A renúncia do analista


Jane é divorciada e dona de uma padaria de sucesso em sua cidade. Passados 10 anos de seu divórcio e três filhos crescidos, ela finalmente tem um bom relacionamento com seu ex-marido Jake. Jane e Jake tem um reencontro na formatura de faculdade do seu filho Luke. Após um jantar, os dois se envolvem e tem um caso. No filme "Simplesmente complicado" a atriz Meryl Streep que interpreta Jane, se vê no lugar "da outra mulher" com o ex-marido que é casado, o que lhe provoca sentimentos ambivalentes. Frente a isso, decide então recorrer ao seu terapeuta com a pergunta pronta: "O que devo fazer?"

Quantas vezes um analista já ouviu isso? Incontáveis vezes. A maneira como os pacientes endereçam perguntas e expectativas, mesmo que não expressadas de forma direta, são em última instância demandas de amor. Como Freud ensina, trata-se do amor transferencial, mas não só disso. Por outro lado, a maneira como o analista recebe e acolhe estas demandas produz efeitos na direção de tratamento. "Devo acabar o casamento?", "Devo trocar de emprego?", "Devo deixar de ligar, para ele sentir minha falta?", "Devo acreditar nela?". São todas perguntas legítimas que falam de um modo de sofrimento ou uma formas de mal estar. 

A partir do que é dito (e não-dito) em análise, o analista poderá formular uma hipótese a respeito da estrutura a qual o analisando está referido e a partir desta hipótese manejar escutar as demandas para além do que está sendo dito. Freud a partir dos casos que atendeu foi elucidando questões importantes a respeito do manejo das demandas, mesmo quando cometeu deslizes aprendemos com ele. No caso Dora (1), por exemplo, a paciente decide interromper sua análise, uma vez que seu analista (Freud) insiste em interpretações que impossibilotaram a formulação de um enigma para paciente, que seria: "o que é uma mulher?". Freud sem se dar conta, tenta durante as sessões com Dora responder ao pedido (demanda) do pai: "Coloque minha filha no bom caminho." E a partir disso, deixa de escutar a paciente, fazendo com que a mesma interrompesse abruptamente o tratamento.

Em seu livro "A ética e a psicanálise" Maria Rita Kehl destaca que há uma renúncia por parte do analista e não uma recusa quanto a responder às perguntas feitas pelos pacientes. A diferença entre uma e outra é importante. Renuncia-se a responder simplesmente porque não se tem resposta, e não por que tem uma resposta e não quer dar. Diferente no caso da recusa em que o analista guardaria uma resposta para si e não a compartilharia com o paciente. Não se trata disso. A renúncia remete, por exemplo, as situações de silêncio em análise. Esse silêncio, não deve parecer uma recusa ao falar, ao contrário, um poder falar, mais ainda.

Voltando a situação do filme, há uma cena em que Jane pede um horário "extra" com o terapeuta e vai até o consultório. Ao encontrá-lo ela diz: "Eu sei como a terapia funciona, mas neste caso eu preciso que me diga o que pensa. Quero que me diga o que fazer". O terapeuta faz uma pausa, fala algumas coisas que os dois já conversaram durante as sessões sobre o fato de Jane ser "encanada" com tudo, e solta um "let go Jane", traduzido para "desencana Jane".

Ser encanada com tudo é a forma de Jane lidar com a vida, com as pessoas. Quando o terapeuta diz para ela desencanar há uma ambiguidade em sua fala. Ele poderia estar falando para Jane "desencanar do ex-marido" ou então desencanar das preocupações e seguir com o affair. Neste caso, a paciente interpreta como uma autorização do analista para seguir em frente o caso com o ex-marido.

A frase dita pelo terapeuta - mesmo que tenha escorregado na tentativa em ajudar Jane -  é um bom exemplo para pensarmos em como a fala está permeada pelo mal-entendido que, em uma situação de análise, deve caminhar para poder abrir o sentido e não fechá-lo como ocorre no filme. Assim, voltamos a pergunta inicial de "como opera um analista frente as demandas ?"  Entende-se que há uma escuta do que está para além da pergunta feita e direcionada ao analista, que é um querer saber sobre Outra coisa.

 

(1) “Fragmento da análise de um caso de histeria”, 1905. Dora é um dos cinco grandes casos clínicos publicados por Freud, juntamente com Pequeno Hans, Schreber, Homem dos ratos e Homem dos lobos.