Saúde mental e trabalho

Por Mariana Anconi

Fui convidada a falar neste mês de Novembro sobre saúde mental e trabalho em um podcast da área de tecnologia (ZOFE - click aqui). Discutimos sobre alguns aspectos relacionados ao sofrimento psíquico, mal-estar e as demandas no mercado de trabalho. 

Um tópico em específico ganhou destaque: a síndrome do impostor. A princípio, não é um diagnóstico reconhecido pelo DSM (1), mas que está muito presente na fala de trabalhadores. O impostor, é um significante que circula muito entre profissionais da tecnologia. Descobri inclusive que existe um livro famoso da área de TI que tem este significante no título. 

A sensação de ser um impostor aparece na presença de uma angústia, associado a ideia de inferioridade em relação aos colegas de trabalho, de não pertencimento a determinado grupo. A pessoa não se reconhece em seus próprios méritos, se sente um impostor de suas próprias ideias. 

Uma cena que me ocorre sempre que surge este tema se refere a alguém em frente ao espelho que, ao ver sua própria imagem refletida, vê outra versão sua. É como um duplo, que traz a dúvida, confusão e horror sobre si mesmo. Este sujeito em frente ao espelho pensa: esse outro, que também sou eu, me coloca em risco, uma vez que, como impostor, pode ser descoberto a qualquer momento. É a ideia de que podemos ser traídos por nós mesmos. O homem não é senhor de si, ou “ o eu não é senhor de sua própria casa” como formulou Freud em 1917.

Nesta condição de impostor, mesmo que muitas pessoas se identifiquem, afetos e sentimentos podem estar envolvidos de diferentes formas em cada pessoa. Inclusive, este poder ser pensado como mais uma forma de falar de um mal-estar que aparece principalmente relacionado ao trabalho.

Durante a conversa no podcast surgiu a questão sobre como “ter" saúde mental no trabalho. Antes de tentar formular uma resposta, foi importante retornar a uma questão inicial: O que é saúde mental? 

Não é uma pergunta de um único caminho. É necessário optar por um discurso, um saber, para pensar sobre o tema. Além disso, esse saber, de preferência, tem que abrir o diálogo, pois ainda há uma nuvem cinza que paira sobre estas duas palavras (saúde mental), como um tabu,  relacionado ainda a crenças que julgam moralmente aqueles acometidos por algum sintoma ou psicopatologia. Isso faz calar, silenciar o sujeito. 

Quando o assunto é saúde mental, para a psicanálise o sofrimento é trabalhado no um a um. Ele é entendido como uma resposta da pessoa ao que está difícil de lidar,  ou ainda, ao impossível. Os diagnósticos dos manuais podem ser pensados como tentativas de se nomear um mal-estar que habita o sujeito. 

Freud (1930) fala do mal-estar como o impasse do sujeito, ou seja, sua impossível adequação ao ideal de universalidade que lhe é imposto pelo Outro. É preciso que ele (o paciente) fale sobre este diagnóstico, ou esta nomeação, e que possa construir um saber próprio a respeito.

Além disso, que possa colocar em suas palavras sobre o que se queixa. Há uma aposta ética do analista para que comece pelo “sinto mal” e faça um movimento lógico para o sintoma. Quinet (1991, p. 20-21) afirma: “ É preciso que essa queixa se transforme numa demanda endereçada àquele analista e que o sintoma passe do estatuto de resposta ao estatuto de questão para o sujeito, para que este seja instigado a decifrá-lo.” 

"Ter" ou "não ter" saúde mental não é uma questão da psicanálise. O que a práxis psicanalítica aponta tem a ver com o sofrimento e a impossibilidade de se ter uma vida mais "leve". Freud fala de saúde mental de um jeito que parece simples e que tenta responder a menos ideais: saúde mental é ter a capacidade de amar e trabalhar. Se você consegue realizar ambas tarefas, está num bom caminho.

A psicanálise não se propõe a curar o sujeito, a noção de cura passa pelo o que cada um faz com seu sintoma, e a que ele (o sintoma) está respondendo. Entende-se aqui por sintoma como uma formação do inconsciente, também como resposta do sujeito aos discursos que circulam na sociedade.

No trabalho, os discursos circulam e estabelecem demandas, seja em uma empresa de TI, um grande banco, escritórios de advocacia, profissionais da saúde, autônomo, trabalho informal, subempregos, etc. 

Existem patologias que estão associadas especificamente ao campo do trabalho, como a  síndrome do impostor. O que de início já chama atenção, pois se trata de um recorte do sofrimento em um único aspecto da vida.

A partir da clínica, no que concerne ao mal-estar relacionado ao trabalho ou não, é possível recolher algumas falas que apontam para uma posição subjetiva de jamais estar em condições de satisfazer o que se espera do outro. Apontar isso e trabalhar com os ideais que o colocam em situação de impotência são possibilidades de direção do tratamento analítico.

Destaco dois aspectos que nos ajudam a pensar os sintomas. Pontuo como fatores internos e externos que podem ser vistos como mesmo lado de uma figura topológica (banda de Moebius).

De um lado temos o discurso que rege no mundo corporativo, das empresas que não deve ser desprezado e afeta trabalhadores. Demandas da empresa que giram em torno de produtividade, números e claro, retorno financeiro que o funcionário oferece a empresa. A pressão para atingir metas, ou apresentar um projeto relevante representam demandas que tem efeitos diversos em cada um. 

No entanto, os discursos reproduzidos no trabalho (como o do capitalista proposto por Lacan - Seminário XVII) produzem sintomas já até bem “aceitos” socialmente, servindo bem à lógica do mercado e das empresas, como a pessoa que se diz workaholic (termo em inglês para "trabalhar em excesso"). Além disso, a diminuição dos direitos trabalhistas, também produz sofrimento, que com um traço perverso dificulta ainda mais a vida do trabalhador.

Por outro lado é importante articular tais demandas, por vezes excessivas, com o que cada um  faz diante disso ou como lida. Assim, destaco aqui três aspectos associados ao sofrimento que merecem atenção na clínica:

  • Ideal: um ideal que vira a única possibilidade de ser bem sucedido, acompanhado do pensamento: se eu não sou o que eu gostaria de ser, eu sou nada. 

  • O lugar que se ocupa na relação com o Outro: o outro pode ser excessivo nas demandas ou ainda, impossível de satisfazer. São acompanhados da ideia: O que estão esperando de mim?; O que acham do meu trabalho?; “Eu não sou tudo isso que pensam que sou”; Lacan no Seminário X fala da angústia produzida quando alguém fica no lugar de objeto de gozo do outro;

  • A repetição e sofrimento: Repetimos no significante aquilo que gera sofrimento. É preciso que alguém (um analista) escute a repetição e opere como causa do desejo.

Com todos os aspectos levados em conta, considerando o mal estar e a forma como cada um lida referente a posição subjetiva frente as demandas sociais e no trabalho, a saúde mental pode (e deve) ser pensada para além da ideia de ausência de patologia. Canguilhem em O normal e o patológico (1943/1995) nos adverte que o patológico não possui uma existência em si, podendo apenas ser concebido numa relação, num contexto social.

Quando procurar ajuda? Quando houver sofrimento. 

Notas

(1) DSM-5 - Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais» de American Psychiatric Association.

Referências 

CANGUILHEM,G. (1943/1995) O normal e o patológico, trad. Maria Thereza Redig de Carvalho Barrocas e Luiz Octavio Ferreira Barreto Leite. – 4a. Ed.- Rio de Janeiro, Forense Universitária.

FREUD, S. (1917) Conferências introdutórias sobre psicanálise. Obras completas, ESB, v. XVIII. Rio de Janeiro: Imago.

________. (1930) ”Mal estar na civilização", Obras completas, ESB, v. XXI, p.65-148.   

LACAN, J. - Seminário X - A Angústia (1962-63), documento de circulação interna do Centro de Estudos Freudianos de Recife.

________. (1991[1969-1970]). O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

QUINET, A. (1991) As 4+1 condições da análise. 13. reimpr. Rio de Janeiro: Zahar.