Ensaio sobre política

No último sábado, do banco de uma praça podia-seouvir o som das árvores e das peças de dominó quedeslizavam pelas mesas de jogo e entretinham homens de meia idade. A sublime contemplação daquela atmosfera pacata fora interrompida por grande barulho que se estabeleceu naquele lugar. O silêncio fora quebrado por uma fila de carros e trios elétricos em apoio a um candidato à presidência. Ao som de gritos de guerra e gestos armados, a paz da tarde rompeu-se naquele instante,não fosse a cena que aparecia do outro lado da praça.

Um grupo de jovens caminhava de forma leve, se tocavam trocando carícias e ao mesmo tempo riam das histórias que contavam, tinham entre eles a viva expressão das suas sexualidades, das suas artes, expressão do que para eles significava ocupar aquele espaço; tornaram-seresistência. Viviam a praça.O outro grupo, extremado, ora apontavam aos jovens suas armas imaginárias, ora pulavam em seus carros com frenesi.Ambos os grupos faziam política com suas falas e seus corpos. Existindo cada um à sua maneira, impactados com a existência mútua. Pesava no ar, assim como pesa o medo, a rigidez da divergência de pensamento.

O historiador e cientista político AchilleMbembé, no texto A era do humanismo está terminando (2016), conversou com esse cenário quando disse em sinal de denúncia que “a política se converterá na luta de rua e a razão não importará. Nem os fatos. A política voltará a ser um assunto de sobrevivência brutal em um ambiente ultracompetitivo”.

Essas formas de existir, atravessadas pelas histórias  que as constituem,encontraram-se naquela tarde para um embate. Ambos circularam pela praça, ofereceramsuas ideias ao lugar que habitaram. O estado democrático de direito prevê o diálogo, a divergência de ideias, com a ressalva de que não seja normalizado “um estado social de guerra” nas palavras de Mbembé, ou um clamor mortífero que rompe com a humanidade; temos em memória as lembranças do fascismo e as suas marcas nefastas à humanidade. Para esse teórico o próprio fazer político está em vias de resistir à sedução do capital “a transformação da política em negócio coloca o risco da eliminação da própria possibilidade da política”. Em tempos de capital, alguns discursos políticos oferecem como solução à crise das instituições, da economia e das relações sociais uma espécie de administração tal qual uma empresa; parecem denegar que a dinâmica das relações humanas é mais complexa do que os seus cases de sucesso.

No texto Filosofia do ressentimento, sociedade do espetáculo (2011) no livro Freud – mas por que tanto ódio¿, o psicanalista Roland Goricomenta sobre a atmosfera francesa em meados de 2010 “perderam cruelmente a esperança e a confiança no futuro e temem pelo pão cotidiano dos seus filhos” [...] “trata-se de uma crise no céu da democracia que, como a nuvem da erupção vulcânica, escurece o horizonte de nossos contemporâneos. Jean Jaurés não cansou de nos avisar: o pior, para uma democracia, é a ausência de autoconfiança”.O grande desafio da sociedade atual, não só a brasileira, parece ser a preservação da capacidade de fazer política a partir das diferenças.

O sol se pôs. As pessoas deixaram a praça. Não havia mais carreata, nem jovens nem carícias. E aquele espaço existiu com vida enquanto todos passaram por ali.

Aos analistas, lembremo-nos do dever de sempre se posicionar do lado da denúncia de todo discurso que tem por ética calar a palavra, calar o corpo de sua expressão. Façamos, enquanto cidadãos, função de praça onde a palavra possa existir e resistir. Não há psicanálise sem política, pois não há nada que milite mais do que o próprio inconsciente.

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