Por Diego Penha - Psicanalista

Psicanalista. Doutorando em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Membro do Grupo de pesquisa CNPq Sujeito, sociedade e política em psicanálise (USP) e do Laboratório Psicanálise Política e Sociedade (PSOPOL). Atualmente pesquisa as relações entre Psicanálise, Política, Arte e Horror. Autor do livro: "Teorias de Freud: Descobrindo o Inconsciente". Editor da revista digital Lacuna: uma revista de psicanálise ( lacunarevista.com ). Colunista de cinema e quadrinhos para o site Mob Ground ( mobground.net ). 

Psicanalista. Doutorando em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Membro do Grupo de pesquisa CNPq Sujeito, sociedade e política em psicanálise (USP) e do Laboratório Psicanálise Política e Sociedade (PSOPOL). Atualmente pesquisa as relações entre Psicanálise, Política, Arte e Horror. Autor do livro: "Teorias de Freud: Descobrindo o Inconsciente". Editor da revista digital Lacuna: uma revista de psicanálise (lacunarevista.com). Colunista de cinema e quadrinhos para o site Mob Ground (mobground.net). 

Uma das primeiras coisas que me vem à cabeça quando penso em cinema são os finais de semana que passei junto à minha avó durante minha infância e adolescência. Depois que ela me buscava em casa, passávamos religiosamente em uma das agora extintas “locadoras de filmes” e escolhíamos três filmes cada, um para sexta, outro para o sábado e um para o domingo. Obviamente, assistia os meus três na sexta-feira e aproveitava sábado e domingo para assistir os filmes que ela havia escolhido. Assim como ocorreu comigo, suponho que para muitos que viveram a virada do século e principalmente os anos 1990, o cinema e os filmes faziam parte de um circuito afetivo do cotidiano. Filmes lembram minha avó, assim como cocada lembram minha outra avó. Esse laço afetivo com cinema, mediado pela conexão com minha avó, ao passar dos anos deslocou-se para primos, namorada e com o tempo foi-se deslocando para outras pessoas e atividades. Mesmo que esse tipo de laço com o cinema pareça cada vez mais incomum, não acredito que tenha desparecido completamente, assim como não acho que ela foi exclusiva dessa geração. 

A psicanalista Felícia Knobloch (1) certa vez narrou a história de uma mulher polonesa que lhe contava sobre sua experiência de trabalho forçado em um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Ela lembrava de passar os dias na plantação de beterraba com o primo, enquanto este lhe descrevia as histórias dos filmes que havia assistido no cinema antes de estourar a guerra. Tal foi o efeito dessas conversas, que quando a garota polonesa se refugiou no Brasil seis anos depois, uma das primeiras coisas que quis fazer foi entrar em uma sala de cinema e ver todos os filmes em cartaz. Acho que essa história toca o ponto nevrálgico do que entendo por cinema, pois nela, pouco importa quais foram os filmes assistidos pelo primo ou pela garota polonesa. O que importa é a presença de certa “experiência do cinema”.

O que chamo aqui de “experiência” do cinema está relacionado à ideia de transmissão, assim como a de repetição e reprodução. Para exemplificar, retomo outra lembrança de minha infância. Certa vez, sentado nas escadarias da escola, comecei a ouvir a conversa entre dois garotos sentados ao lado. Um contava ao outro sobre o filme que havia assistido na noite anterior: O brinquedo assassino. O ouvinte e eu não havíamos visto o filme, principalmente por que para mim, somente a ideia de conceber a existência imaginária de um “Chucky” já era insuportavelmente apavorante. Lembro desta tarde como se tivesse “assistido” o filme através das palavras deste garoto que nem conhecia. Ouvia sua história de terror, como se estivéssemos sentados ao redor de uma fogueira. O cinema é herdeiro da fogueira.

No geral, contar histórias é o que o cinema faz. Claro que existem filmes e cineastas que se esforçam para romper com isso, mas por algum motivo o cinema como conhecemos apenas sobrevive e se expande devido à narrativa hegemônica. Mesmo que se experimente e que se alcance uma nova subversão técnica e formal que mude os paradigmas do que conhecemos como arte cinematográfica, o ato de contar histórias marcou a história do cinema e o transformou em uma forma de entretenimento que está especificamente relacionada à esse ato. 

Recentemente, invertemos um tanto essa relação com a potencialidade do cinema. A própria ideia de spoiler denuncia essa inversão. Subitamente, passamos a acreditar que exista certa experiência no ato de assistir um filme pela primeira vez, que pode ser completamente arruinado se soubermos de determinado acontecimento do enredo. Há vinte anos atrás Titanic chegava aos cinemas. Tenho a lembrança de ter ido vê-lo no cinema onze vezes até sair de cartaz, mesmo sabendo que Jack morreria congelado no final (chegava até a torcer para que magicamente ele sobrevivesse). Saber o fim do filme, não mudava minha experiência em nada. Acho que é um pouco disso que escapa às pessoas quando leem as ideias de Walter Benjamin (2) sobre o tema: cinema é repetição. Isso faz de um filme algo que não busca ser tão facilmente descartado, ou seja, a reprodutibilidade técnica é também uma estratégia que a arte encontra para sobreviver no capitalismo – o que não deixa de ser paradoxal com a própria ideia de indústria cultural.

Os filmes que aluguei durante os anos com a minha avó não importam, muito menos quais fui ver no cinema com meus primos ao longo da minha adolescência. Assistir filmes e ir ao cinema era uma coisa que gostávamos de fazer juntos e simplesmente fazíamos. Claro que lembro especificamente de alguns filmes que me marcaram, mas posso revê-los a qualquer momento. Entretanto, a memória de deitar no chão ao pé do sofá com meus primos para ver um filme durante as férias, as conversas com determinados amigos na saída do cinema, ou os argumentos que eu inventava para justificar à minha avó porque deveríamos alugar determinado filme, são experiências que não voltam mais.

A psicanálise parece sempre ter o que dizer sobre o que representa determinado personagem ou determinada cena, o que desloca o que e quem está condensado em quem. Gostaria que falássemos mais sobre os filmes que nos emocionam e não entendemos o porquê. Em geral, as teorias psicanalíticas e cinematográficas parecem dar conta de muitos aspectos do cinema, mas pouco tem se importado com o fato de que podemos odiar determinada película, acha-la de fato ruim e ainda assim nunca esquecer uma cena, uma trilha sonora, ou uma fala que nos toca nos mais profundos afetos trazendo-os à tona. Recentemente, a cena final de La la land teve esse efeito. Aquele de nó na garganta. Assim como quando em Cinema Paradiso, Alfredo e Toto projetam um filme nos muros da rua para as pessoas que ficaram de fora do cinema. O mesmo acontece com o final e outras cenas de Rebobine, por favor. Não são exatamente meus filmes favoritos, mas me fazem acreditar no impossível.    

 

(1)  KNOBLOCH, Felicia. L’expérience morcellaire et celle de la rupture dans les situations traumatiques. In: Colloque Aix-Marseille Université: Traumatisme et Transmissions: Violence de Guerre, Urbaine et dans la Culture, 2015, Marselha. Conferência. 

 (2) BENJAMIN, Walter. (1989[1936]). A obra de arte na época de seu reprodutibilidade técnica. Porto Alegre: Zouk, 2014. 127 p. Tradução de Francisco De Ambrosis.

 

Diego Amaral Penha