A psicanálise cura?

Por Mariana Anconi

 

A partir das discussões em torno das últimas notícias sobre a liminar que, na prática, torna legalmente possível que psicólogos ofereçam terapia com objetivo de reversão sexual, popularmente chamadas de cura gay, está sendo possível discutir e questionar o que se quer dizer sobre cura e tratamento da homossexualidade. Voltar a esta discussão nos coloca na repetição de um tema (sintoma) que ainda precisa ser discutido e mediado pela palavra.

No entanto, para além das discussões de patologização, o que me fez dedicar algumas linhas sobre o assunto foi o efeito para algumas pessoas do posicionamento contrário dos profissionais em relação a liminar, elas se questionaram: Se não pode curar/tratar, o que faz um psicanalista frente as demandas da sexualidade? Esta pergunta, na verdade, foi direcionada a mim através de uma mensagem de uma amiga que, ao constatar minha posição contrária a liminar, trouxe à tona esta questão carregada de dúvida e legitimidade, a respeito, do tratar e curar. 

Há cura no fazer analítico?

Primeiro, estamos falando de sexualidade. Para a psicanálise esse é um conceito caro e importante. A sexualidade em psicanálise não se trata de sexo, se trata de constituição subjetiva através da linguagem e está nas relações que atravessam o corpo desde a mais tenra idade. Uma mãe que cuida de seu bebê, que nomeia as partes de seu corpo, que investe libidinalmente na criança, é um exemplo de sexualidade. Dito isto, fica inviável pensar em uma cura para algo que é da ordem do humano.

O termo "cura" está presente na obra de Freud, por exemplo na expressão "talking cure" (cura pela palavra). No entanto, é importante problematizá-lo. De qual cura Freud falava ao relatar o desaparecimento dos sintomas das suas pacientes histéricas cujo corpo exprimia uma linguagem incompreensível para uma medicina organicista? Veremos.

Por outro lado, temos a ideia de cura como a eliminação de um fenômeno patológico. Nesse sentido, ele responde bem ao campo médico, que está referenciado a eliminação do fenômeno/doença.

Se pensarmos na lógica médica a psicanálise  não oferece uma cura, mas se propõe a um tratamento. Esse é o ponto chave para entendermos o fazer analítico enquanto uma proposta de um tratamento que se dá pela linguagem. Diferente do fenômeno, a psicanálise lida com o sintoma, que pode ser entendido como uma metáfora para o sofrimento.

Quanto ao termo "tratamento", este também oferece possibilidades distintas de entendimento.

1. ação ou efeito de tratar (curar);

2. maneira de receber ou ser recebido (acolhimento).

Não à toa, a palavra acolhimento é familiar no meio analítico, o analista acolhe demandas e questões. Acolher é escutar o sofrimento e operar de um lugar que ele (sujeito) possa produzir um saber sobre si, tendo efeitos em sua posição subjetiva, ou no jeito de lidar com as questões que lhe são difíceis. Por exemplo, quando há uma demanda de escuta para um corpo em desacordo consigo mesmo, quando não se reconhece enquanto tal.

A posição de um psicanalista em não ofertar um tratamento para homossexualidade não equivale a recusa em escutar pessoas que apresentem questões com sua sexualidade. Equivale a oferecer um tratamento ao sofrimento, às angústias do sujeito.

 

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