Estrangeiros em Nova York

Por Mariana Anconi

 

Desde que mudei para Nova York sou atravessada por palavras, significantes e expressões deste território que, são transmitidas nas falas, nos discursos, nos gestos, nos atos, na política da cidade, nos museus e exibições, nos bares, na mídia, no papelão em que escrevem os homeless (sem teto), nos delírios e no "sonho americano".

Aquele que vem de fora pode apontar mais facilmente as loucuras e tentativas de se negar os furos em uma sociedade. Estar no lugar do estrangeiro significa ser atravessado pelo estranho que convoca ao novo, mas ao mesmo tempo, convoca ao movimento de retorno "as raízes", a "essência" e ao que uma vez já foi lar. Um retorno ao conhecido, ao nomeável, ao familiar. 

A cada encontro ou evento de Psicanálise que frequento retorno à época em que Freud foi estrangeiro nos EUA. A viagem que fez ao Novo Mundo começou em Nova York depois se estendeu por outras cidades. Como qualquer turista seguiu um roteiro básico com passeio ao Centra Park, almoço no terraço do Hammerstein, procurou pelas obras gregas no Museu Metropolitano (MET) e, pela primeira vez, assistiu a um filme no cinema. Porém, seu objetivo principal foi dissipar a peste por aqui. 

Na biografia escrita por Jones (1979) vemos um Freud incerto quanto ao que esperar dessa viagem. Depois de subir ao palanque na Clark University disse estar sonhando acordado ao ver o público presente para ouvir suas ideias. Não é à toa o uso da palavra "peste" para nomear o caráter subversivo desta que seria mais que um sistema de pensamento. Lá proferiu as famosas cinco conferências intituladas como "Cinco lições em Psicanálise " (1909).

Esta viagem teve importância com um caráter "oficial" do reconhecimento internacional da Psicanálise. Naquela época, as distâncias eram concretas e, ter sua obra divulgada em outro continente, avançando mares e oceanos era algo muito significativo. No artigo de Myriam Chinalli (2009), encontrei uma citação que corrobora a importância para Freud desse reconhecimento na América e, após esta viagem, disse a Ferenczi "minha teoria não se trata de um delírio". 

Recentemente vivi a experiência de um entusiasmo, como se fosse a chegada de mais uma peste nos EUA: a arte de Tarsila do Amaral. No início do ano, os EUA receberam a primeira exposição exclusiva da artista, no MoMa. Pensei em Tarsila como estrangeira aqui em Nova York e na forma como seria recebida pelos críticos e curiosos. 

Visitei a exposição buscando matar a saudade das cores e dos traços. Uma brasilidade transmitida pelo olhar de uma mulher que disse: "quero ser pintora do meu país". Frase enigmática. Um desejo que se concretizaria a posteriori com o reconhecimento internacional e dos brasileiros. 

Para ser pintora de sua terra buscou beber de fontes artísticas na França. O movimento de sair de um território, convoca a um distanciamento, ao olhar crítico e, muitas vezes, a valorização do que é singular de um lugar. O valor de uma obra está no que ela transmite de uma cultura através de um olhar único e subjetivo. Assim, Tarsila o fez.

Andando pelo MoMa, pensei o que será que um quadro como A negra (1923) pode dizer ou despertar em alguém não-brasileiro? Ou ainda, a obra Operários (1933)? Ou A cuca (1924)? Ou Abaporu (1928), eterna estrangeira no museu Malba na Argentina. O que os argentinos dizem sobre Abaporu?

Além dos quadros de Tarsila, a exposição contou com os originais do Manifesto Antropofágico (1928) elaborado por seu marido, o poeta Oswald de Andrade que foi inspirado pela obra Abaporu. Assim como Tarsila inspirou o Manifesto de Oswald, várias mulheres inspiraram Freud na invenção da psicanálise. Passei os olhos pelo Manifesto e fui surpreendida por uma referência literal a Freud. Os antropofagistas beberam na fonte de Totem e Tabu (1913).

Freud e Tarsila estrangeiros em Nova York. 

Foi e é significativo o alcance destes em diversos países, culturas e línguas. Um fato em comum aos dois: o escasso reconhecimento do valor de suas produções em seus países de origem. No caso de Tarsila, houve demora por parte dos brasileiros em reconhecer como arte seus trabalhos. E Freud, em Viena, foi "a única parte do chamado mundo civilizado que não o reconheceu" (Chinalli, 2009, p.6)

Tarsila deixou o legado da valorização da arte como produção subjetiva atravessada por uma cultura, por significantes, sonhos e lutas de um povo. E de alguma forma, transmitiu isso na exposição em Nova York, em um cultura com trajetória diferente.

Freud em sua visita aos EUA nos deixou um legado para além das "Cinco lições": a de buscar saber sobre o estrangeiro em nós. Esse estranho familiar que põe em cheque as certezas. Esse outro que nos habita.

Não é preciso estar em outro país para ser estrangeiro. 

 

CHINALLI, M. A chegada da peste: cem anos da viagem de Freud aos EUA (1909-2009)