A Educação, os laços e a Psicanálise

 Por Carolina Escobar

 

Há algumas semanas alguns de meus colegas do ensino fundamental criaram um grupo virtual na tentativa de nos reunir 16 anos depois. Emoções, lembranças e constrangimentos à parte (rs), foi uma situação que me fez pensar que a escola é um dos lugares mais importantes para a construção de laços – com os colegas, com a cultura, com o que o cerca. É também lugar de vivenciar desencontros e dificuldades, que são tão importantes quantos os laços formados.  

As queixas escolares são frequentes demandas para os psicanalistas, mas confesso que tenho especial atenção àquelas que têm a ver com a aquisição da leitura e escrita. Há algo na queixa dessas crianças e adolescentes que intriga os familiares, os educadores e até eles mesmos. Alguns apresentam questões que se cronificam de tal forma que se tornam marcas determinantes na maneira que a criança estabelece relações com toda sua vida. 

Como o mundo se torna grande e incrível quando passamos a olhar as grafias  que o compõe e lê-las! Compreender a mensagem talhada no papel transforma todas as coisas. E ser capaz de talhar algumas também, deixar marcas, comunicar-se, então? Quanta potência! Quais os efeitos subjetivos nas dificuldades de adquiri-la?

Recentemente retornei à textos freudianos que há muito não tinha contato. Mais uma vez me surpreendi com a atualidade e, principalmente, com a radicalidade do pensamento que Sigmund Freud construiu e nos presenteou. Apesar de não ser o único momento em que ele levanta questões para pensar a relação da psicanálise com a educação, é em texto que encontro elementos que me fizeram pensar. 

Em os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) – um dos meus textos favoritos de Freud – encontramos uma das contribuições freudianas mais marcantes: a sexualidade começa na infância. Com esta afirmação, Freud desloca a questão da sexualidade da noção biológica ligada à reprodução, ideia vigente até então. Para ele sexualidade não se resume ao sexo (ato sexual). 

Sexualidade é o que coloca duas pessoas em relação, que possibilita a criação de laços e vínculos que nos diferenciam dos animais.

Tais vínculos são criados pelo corpo, mais especificamente por alguns pedaços dele; aqueles que também possibilitam uma demarcação de dentro e fora para nós mesmos: a boca (por onde nos alimentamos e exploramos o mundo desde muito pequenos), o ânus (lugar de nosso corpo que expele restos que podem ser presentes – “olha o que eu fiz mamãe! Dá tchau para ele!”), os genitais (que, em algum momento, compreendemos ser marcados por representações culturais que nos interrogam sobre o que somos/desejamos ser); e também o olhar (como o que dará notícias do interesse e/ou do desagrado de quem nos relacionamos). Ou seja, as relações se apoiam no corpo (pulsional) para serem estabelecidas.

Mas o que isso teria a ver com a educação e , mais especificamente, com a aquisição da leitura e escrita? 

Me lembro do caso de um pessoa no início da adolescência que, até então, não sabia ler nem escrever. Chega até mim com o encaminhamento de seu médico quando nenhum exame (da bateria realizada) apresentava resultados que justificassem a não apreensão da leitura e escrita. Não parecia um adolescente, mas sim uma pessoa muito mais jovem; em dias de muito calor, a mudança hormonal se fazia presente nos cheiros que invadiam a sala de atendimento sem que, aparentemente, percebesse. Em uma das sessões diz “Se conseguir ler e escrever, vou crescer. Como olhariam para mim? Como eu olharia para mim?”.

Ou então quando outra pessoa contava, muito angustiada, do medo que estava sentindo em não passar em uma prova muito importante em sua vida e se recorda de ter sido a única pessoa de sua classe que demorou para ser alfabetizada; “Lembro que sentia tanto medo de não conseguir aprender que evitava ao máximo chegar perto de um lápis; dizia para meus pais que não esperassem isso de mim, apesar de que acho que o que eu queria mesmo era que gostassem de mim apesar daquela merda toda”. 

Nestes fragmentos (e em tantos outros), a aquisição da leitura e escrita representa algo no laço com o outro e é esta uma das contribuições dos psicanalistas no que tange à estas queixas. Freud já dizia “Nós (…) temos todos os motivos para dedicar interesse a esses fenômenos temidos pelos educadores, pois deles esperamos obter esclarecimentos sobre a configuração original da pulsão sexual” (1905, p.82).

Bem, de volta ao (re)encontro com o ensino fundamental: mal posso esperar!