Por Márcio Sallem - Crítico de cinema

O que você pensa sobre cinema?

 

Márcio Sallem é Crítico de Cinema, editor do site Cinema com Crítica (   www.cinemacomcritica.com.br    / @cinemacomcritica no instagram), e amante desta arte desde de suas primeiras lembranças.

Márcio Sallem é Crítico de Cinema, editor do site Cinema com Crítica (www.cinemacomcritica.com.br / @cinemacomcritica no instagram), e amante desta arte desde de suas primeiras lembranças.

Antes de discutir cinema, preciso refletir sobre meu sentimento com relação à arte. Aposto no chavão que relaciona a arte à vida, esta não como sinonímia de existência, e sim de atuação e modificação do mundo ao redor, para chegar à conclusão de que aquela, de modo geral, nasce da profunda inquietação do ser humano consigo próprio e com o entorno. A arte, então, é resultado de tribulações, desencadeadas por questões socioeconômicas, históricas ou políticas, interpessoais ou intrapessoais, que promove a reflexão a partir de seu conteúdo e sua estética. O cinema não é diferente. 

Das artes estabelecidas no Manifesto das Sete Artes de Ricciotto Canudo, é a caçula e também a mais plural. Digo isto sem a pretensão de menosprezar as demais, mas de enaltecê-las. Até porque o cinema não tem a pureza primordial das antecessoras; é produto da miscigenação, uma amálgama com as impressões digitais da literatura (o roteiro), da música (a trilha sonora e o som), da pintura (a fotografia), da arquitetura (o design de produção), das artes cênicas (a movimentação) e da pintura (fotografia). Nesse sentido, o cinema é, desde sua gênese conceitual, uma ferramenta artística apta a representar a diversidade humana do mundo em que vivemos, assim como suas contradições e suas incongruências. 

Assim, uma das facetas da arte cinematográfica é a de proporcionar o debate de temas atemporais, que povoam o imaginário popular, ou problemáticas contemporâneas, que preenchem a grade dos telejornais, no formato de narrativa, mais acessível ao espectador. Quantos de nós aprendemos sobre as guerras mundiais ou as incursões norte-americanas em países estrangeiros a partir do olhar crítico e reflexivo das lentes cinematográficas? Quantos não descobriram meios de tatear e aceitar questões existenciais e tecnocêntricas estimulados por ficções científicas, fantasias ou terrores, cujo sucesso depende da habilidade em costurar metáforas e humanidade na embalagem do extraordinário? É, em verdade, um instrumento para expandir a inteligência do espectador sobre determinada matéria, sem exauri-la, até por representar o ponto de vista do autor (em geral, o diretor, embora este não detenha sua titularidade exclusiva) sobre determinado ponto, contra o qual, frise-se, temos a ampla liberdade de manifestar nosso inconformismo. 

Em sendo assim, o cinema estimula o espectador a admitir opiniões divergentes e a desenvolver a empatia diante dos dramas retratados. Isto porque a arte acolhe, de braços abertos, histórias acerca de temas que a sociedade e seus representantes consideram tabus e, logo, rejeitam, contaminados, muitas vezes, por julgamentos prévios e preconceitos, tais como aborto, a interrupção terapêutica da vida, a igualdade de direitos, a crise dos refugiados, a falência do capitalismo rentista e neoliberal e outros. O leque de tópicos limita-se somente à imaginação e ao que a realidade proporciona como inspiração ao oleiro responsável por moldar a obra cinematográfica, que assume, ao longo do tempo, como toda forma de arte, novas interpretações e oferecendo reflexões mais superlativas. 

Isso sem tergiversar da vocação cinematográfica de ser a porta de entrada para que todo espectador possa acessar o mundo artístico, mesmo que a narrativa em questão não provoque tantas discussões, porém apenas proporcione duas horas de entretenimento passageiro. O escapismo, a propósito, está inserido no arcabouço cinematográfico como peça fundamental para que haja a apropriada imersão na narrativa, e, neste sentido, o ambiente do cinema é o lugar mais apropriado para transportar um espectador fora do mundo real. A escuridão e o silêncio são substituídos pela imagem dominante e pervasiva, que nasce detrás de nós e sobre a qual não temos controle nem opção senão sucumbir ao contrato tácito que o espectador assina com o realizado quando adquire o ingresso. Ora, dadas tais características de exibição, o cinema assemelha-se a uma espécie de hipnose coletiva, em que cada espectador é convidado a visitar as memórias e o subconsciente de personagens imaginários. 

Ante isso, penso que o cinema pode ser descrito como a arte da empatia e da convivência, ainda que temporária, entre o espectador, o autor da obra, os personagens e o contexto narrativo, capacitando aquele a reentrar na sociedade mais apto a entender o entorno em que habita e o seres humanos com que se relaciona.