Alguma saída

Por Anastácia David

Veio à lembrança um atendimento realizado numa tarde. Nele falava-se sobre a rapidez da expressão do tempo, sempre em trânsito, ele passa por nós e pelas coisas. Nesse tempo que flui, existe o tempo de uma vida; há a palavra que é dita que não retorna às entranhas, sai delas para o mundo e pode ou não encontrar repouso em outro ser. Há a bala, que nunca sai perdida do cano de revólver. Sai "encontrada" em direção daquilo que a fez existir. As mãos uma vez potentes e firmes hoje claudicam e, por vezes, vê-se beleza quando ao lado dessas mãos, aparecem outras mãos que as tomam pelo braço e as ajudam a atravessar.

Sobre esse movimento de vida Sigmund Freud, em Berlin (1915  ), publica um texto intitulado "Transitoriedade". Esse ensaio versa sobre um diálogo que ocorreu num passeio público em que ele e mais dois colegas, sendo um deles um poeta, questionam-se, inicialmente, sobre o coeficiente efêmero do belo nas artes, nas tradições de um povo, nos afetos entre as pessoas. Falam sobre o que é precioso ao ser humano.

Mergulhados na vida em volta deles percebem que a conversa passa a girar em torno da dor humana diante de um objeto perdido, objeto aqui lido como um ente encharcado de afeto, precioso. Ora, o que nos causa dor em relação à passagem do tempo é também aquilo que se perde no percurso de uma vida. Aquilo que nesse trânsito da existência fica perdido pelo caminho.

Freud inscreve nesse ponto do texto o conceito de luto. Ou seja, o que em nós some, se perde, quando aquilo que amamos deixa de existir. O conceito de luto apresentado com mais substância no texto Luto e Melancolia- escrito em 1915 e publicado em 1917 por Freud-  se refere tanto a expressão emocional da perda quanto como à vivência de luto como intrínseca ao existir humano.

 O luto se difere da melancolia que pode ser compreendida como um desinvestimento profundo de energia de vida, um posicionamento na estrutura o que Jacque Lacan nos falará mais adiante na história da psicanálise. O que é doloroso é não somente a constatação  da perda como também os sinais de angústia que envolve as situações de perda. Freud no texto transitoriedade aponta para o processo de perda individual e a dor inerente a ela, fala sobre a perda no âmbito social como, por exemplo, as perdas resultantes de uma guerra. Perdas resultantes de uma crise política como a vivenciada no Brasil da atualidade.

Freud na escrita desse texto já estava marcado pela experiência da Primeira Grande Guerra Mundial, nesse momento via se transformar tudo a sua volta. Preocupava-se com a sobrevivência dos seus familiares, com a cultura perdida, com o ícones transformados, preocupava-se com a sobrevivência da psicanálise à guerra. Dessa vez a guerra nada mais tinha a ver com as guerras dos séculos anteriores que se tinha notícia nos livros, as armas brancas foram substituídas por um potencial bélico nunca visto. O alcance mortífero dos bombardeios agora vindo também pelos ares com o dirigível tipo Zeppelin marcou a humanidade de forma tal que seria necessário outra guerra anos mais tarde ainda em virtude dos desfechos dessa.

Dentro do seio da psicanálise, Sándor Ferenczi, Otto Rank dentre outros analistas, saíram dos seus consultórios e foram ser combatentes no campo de batalha. Foi nesse período de guerra que Freud passou a revolucionar seu próprio pensamento; como nos conta a historiadora Elizabeth Roudinesco no livro "Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo" (2016).

Parece oportuno tratar da questão da transitoriedade nesse momento numa coluna do Escutatório. É notório o caráter transitivo dos rumos políticos para os próximos anos no Brasil. Um governo transitório, crise política, crise das instituições e, porque não dizer,  crise das relações entre as fatias sociais. Na coluna para o jornal Folha de São Paulo dessa semana o professor e filósofo Vladimir Safatleidentifica a situação atual como uma guerra civil "é uma guerra brutal [...] de acumulação e espoliação". Nesse cenário de guerra é possível pensar, de certa forma, que as balizas que alicerçam a sociedade brasileira estão em trânsito. Diante dessa situação de mudança há um coeficiente de angústia que envolve a sociedade e não é raro, que os pensamentos sobre política adentrem a reuniões familiares, os consultórios, as praças. Essa situação aponta para o extremismo ideológico e afrouxamento do legado das lutas sociais; descontentamento maciçodos discursos pautados nos direitos humanos. 

 Certamente, algumas saídas existem para a situação política atual. Destacamos o excerto de Sigmund Freud à respeito da guerra ainda no texto sobre a transitoriedade: "Quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito em que tínhamos as riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta da sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes" (p.319, Imago V. XIV).

 Ao leitor fica como ponto de partida esse texto que indica uma aposta no tempo vindouro, um caminho longo de mudança e reconstrução se anuncia.