uma vez, aliás – despontou na caixa de entrada com uma questão capaz de gerar em mim sentimentos dissonantes entre si. Em conversas informais ou durante discussões profundamente teóricas, a ideia de pensar a tecnologia entre tarefas complexas e ordinárias do dia a dia me atrai ao mesmo tempo em que me desnorteia. Explico.

Pouco importa hoje sobre o quê estou debruçado, tudo invariavelmente atravessará processos facilitados por tecnologias de informação e comunicação: pesquisas e apurações jornalísticas, incessantes caçadas por textos científicos, leituras de resenhas (de cafés, impressoras, seriados, máquinas de lavar roupas), a busca pelo melhor novo hambúrguer da região onde moro, uma decisão sobre o itinerário apropriado, a compra de um item em promoção. Por outro lado, a inevitabilidade dessas mediações e sua conveniência me geram em outra ponta enorme inquietude. O sentimento vem da certeza de que tudo tem seu preço.

Para cada saber que buscamos, produzimos ou compartilhamos dentro de espaços conectados, entregamos gentilmente, muitas vezes sem o saber, dados que revelam quem somos, fomos ou gostaríamos de ser dali a algumas horas ou anos. Correndo o risco de esse enunciado parecer distante ou imaterial, melhor seria dizer que nossas televisões são capazes de escutar uma conversa ambiente mesmo desligadas, que nossos smartphones literalmente rastreiam nossos passos, que nosso navegador na Web prevê o que vamos querer fazer mais tarde, dentre outras centenas de situações que ameaçam nossa privacidade.

Apesar de soar pessimista, ou “paranoico”, para citar um termo recorrente entre os que se referem aos interessados em debates sobre vigilância, não se trata de vilanizar a Internet ou as tecnologias e suas utilidades, e sim de expor uma tomada de consciência sobre ferramentas que nos são caras, porém estão bem distantes de serem neutras. Como lidar, então, com a realidade de um cenário supostamente ameaçador, mas também tão intangível? A impressão, e essa vai para a minha modesta cota de otimismo, é que há uma onda de resistência cada vez maior dentro desse cenário. As revelações de Edward Snowden sobre a espionagem da NSA, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, em 2013, assim como outros movimentos recentes de estudos sobre tecnologia, parecem ter despertado um senso crítico em bastante gente. 

Compreendendo a transmissão de saberes e informações como um percurso de mudanças constantes, talvez o caminho sejam vários, mas principalmente o da crítica. A complexidade das tecnologias, suas controvérsias e obscuridades não deveriam mais dialogar com a inércia. 

 

ps.: Com o tempo, verdade seja dita, tenho deixado meu celular cada vez mais longe de mim durante as sessões de análise. Nunca se sabe.