Sobre a formação do analista


Por Maiara Marques


“A psicanálise se transmite de duas maneiras, em dois lugares diferentes: de um lado, na experiência dessa prática que é a relação entre um analista e um analisando; de outro, em sua presença na vida pública segundo estas três modalidades: a teoria, as instituições ditas psicanalíticas e as relações que os psicanalistas mantêm com a sociedade civil em que vivem. Um dentro e um fora”.

Philippe Julien

Escolho compartilhar com vocês, em meu primeiro texto da coluna, a reflexão que faço e, pela qual sou afetada, sobre a formação do psicanalista. O tema me desperta interesse, pois estou enviesada por esse percurso de formação.

Uma das coisas que sou mais questionada quando menciono que faço formação em Psicanálise é como funciona e quanto tempo dura essa formação. Geralmente começo expondo que esta é proposta por Freud (1919) enquanto tripé: análise pessoal, estudo da teoria psicanalítica e supervisão da clínica do analista em formação, sob a orientação dos psicanalistas mais reconhecidos. Continuo explicando que o tempo dessa formação é permanente, e que o processo de se autorizar analista obedece a um tempo subjetivo e que passa, como nos orienta Freud em “A questão da análise leiga” (1926), pela análise pessoal e não só pela teoria.

Apresento ainda que Lacan, na Proposição de 9 de julho de 1967 sobre o psicanalista da Escola, traz o pensamento que “o analista se autoriza por si mesmo e por alguns outros”. Esse processo também é amparado por uma instituiçãode formação, dispositivo onde um saber não-todo é compartilhado e onde se dá a transmissão de Psicanálise. Quase que imediatamente noto a expressão de estranhamento e inquietação em quem me ouve. Observo que a proposta da Psicanálise vai de encontro aos ditames sociais de obediência ao tempo e à necessidade imediatista de titulação. A formação é subversiva, marcada não por regras regulamentadoras, mas por uma ética própria da Psicanálise, a ética da escuta ao sujeito do inconsciente.

Para pensar a formação do analista recorri a algumas leituras, dentre elas: “A questão da análise leiga” (1926), “Deve-se ensinar a psicanálise nas universidades?” (1919), “Análise terminável e interminável” (1937) e às contribuições de outros colegas psicanalistas na obra “Lacan e a formação do psicanalista” (2006). A partir dessas, fui instigada a pensar a formação do analista a partir da ética psicanalítica e não de uma regulamentação, bem como que a formação não está relacionada ao ensino nas universidades, cursos de especialização ou mestrados.

Em “Ofício do psicanalista: formação vs. Regulamentação” Albertini (2009) conduz um levantamento histórico e uma discussão acerca das diversas tentativas de regulamentação da prática psicanalítica, assim como as divergências entre as escolas e instituições de formação. Observo que nem a própria Psicanálise fugiu de suas teorizações: ela não é do lugar das certezas e nos convoca a discussões permanentes sobre “como se forma um analista”.

Atualmente, algumas correntes da Psicanálise tem pensado a formação do analista por outras vias, a partir da teorização lacaniana, apontando para a articulação da clínica, escrita e da transmissão. Como possibilidade de aprofundamento dessa outra proposta de formação aponto a leitura do recém lançado livro "O psicanalista: na instituição, na clínica, no laço social, na arte - volume 2” organizado pela Michele Roman Faria.

As reflexões me conduzem a pensar que a escuta para a qual o analista se prepara é a escuta da singularidade do sujeito e por não se submeter a critérios regulamentadores (como diplomas, conselhos ou registros de classe) não implica significar que não haja rigor em sua prática. Há rigor no processo de formação do analista, atendendo ao compromisso ético com a palavra a ser trabalhada em associação livre e ao tripé da formação, assim como no compromisso de que esta formação seja permanente, não podendo esta estar dissociada dos processos socioculturais aos quais o analista está submetido.

Pensar a formação do analista a partir da ética da Psicanálise é assumir um compromisso com o “não-saber” como possibilidade de se produzir um saber, dando lugar à subjetividade e emergência do saber inconsciente. Novamente a formação do analista assume seu papel subversivo transitando nos discursos* enquanto transmissão e efeitos de formação.

Reflito também que o desafio de escrever e a proposta de transmitir a Psicanálise também fazem efeitos de formação. Se autorizar falar em nome próprio, criando sua própria articulação significante e a implicação com os efeitos que a palavra produz não teria um viés analítico?

Por fim, noto a importância de todo esse percurso, sobretudo ao destaque dado por Freud e Lacan à análise pessoal na formação. É na análise pessoal, no um a um que há transmissão da Psicanálise e nessa experiência singular se vê a possibilidade de produção de um psicanalista.

*Nota: articulação trazida por Lacan no Seminário 17 “O avesso da Psicanálise”, onde este nos apresenta as formas de laço social entre os sujeitos a partir da definição de quatro discursos: do mestre, universitário, da histérica e do analista. Os laços sociais são construídos e estruturados pela linguagem e, em Lacan, são articulados enquanto discursos. Lacan nesse seminário também nos convida pensar a experiência analítica como experiência de discurso.

Referências:

ALBERTI, S.; LOPES, A.; LANNES, E.; ROCHA, E.; AMENDOEIRA, W. (org). Ofício do psicanalista: formação vs. Regulamentação. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.

FREUD, S. (1919). Deve-se ensinar a psicanálise nas universidades? (Sigmund Freud Obras Completas, Paulo César de Souza, Trad., vol. 14, 1917-1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

_________ (1926). A questão da análise leiga: diálogo com um interlocutor imparcial (Sigmund Freud Obras Completas, Paulo César de Souza, Trad., vol. 17, 1926-1929). São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

_________ (1937). Análise terminável e interminável. (Sigmund Freud Obras Completas, Paulo César de Souza, Trad., vol. 19, 1937-1939). São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

JORGE, M. A. C. (org). Lacan e a formação do psicanalista. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2006.

LACAN, J. (1967) Proposição de 9 de julho de 1967 sobre o psicanalista da Escola. Em: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 2003.