A produção de corpos mortos

Por Carolina Escobar

Havia pensado em outro tema para este texto; no entanto, diante de alguns acontecimentos recentes penso ser urgente abrir este espaço para outra questão. Urgente pela seriedade, pela gravidade e – confesso - para que possa começar a dar algum tratamento para o estranhamento que me causaram.

É ainda mais impactante pensar que não são cenas inéditas; mas sim que fazem parte de nosso cotidiano e chegam a nós sem que precisemos fazer qualquer esforço para encontrá-las. Milhares de refugiados à deriva vivenciando em seus corpos o limbo do não-lugar; palavras de ódio sendo tatuadas na testa de um adolescente; ações de extrema violência e desubjetivação à moradores de rua – tanto as direcionadas aos dependentes químicos em situação de rua na “Cracolândia”; como os moradores de rua que foram acordados com jatos de água gelada em dias de baixíssima temperatura do inverno paulistano - e tantas outras.

Como disse, são apenas algumas das muitas situações que vislumbramos ao ter acesso às notícias, ao conectar-se na internet ou até mesmo ao sair de casa pela manhã e andar pelas ruas da cidade. São situações de grande complexidade que envolvem questões de política internacional, de políticas públicas, de saúde pública e que, para além disso, não podem ser pensadas dissociadas dos aspectos sociais e psíquicos. 

Recentemente tive um encontro com textos do filósofo italiano Giorgio Agamben e já me sinto intimamente marcada por eles. Sei que grande parte do estranhamento citado no início deste texto já é efeito deste encontro, por isso, não poderei deixar de cita-lo uma vez que suscitou em mim questões fundamentais sobre o mal-estar inerente à qualquer civilização e como a política pensa e tenta dar conta dele.

Convido-os para a leitura de um trecho do Homo Sacer I: o poder soberano e a vida nua (2002, p.146, grifo meu):

É como se toda valorização e toda “politização” da vida (como está implícita, no fundo, na soberania do indivíduo sobre sua própria existência) implicasse necessariamente uma nova decisão sobre o limiar além do qual a vida cessa de ser politicamente relevante, é então somente “vida sacra” e, como tal, pode ser impunemente eliminada. Toda sociedade fixa esse limite, toda sociedade – mesmo a mais moderna – decide quais sejam seus “homens sacros”. É possível, aliás, que este limite, do qual depende a politização e a exceptio da vida natural na ordem jurídica estatal não tenha feito mais do que alargar-se na história do Ocidente e passe hoje- no novo horizonte biopolítico dos estados de soberania nacional – necessariamente ao interior de toda vida humana e de todo cidadão. A vida nua não está mais confinada a um lugar particular ou em uma categoria definida, mas habita o corpo biológico de cada ser vivente.

 

Este e tantos outros trechos preciosos do texto de Agamben fornecem uma leitura muito interessante sobre uma das formas de fazer política do nosso tempo: a indistinção entre a vida política e a vida biológica; e a separação entre as vidas politicamente relevantes e as não relevantes que, de forma legitimada e incluída neste funcionamento, podem ser eliminadas.

O corpo natural é recortado pela política assim como sua dignidade humana, uma vez que apenas serão humanos aqueles que carregam os símbolos de cidadania e da cultura; os cidadãos. Retirada do plano político-social, a vida é tratada como matéria e sem vida humana aquele corpo é um mero projeto biológico. 

Esvaziado de cultura e sendo um projeto biológico se torna o objeto perfeito para bater, medicar, matar, internar, tatuar sem que haja qualquer reflexão sobre a humanidade daquele corpo. Afinal, porque pensar sobre um corpo que é só matéria e, portanto, não humano? 

Para ele, a política fica nos corpos!

Diante desta complexidade, a questão que motivou a escrita deste texto é: De que forma a Psicanálise pode contribuir com este cenário?

Para a psicanálise o Corpo possui lugar fundamental na compreensão, na escuta e na direção do tratamento. Aquilo que buscamos no reflexo do espelho não se trata, apenas, do reflexo de um organismo vivo (carne, músculos, sinapses em ação, órgãos conectados que, uma vez funcionando, são vitais), mas também – e sobretudo -  aquilo que unifica minha imagem em um lugar que dá sentido e sustenção à minha existência, me possibilita uma marca com a qual me identifico.

Quem são àqueles que habitam os corpos-matéria que, ao não serem politicamente relevantes, perdem a dignidade humana? Seriam humanos? Qual sua história? O que levou a este ponto? 

Seja pelo peso e importância que dá para a linguagem , já que é ferramenta potente no tratamento do mal estar e fundamentalmente o que nos distância da natureza; seja pela escuta analítica e as possíveis intervenções e tratamentos de linguagem que surgem a partir dela, a aposta é de transformar desamparo em potência.

Como? Escutar , reconhecer , apontar e localizar o humano!

Sobre este aspecto – o de considerar corpos-sujeito – entendo que a Psicanálise tenha muito a contribuir nesta discussão.