Por Francisco Capoulade - Diretor

O que você pensa sobre o cinema?

Psicanalista e documentarista. Doutor em psicologia pela UFSCar e em psicanálise pela Universidade Paris VII. Mestre em Psicologia e  Bacharel em Filosofia, ambos pela PUC-Campinas. Coordenador do curso de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica pela UniFAJ. Membro da Associação Campinense de Psicanálise (ACP). Diretor, roteirista e montador do filme Hestórias da Psicanálise - Leitores de Freud (2016). Diretor do filme curta metragem Apuê (2012) e Produtor do filme documentário No Gargalo do Samba (2017). Atualmente, trabalha na pré-produção da continuação do "Hestórias da Psicanálise" e na produção do projeto "Pai nosso de cada dia".

Psicanalista e documentarista. Doutor em psicologia pela UFSCar e em psicanálise pela Universidade Paris VII. Mestre em Psicologia e  Bacharel em Filosofia, ambos pela PUC-Campinas. Coordenador do curso de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica pela UniFAJ. Membro da Associação Campinense de Psicanálise (ACP). Diretor, roteirista e montador do filme Hestórias da Psicanálise - Leitores de Freud (2016). Diretor do filme curta metragem Apuê (2012) e Produtor do filme documentário No Gargalo do Samba (2017). Atualmente, trabalha na pré-produção da continuação do "Hestórias da Psicanálise" e na produção do projeto "Pai nosso de cada dia".

Recentemente, assisti ao filme Juste la fin du monde (2016) de Xavier Dolan. Assisti por indicação de uma amiga. Não teria sido, na verdade, uma indicação, mas os efeitos que o filme provocou nela me despertaram interesse. A forma como ela falava do filme e a admiração pelo trabalho do diretor me fizeram ir em busca de assisti-lo. 

O filme é baseado na peça de teatro homônima de Jean-Luc Lagarde (1990) que conta a história de Louis, 34 anos, que retorna a sua cidade natal, após 12 anos de ausência, planejando contar para sua família que está doente de morte. Na adaptação de Dolan, Louis (interpretado por Gaspar Ulliel) é um homem introspectivo e contemplativo. Seu silêncio e sua aparente apatia são marcas indeléveis do personagem, porém, o que mais se destaca na trama é sua hesitação constante. O filme contém traços de mitos como Caim e Abel, Odisseia de Homero e até mesmo a parábola do filho pródigo. Isso funciona muito bem na história contada pelo diretor canadense. Por outro lado, Dolan foge da ideia de forjar uma história baseada na jornada do herói. Louis está morrendo e não há nada a ser feito. Não se encontrará lá nem uma revelação messiânica nem miraculosa. É nesse contexto que ele faz emergir os conflitos familiares, principalmente com o irmão mais velho Antoine (interpretado por Vincent Cassel), ponto forte do filme. A cena do carro é impressionante.

Como se trata de uma adaptação para cinema, o diretor possui outros instrumentos para atingir o espectador, não conta apenas com a interpretação dos atores. Conta também com câmeras, lentes, iluminação, som, trilhas, montagem, etc.. Daí, toda essa provocação que Dolan nos faz está bem visível em sua linguagem cinematográfica. Os planos assumidos em campo-contracampo deixando muitas vezes os rastros dos objetos pelo caminho, como que entrecortando o espaço, a câmera na mão tremendo mais do que o necessário, a lentidão de planos em travelling são técnicas que o permitem construir uma linguagem cinematográfica que provoca o espectador. Tais técnicas podem ser vista e são reconhecidas nos trabalhos de Lars von Trier e Terrence Malick, por exemplo. Porém, cada um se utiliza disso de modo bem peculiar. Dolan exagera e isso pode produzir uma certa inquietação ou mesmo irritação. Podemos discutir se a linguagem utilizada por ele funciona bem ou não, e até mesmo se agrada. No entanto, há que se reconhecer que ele produz uma obra cinematográfica.

Kiarostami disse, em algum lugar, que um filme é 50% da cabeça do diretor e os outros 50% do espectador. Eu não me atreveria a dizer que esse cálculo está correto, mas prefiro imaginar que um diretor pensa o filme, pensa nos efeitos que o filme pode provocar no espectador. Mesmo nos filme de puro entretenimento, os efeitos são calculados. Quem tiver curiosidade é só ler o trabalho de Christopher Vogler, a jornada do escritor. No caso dos filmes chamados de arte o cálculo é outro pois se quer atingir outro registro. 

De alguma maneira, podemos incluir Lacan aqui. Em seus seminários, Lacan pensava nos efeitos de sua fala no público que o seguia. Mais do que construir uma teoria repleta de conceitos rígidos, ele pretendia movimentar uma outra forma de pensar. Ele queria acessar o inconsciente. Então, seus seminários eram antes uma experiência do pensar psicanalítico do que a exposição de teoremas e conceitos.  

A experiência cinematográfica, guardada a devida proporção, é uma experiência de um outro pensar. Na cena não há apenas a cena, mas há a outra cena também. Acredito que seja isso que João Moreira Salles diz em seu filme No intenso agora (2017): “nem sempre a gente sabe o que está filmando”. Ele diz isso quando toma a imagem de uma menina que começa a dar seus primeiros passos e toda a família participa, no entanto, a babá, que a ajuda no começo, retira-se de cena no momento em que a menina engata a caminhada. Provavelmente não tenha sido isso que se queria filmar, mas essa outra cena está lá. Evidentemente esse exemplo parece mais claro quando tratamos dos filmes documentários. Todavia, se olharmos com atenção isso está sempre presente na obra cinematográfica, ou pelo menos deveria, já que se trata de outro cálculo. É esse cálculo que se abre a outra cena que está na cabeça dos cineastas. 

Por fim, voltando ao filme de Dolan, lembro-me do que Zizek disse a respeito da experiência que se dá na sala de cinema. Nunca é só prazer. O cinema também deve provocar angústia, também deve tocar nas coisas mais repulsivas de nós mesmos. Deve nos afetar com sua linguagem: imagem, som e palavra. O cinema é arte.

Isso é o que eu penso hoje sobre o cinema.