Entre-vistas com Vera Iaconelli

Apresentamos aos nossos leitores a entrevista realizada com a psicanalista Vera Iaconelli. Todas as respostas foram transcritas de audios enviados pela nossa convidada. Dessa forma, mantivemos o estilo informal comum à fala oral.  

A seção "ENTRE-VISTAS"  do site Escutatório consiste em perguntas feitas aos profissionais que apresentam um percurso pela psicanálise e, através de seus posicionamentos acerca de questões atuais, nos convidam a refletir e a (des)construir saberes. Lembramos que as respostas se referem ao modo de pensar do convidado sobre o tema proposto por nós. 

Esperamos que as "entre-vistas" aqui publicadas possam inspirar e suscitar questões para além das que foram colocadas ao nossos convidados. Agradecemos a Vera pela disponibilidade e generosidade em participar deste projeto.  

Boa leitura a todos! 


Vera Iaconelli é psicóloga e psicanalista. Atende em clínica particular jovens e adultos. Colunista do jornal Folha de São Paulo. Mestre e Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, Membro da Escola do Fórum do Campo Lacaniano SP, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Professora convidada do setor de Especialização em Psicologia Hospitalar da Maternidade São Luiz, Professora convidada do setor de Psicologia do Hospital do Coração, Conselheira Técnica da Associação de Doulas de São Paulo ADOSP, Diretora e professora no Instituto Gerar. 

Vera Iaconelli é psicóloga e psicanalista. Atende em clínica particular jovens e adultos. Colunista do jornal Folha de São Paulo. Mestre e Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, Membro da Escola do Fórum do Campo Lacaniano SP, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Professora convidada do setor de Especialização em Psicologia Hospitalar da Maternidade São Luiz, Professora convidada do setor de Psicologia do Hospital do Coração, Conselheira Técnica da Associação de Doulas de São Paulo ADOSP, Diretora e professora no Instituto Gerar. 

Escutatório: Como foi seu encontro com a Psicanálise?

Vera Iaconelli: A minha escolha pela psicanálise passa pelo sofrimento pessoal. Busquei psicoterapia na adolescência, passei por várias abordagens, até que eu encontro no setting analítico o que é essa experiência psicanalítica; me encanto e percebo os efeitos sobre mim. Na época, já era psicóloga e começo a fazer toda uma guinada a partir da minha experiência como analisante. 

 

Escutatório: Recentemente você se tornou colunista do jornal Folha de São Paulo e, desde então, tem escrito sobre sua linha de pesquisa tendo como referencial teórico a psicanálise tal como proposta por Jacques Lacan. Como você entende a inserção e o papel do psicanalista na mídia jornalística?

Vera Iaconelli: Sou uma psicanalista que foi convidada para ser colunista; mas não sou jornalista como às vezes as pessoas me chamam. Seria absolutamente incorreto. Não tenho formação como jornalista e nem escrevo deste lugar. Tem a ver com uma aspiração pessoal que sempre tive na minha carreira: a de me comunicar com os pais, com os leigos, com os profissionais de outras áreas, médicos. Enfim, sempre me interessou muito que a psicanálise não ficasse entre muros. Que a gente pudesse transmiti-la no público, falar de coisas que tocam o humano em qualquer circunstância e que dizem respeito a todos nós. É claro que, a gente como psicanalista, tem jargões, tem uma linguagem própria, por vezes bem hermética, mas como sujeitos, tentamos nomear uma experiência que todos temos em algum nível. Então, isso sempre me interessou e a Folha acabou sendo um lugar onde adquiriu um alcance muito maior... escrito. Isso me encanta muito.

 

Escutatório: O tema da perinatalidade e parentalidade está sempre presente nos cursos oferecidos pelo Instituto Gerar. Para você, qual a importância de se discutir nos cursos de psicanálise estes temas? 

Vera Iaconelli: O Instituto Gerar começa com questões da Psicanálise, da perinatalidade e da parentalidade e vem ao longo desses vinte anos fazendo esse percurso. Só que esses temas são muito amplos. A Psicanálise é um tema amplo e a perinatalidade também; porque há as adoções, os lutos perinatais, a questão da misogenia, e das identidades de gênero, as questões de políticas públicas de saúde, de instituição. É amplo e estamos fazendo parcerias cada vez mais interessantes com instituições que às vezes não trabalham especificamente com isso, mas que trazem um diálogo que nos encanta e faz a gente crescer muito. 

Sobre a parentalidade, mesmo que você não tenha tido filhos, você é filho de alguém. As análises sempre vão tocar e circundar o tema da origem e do fim. Não tem análise que não passe por essas questões. Então, a parentalidade acaba sendo um lugar em que isso está previlegiado. 

É lógico que não existe, de forma alguma, na psicanálise, espaço para pensar uma especialização. O psicanalista especializado em perinatalidade e parentalidade é uma bobagem. Não é disso que se trata. A gente tem o referencial psicanalítico que é um campo de tratamento e de pesquisa sobre a questão do sujeito, de intervenção, mas temos campos de fenômenos. A perinatalidade e a parentalidade encerram fenômenos. Estudamos o campo de fenômenos sem supor que existiria um sujeito que poderia ser predicado a partir do campo. Sujeito drogadito... não existe isso; existe o sujeito, ponto. Em sua singularidade, atravessado pelas questões culturais...mas existem campos de fenômenos em que a gente tem que saber o que se passa, até para poder estar mais aberto para o que vem do sujeito.

 

Escutatório: Quando os pais de crianças pequenas devem procurar um psicanalista?

Vera Iaconelli: Quando houver sofrimento dos pais e/ou da criança. Um bom psicanalista não começa uma análise prontamente. Primeiro ele fará as entrevistas iniciais, se ele achar que não é o dispositivo analítico que cabe para aquele sofrimento poderá, perfeitamente, encaminhar para outro profissional; ou simplesmente, durante as entrevistas, fazer com que os pais se deem conta disso. Começar uma análise para uma criança é um processo que pode ser muito surpreendente. Tem situações em que você não passa das entrevistas iniciais e os pais já vão - eles próprios - buscar sua análise ou fazer terapia de casal. Nas primeiras consultas pode ocorrer efeitos analíticos e terapêuticos que mudam um processo e criam uma nova demanda. O sofrimento na forma do enigma do sintoma é o que será o norte para os psicanalistas.

 

Escutatório: Qual a importância da escuta de gestantes através da clínica social de atendimento do Instituto Gerar?

Vera Iaconelli: Coordenamos uma clínica social que atende sujeitos em situações diversas. Temos pesquisas que se debruçam sobre o entendimento desse campo que passa pelo ciclo gravídico e puerperal, mas também pelo campo das adoções e das perdas puerperais.

Quando oferecemos esse tipo de atendimento descobrimos, a partir do estudo desse campo, a presença da pobreza do apoio social para essa população. As mulheres são o final da cadeia alimentar; ou seja, elas vêm depois dos seus bebês, são tratadas com menos importância que os próprios filhos. A mulher negra e pobre então, nem se fala! Essas mulheres muitas vezes estão numa tarefa hercúlea de criar uma criança numa situação péssima e no Instituto Gerar criamos um espaço para escutá-las; mulheres e homens que estão lidando com a tarefa imensa da perinatalidade e, também, nos casos de adoção.

Nesse processo, vamos descobrindo a falta de assistência e, ao mesmo tempo, grande exigência de que essas pessoas estariam, ou deveriam, estar aptas a cuidar de um outro numa condição de muita precariedade.  Tem todo o discurso de construção de vínculo... Nós, do Instituto Gerar, entendemos que a formação de vínculo é algo que pode acontecer ou não, mas as condições sociais devem ser dadas também para garantir que o sujeito possa se ocupar disso. Ocupar-se do vínculo sem se sentir ameaçado na sua integridade moral e física. É claro que existem pessoas em situação psíquica desfavorável para levar uma função parental adiante. Trabalhamos com todo esse campo também, mas é surpreendente como diante de uma situação tão complexa, no exercício da função parental, as pessoas são totalmente demandadas sem receber apoio.

É isso que o Instituto tenta oferecer. Além do apoio pontual a fulano e sicrano, a gente propõe a discussão desses temas e faz pesquisas para trazer a público o que a gente, enquanto sociedade e coletividade, têm feito com as mães e os pais: pessoas que se dispõem a criar outros humanos.