Transitar o Corpo

Por Carolina Escobar

 

Uma noticia no jornal recente me surpreendeu: várias pessoas que um dia realizaram a cirurgia de mudança de sexo começaram a manifestar o interesse em reverte-la, enquanto que outras já realizaram a “destransição”, como chamam.

Creio terem percebido que um dos temas de meu interesse é o Corpo*, não à toa decido escrever sobre a surpresa que senti ao ler sobre as "destransições". Decidir transformar, operar e vivenciar uma nova costura de si na carne não é qualquer coisa. O que pode ter acontecido, então?

Explicito que o objetivo deste texto não é o de questionar os avanços que tornaram real a possibilidade desta cirurgia, nem a decisão pela cirurgia e muito menos entrar no campo da moral diante de um assunto tão atual como esse. Mas sim, pensar sobre o que poderia estar em jogo neste importante fenômeno das destransições, pois ao se apresentar convoca os analistas tanto em seu fazer clínico – como aquele que escuta essas pessoas em sua singularidade - quanto como em responsabilidade política e possível contribuição com a pólis.

As pessoas que dizem padecer de seu corpo a ponto de não reconhecê-lo como seu precisam ser escutadas! E não me refiro apenas àquelas que consideram a cirurgia de mudança de sexo; a relação de qualquer sujeito com seu corpo não é algo simples, pois o Corpo carrega em si marcas de identidade e, como tal, serão os pilares norteadores da forma de estar no mundo e em relação com outras pessoas.

Incômodos com o Corpo, sendo ele gordo, velho, doente, tatuado, amputado, com cicatrizes, operado...marcado pela vida são considerados na escuta dos analistas; já que a forma com que cada um se relacionacom elesaponta para o que há de mais particular em cada um.

A reportagem sobre as destransições descreve o sentimento de estranhamento que as pessoas que iniciaram o tratamento hormonal sentem, ou até mesmo a angústia presente quando a cirurgia já foi feita e, qualquer novo corte na carne não irá devolver ao corpo seu estatuto inicial. Estes são elementos a serem considerados na escuta analítica, já que a aposta -desde Freud – é a de um tratamento da angústia pela palavra.

Resta a questão: a que o pedido por cirurgias de (des)troca de sexo pode estar respondendo no âmbito social? Mais uma vez com complexidade maior do que uma coluna comporta, mas pontos podem ser levantados para iniciar uma reflexão sobre o assunto.

Frases como “O corpo é meu, portanto, faço o que quiser com ele” representam a luta de movimentos sociais importantíssimos em nossa cultura. Lutam para conquistar direitos, respeito à diferença e cidadania; e são fundamentais para a construção de novos lugares sociais.

Porém, tenho pensado que, em alguns contextos, o uso destas frases acabam subvertendo esta proposta – política, forte e necessária – e, acabam transformando-se em um discurso alienado e mercantil que coloca em questãoa força de um movimento de promoção de cidadania tão importante.

Teriam as cirurgias de troca de sexo também se tornado um alvo para a lógica mercadológica? Em termos psicanalíticos, estariam respondendo à lógica do imperativo de gozo? Corte! Mude! Transforme-se! Seja quem quiser! E então, encontrará a felicidade! Qual o lugar da singularidade e reconhecimento de si neste cenário?

A contribuição da Psicanálise também está em alertar que pode ser problemático calar as perguntas sobre os estranhamentos corporais. Talvez as destransições escancarem que há consequências importantes – e por que não desastrosas – em certos tratamentos do mal-estar inerente ao humano presentes também no que é vivenciado no e a partir do Corpo.

Habitar um Corpo implica em uma construção dialética, ambos se afetam: Sujeito e Corpo.

 

 

 

 

(*): A escolha pela escrita de Corpo com a letra maiúscula foi para evidenciar que se trata de um conceito Psicanalítico. Na teoria proposta por Jacques Lacan, o Corpo é compreendido em três estatutos (Real, Simbólico e Imaginário) que, em forma de gestalt, irão dizer da corporeidade de cada sujeito.