Memória do trauma

Por Carolina Escobar

Quando se chega ao Museo de la Memoria y los Derechos Humanos em Santiago, no Chile, ao lado da entrada principal há um painel feito de pedra com a seguinte inscrição: ¿Qué passa si olvido? (O que acontece se esqueço?).

Me lembro de pensar que provocativo um museu nomeado ‘da memória’ se apresentar com esta pergunta e passei pela porta da entrada assim, despretenciosa, sem imaginar a marca que essa experiência deixaria em mim.

Esse museu conta a história da mais longa e brutal ditadura da América Latina e podemos entrar na realidade chilena quando comandada por Pinochet. Destroços, cartas,  vídeos, áudios, testemunhos anunciavam a violência e a desubjetivação em sua forma mais cruel. Sala após sala, o horror.

A reação dos visitantes não passou desapercebido: interrupções da visita, choro, gargalhadas, gritos surpresos, abraços, toque humano. Me lembro de ouvir soluços altos em uma sala mais adiante e me perguntar se fazia parte de algum vídeo do recorrido do museu. Não fazia; bom, fazia e não fazia; afinal, os afetos e reações ao que estava sendo narrado ali também compunham a memória daquele acontecimento.

Apesar de acompanhada por náuseas e uma dor de cabeça insistente saí do museu com a forte sensação de ter sido transformada por aquela experiência. De volta a São Paulo, busco por textos sobre memoriais, assim como sobre a produção de memória cultural e histórica e chego em estudos psicanalíticos sobre produções testemunhais. A clínica do testemunho possibilita voz que àqueles que foram vítimas da violência provocada pelo Estado, quando este, por dever, teria que protegê-los.

Sem os testemunhos dos torturados, dos sobreviventes do holocausto, da comissão da verdade, estuprados, moradores de rua, pessoas escravizadas, dos imigrantese tantos outros que sofreram todos os tipos de violência; a humanidade perderia a dimensão das catástrofes políticas que quando não esvaziam a condição humana, a colocam em suspensão.

Nestes contextos, a escuta analítica está a serviço da produção de uma fala sobre o trauma e de (re)instaurar o direito à voz a quem lhe foi retirado.

Mas, de que forma? Por serem destituídas de um lugar de direitos e reconhecimento social, uma fala produzida por estas pessoas pode não ser ouvida ou entendida como linguagem. A aposta da clínica do testemunho é que será pelo intermédio da escuta analítica que uma fala pode ser transformada em transmissão, endereçamento, narrativa e, com isso, promover a restauração da dimensão humana àqueles que, pela violência do Estado, se encontram objetalizados e desubjetivados.

Ainda há muito o que ser compreendido sobre o trauma, sobre a própria clinica do testemunho, sobre a cultura como transmissão e sobre os efeitos desta escuta - tanto para quem é escutado; quanto para as gerações posteriores que tem acesso à produção testemunhal (memoriais, comissões da verdade, entrevistas, documentários, etc) - no entanto, desde já acredito ser possível dizer que ao promover condições para o (re)ingresso na linguagem, um psicanalista faz política.