O que pensamos sobre o uso da tecnologia na transmissão de saberes? por Escutatório

De início gostaríamos de destacar o efeito dos textos de nossos convidados do mês de junho sobre nós, psicanalistas que escrevem para o site. A pergunta escolhida por nós e feita a cada um deles foi pensada a partir do contexto de comemoração de 1 ano do site, no intuito de re-pensar nosso próprio fazer através do uso da internet/site para a publicação de conteúdo.

Quando quatro analistas se propõem a levar em conta a ideia de transmissão, desenvolve-se um projeto (Escutatório) com alguns objetivos específicos. Talvez o primeiro deles seja o de levar "a peste" a outros espaços e lugares, abrindo a possibilidade do debate e discussão de temas e conceitos complexos e que exigem este exercício de crítica. O segundo objetivo está relacionado a escrita e a produção de textos publicados no site, mas ao mesmo tempo, também está para além disso, pois entendemos que o nosso fazer circula por outros lugares – não só virtuais –  seja nos consultórios escutando nossos analisandos, seja em palestras explorando temas ou mesmo em supervisão discutindo casos.

Os textos escritos e publicados no site expressam a tentativa de não "falar sobre" a psicanálise, mas de abordar temas que concernem ao humano atravessados pela psicanálise, com o cuidado de nós mesmas nos fazermos entender aquilo que está sendo escrito, evitando, quem sabe, o que já se conhece por "lacanês", uma vez que escrever/falar lacanês só o próprio Lacan, pois fora deste contexto, vemos como tentativas frustradas de encarná-lo. Assim, ao evitar uma escrita rebuscada (cansativa?) estamos simplesmente convidando o leitor a transitar pelos conceitos,  ideias e temas psicanalíticos de Freud a Lacan.  Além disso, convidamos também para o diálogo pessoas que atuam em outras áreas com formas diferentes de compreender o mundo. Como foi o caso no mês de junho. 

Se o nosso objetivo com a programação de junho foi o de repensar a própria prática a partir do site e do uso da tecnologia, acreditamos que o objetivo foi alcançado, pois com a leitura dos textos dos convidados – Gabriel, Caio e Christian – fomos tomadas por um efeito inesperado que gerou um reposicionamento nosso quanto ao conceito de transmissão para a psicanálise. Por isso, agradecemos aos três por terem nos proporcionado esta experiência a partir do que escreveram e pensaram sobre a pergunta: "O que você pensa sobre o uso da tecnologia na transmissão de um saber?" 

O reposicionamento em relação ao conceito de transmissão, está orientado pela ideia de causa. A transmissão não está dada (a priori), ela opera a partir de um discurso que tem o saber como a produção de uma verdade do sujeito: o discurso do analista. Como bem disse Christian em seu texto, a transmissão está do lado de quem a oferta e não de quem recebe, ou seja, está do lado de quem opera tal discurso. Quanto a nossa pergunta que compõe o título deste texto, consta nela a tríade saber-transmissão-tecnologia, o que exige de nós um esforço e tempo maiores para um aprofundamento, no entanto, isso não nos impede de expor algumas construções possíveis em costura com os textos dos convidados.

Nosso convidado Caio Gondim, em um dos seus apontamentos, explora a tecnologia como ferramenta que trabalha na lógica da escala e da acessibilidade. Pontos fortes que justificam por exemplo o crescente investimento na área de tecnologia da informação. Tal lógica parte do problema que muitas pessoas não tem acesso a educação e que com a internet esse número pode vir a diminuir, uma vez que há a possibilidade do e-learning. Nesse sentido, a tecnologia tem como um de seus objetivos aumentar o número de pessoas que tem acesso a informação e ao conhecimento. Entendemos que a ferramenta (tecnologia/internet) é a mesma que a utilizada por nós, no entanto, os objetivos são diferentes,  pois publicamos conteúdo no intuito de abrir a discussão, apresentar disparadores e construir um movimento em torno da teoria e da prática na psicanálise. Neste sentido, se a área de TI tem como um de seus objetivos a "massificação" da informação (quanto o maior número de pessoas acessarem melhor) esta mesma massificação aparece para nós como efeito, mesmo não sendo nosso objetivo. 


Quanto a "outra face" da tecnologia, Gabriel Vitturi explora em seu texto o caminho da crítica para lidar com as obscuridades da tecnologia: distantes da neutralidade, alinhados aos efeitos de vigilância excessiva, ameaça da privacidade, rastreamento dos passos daqueles que se aventuram no espaço virtual. Esse recorte nos adverte também quanto aos riscos, por exemplo, de sermos capturados pela sedutora polaridade consumo–narcisismo tão presente nas redes sociais.

A contribuição feita pelo texto do Christian Dunker nos remete o tempo todo a questões importantes do lado dos psicanalistas, que implicam em uma posição destes quanto ao uso da internet e das redes sociais. Inclusive, este pode ser um espaço ocupado pelos psicanalistas, mas não substitui o encontro "presencial" ou "corpo a corpo". Além disso, ele retoma o conceito de transmissão, o articula à formação do analista e que a tecnologia pode estar presente em tudo isso. Contudo, não há garantias que uma transmissão se dê, pois diferente da ideia de ensino, não está relacionado as questões da aprendizagem, está para além disso. O aspecto que irá diferenciar a ideia de transmissão para a psicanálise dos demais saberes é o Inconsciente enquanto causa. 

Um ano após a rotina de escrever textos para as colunas do site sobre temas atravessados pela psicanálise e também pela experiência de cada uma com a transmissão, voltamos a pergunta: O que e de que forma se transmite em psicanálise? Relançamos a presente questão para que o debate não se encerre e, esta seja uma questão sempre presente na práxis daqueles que se propõem a escutar com o objetivo de produzir um saber (verdade) do sujeito.

 

Anastácia David

Carolina Escobar

Lorena Bitar

Mariana Anconi