Um analista

Por Anastácia David

Temos como um dos marcos históricos da humanidade o surgimento da psicanálise, ali por volta de 1900. Psicanalistas debruçados na história do movimento psicanalítico apontavam que dali a cinquenta anos esse saber estaria vivendo seus tempos de apogeu; traços da sua influência seriam sentidos nas artes causando grande revolução na forma como a história do homem era contada, na poesia, nas tintas a óleo e nos textos literários. Para além das artes, o pensamento psicanalítico propõe nova relação no processo de “cura” para os sintomas e sofrimento emocional.

Os textos contidos nas Obras Completas de Sigmund Freud (1856- 1939) foram traduzidos do idioma alemão para o inglês, catalão, espanhol, italiano, francês e nos anos 1933 publica-se a tradução para o idioma japonês. Esse passo dado pela psicanálise reafirmou a conexão possível da psicanálise com os não-europeus e, mais ainda, com o público oriental. Observa-se uma expansão. Após textos como Totem e Tabu (1913) dentre outros textos antropológicos, tidos como textos sociais da obra freudiana, conseguimos contemplar o olhar amplo da psicanálise para o homem, não somente organizado em grandes cidades, mas também em tribos, aldeias e, por que não dizer que há campo para o estudo da psicanálise com populações quilombolas?

Falando de teoria, o pensamento psicanalítico desde Jacques Lacan (1901-1981), em sua retomada aos textos freudianos, ocupou-se das questões relacionadas ao sujeito e as formas de constituição subjetiva inerentes ao pertencimento a uma ordem de linguagem, fundamental ao humano. Nesse sentido, falar sobre “si” pressupõe um posicionamento no código linguístico comum ao laço social, esse sujeito além de inscrito na linguagem, ocupa um lugar na ordem social.

E é aí que esse texto quer chegar. 

O sujeito não é entendido dentro da psicanálise como uno, o sujeito é barrado, barrado por esse código linguístico que baliza seus anseios e o orienta à vida na polis.  Se o sujeito não é uno, e se diz a partir da relação com o laço social, concerne à psicanálise deixar-se de fora das questões sociais? 

Virgínia Bicudo (1910-2003), psicanalista, precursora da psicanálise no Brasil debruçou-se sobre as questões sociais referindo-se à psicanálise como portadora de uma abrangência social. Fundamental à clínica e ao fazer analítico, está a importância do posicionamento analítico nas lutas sociais. Ou seja, a psicanálise stricto sensu, aquela reservada as paredes do consultório, deve ocupar-se também de que tipo de mundo habitam tanto o analista quando o analisante. 

Elizabeth Roudinesco (1944), historiadora e psicanalista, influenciada pela verve questionadora da publicação doLe livre noir de la Psychanalys: vivre, penser e aller meiux sans Freud - organização de Catherine Meyer, publicado a primeira vez na França no ano de 2005 e conhecido nos corredores da psicanálise, apenas, como “O livro Negro” - e consciente dos impactos à psicanálise de uma publicação com teor histórico e metodológico amplamente questionável, ocupou-se da tarefa de produzir o livro“Em defesa da psicanálise: ensaios e entrevistas” (editora Zahar, 2010) para responder com amplo alcance, ou seja, impacto social às criticas apresentadas à teoria analítica e aos ataques em primeira pessoa dirigidos aos analistas da velha guarda (Melanie Klein, Françoise Dolto, Ernest Jones dentre outros). Teria o psicanalista um caráter militante? Seria a causa analítica uma bandeira? Pensemos. 

[ Pausa]

Apesar de todo arsenal histórico apresentado nesse texto, que perpassa pelo surgimento de uma teoria, personagens dispares e protagonistas da causa analítica, homens, mulheres que se deslocam do cenário euro centrista para discutir o cerne das questões humanas, que defende o funcionamento de um aparelho psíquico e o inconsciente como senhor das emoções. Apesar de tudo isso... 

Se puxarmos da memória a imagem de um analista, o que aparecerá? Posso sugerir que aparecerá um consultório em tons terrosos, um ou dois tapetes em composição com o divã, poltronas de couro escuro onde está sentado o analista, um homem, branco, de meia idade, com óculos redondos pousados sobre o nariz e uma barba espessa que vai de encontro a sua mão no queixo com expressão de je vous écoute (estou lhe escutando).

Atenderia somente essa cena à psicanálise em seu surgimento? E nos tempos atuais?  

Certamente, nos consultórios e instituições o que se vê são analistas como esse citado, mas também uma infinidade de outros tipos humanos, gêneros diversos, raças distintas, ou seja, como Charles Melman escreveu em 2007 no seu texto sobre A essência do analista, não existe um "traço evidente" que identifique um analista. Um analista é aquele que passa pela sua formação: em primeiro lugar o processo de análise pessoal, ao estudo teórico da psicanálise e a supervisão dos seus atendimentos por um analista de maior percurso dentro da psicanálise. Esse é o tripé definido por Freud como fundamental à formação. Mais adiante no mesmo texto, C. Melman complementa com a afirmativa "Lacan tinha esta fórmula curiosa:  não há analistas, ele dizia, mas analista. Em outras palavras, os analistas não formam uma união de indivíduos, mas de objetos não especularizáveis e não quantificáveis", nas palavras dele.

 Em respeito a causa analítica pode-se acrescentar o compromisso com a transmissão da psicanálise e o comprometimento político – ético – social.

Um psicanalista pode ser um membro de escola ou sociedade psicanalítica, pode ser o representante de um coletivo, pode ser atuante em redes sociais, pode ser escritor desde que, com o seu fazer em nome da psicanálise, mantenha o compromisso com a Ética analítica assumido em sua autorização, por si e por alguns outros, como afirma Lacan.