O que pensamos sobre cinema - Time Escutatório

O que será que leva milhões de pessoas ao cinema ? Ouvir histórias ? Viver uma experiência nova? Encontrar respostas para um dilema? Assistir ao trabalho de um ator, atriz, diretor que admira? São inúmeras possibilidades, assim, nos propomos a pensar o tema do cinema, lançando a pergunta “O que você pensar sobre o cinema” a quatro pessoas que estão atravessadas e dedicadas a pensar, mas de perspectivas diferentes, tornando a construção de uma reflexão mais complexa e interessante.

O cinema é um universo. Um retorno a sua origem e etimologia nos ajuda a pensar o que mais está associado a esta arte. Cinema tem origem no francês cinéma, encurtamento de cinématographe, nome dado à sua invenção ao redor de 1890 pelos irmãos Lumière, a partir do grego kinema, “movimento”, de kinein, “mexer, deslocar, movimentar”. Se trata da arte que produz uma ilusão de movimento a partir de imagens fixas, será que podemos encontrar nos textos dos convidados algo desse movimento em suas histórias? Ou melhor: Que movimentos suas narrativas (histórias) geram em nós, leitores?

Há várias formas de contar uma história. Os filmes nos mostram isso de maneira interessante, como em uma sessão de análise em que adentramos e, mergulhamos nela. Há histórias que começam já pelo nó principal expondo ao espectador a questão de cara, há outras que recorrem a um estilo biográfico, com fatos e um enredo cronológico. Outras ainda, exploram uma misturas de tempos, em que passado, presente e futuro podem estar numa mesma cena. 

É humana a necessidade de contar histórias e registrá-las, é um "ato" como nos diz Diego Penha (psicanalista) no seu texto. É também um registro e herança às próximas gerações. Assim, como em seu texto, que traz à tona doces lembranças de uma infância com os avós e filmes, que pode ser passado às próximas gerações.

Estamos familiarizados no meio analítico com palavras como histórias, cena, sessão, mas ao aproximar demais as duas experiências corremos o risco de perder a especificidade e função de cada uma na cultura. No entanto, há algo que os aproxima, como no dado curioso da correlação do surgimento do cinema com o surgimento da psicanálise. Contemporâneos, tanto a psicanálise quanto a arte cinematográfica causaram grande revolução na cultura.

Em determinado momento, Sigmund Freud questiona-se sobre a possibilidade de conseguir expressar a atmosfera e as cenas daquilo que se fala quando se conta um sonho, por exemplo. Seria possível representar as formações do inconsciente, os mecanismos psíquicos à partir das imagens de um filme? 

Não à toa que inspirado na obra freudiana novas linhas de cinema foram criadas, o cinema surrealista bebe na fonte da psicanálise para expressar os caminhos alcançáveis com a construção cinematográfica. Teóricos da temática psicanálise e cinema apontam para essa questão como um "pé atras" de Freud. Outros afirmam que Freud atrasou a apresentação da psicanálise, com sua obra "A interpretação dos sonhos" para esperar a virada do século e acompanhar o movimento de transformação cultural do século XX.

No texto do crítico de cinema Márcio Sallem, primeiro convidado da nossa série, o cinema é uma arte plural que condensa outros registros artísticos seja pela narrativa, pela fotografia, atuação etc. Para Márcio, a arte cinematográfica assume importante papel social, com função de crítica e de registro histórico. Essas características podem ser bem apreciadas no cinema do tipo "cinema documentário", mas não só. 

O registro de imagem criado imprime a historicidade daqueles sujeitos envolvidos e o marco social de um filme é resposta daqueles que o assistem, é fruto desse encontro. Como o exemplo do clássico  "E o Vento Levou" (1939 de Victor Fleming) ou  "O homem Elefante" (1980 de David Lynch) e o atual e revolucionário "Pantera Negra" (2018 de Ryan Coogler). 

Para a atriz convidada Larissa Ferrara a atuação em cinema tem a ver com doar-se ao personagem e à condução do diretor. Tem importante relação com a entrega de si. Uma entrega corporal. Larissa faz pensar que, apesar de se ter um roteirista é o diretor quem conta o filme. “Você pode pegar um mesmo roteiro e entregar à diretores diferentes, com certeza, sairá filmes e perspectivas diferentes da mesma história. E é esse olhar que eu sinto que é essencial em um filme. Normalmente, os atores estão tão entregues e tão perto daquela estória e dos personagens que acabam não conseguindo ver o macro do filme e o diretor entra aí”. 

Temos então nessa grande tela o ato de contar histórias com os recursos artísticos para tal. Essa pluralidade artística confere à esse registro a capacidade de construção de uma atmosfera onde o que aparece pode fazer com que daquele que está assistindo se identifique ou sinta-se convocando à  pensar a história que está sendo contada.

Como no texto de Francisco Capoulade o cinema promove efeitos de sentir. Isso abrange a "experiência do cinema", fala sobre um encontro possível à partir do enredo do filme. Frase de Francisco quando cita Zizek "nunca é só prazer. O cinema também deve provocar angústia, também deve tocas nas coisas mais repulsivas de nós mesmos. Deve nos afetar com sua imagem som e palavra". O filme é potência representativa dos afetos. 

Assim, a “experiência cinematográfica” proporcionada por uma máquina que produz ilusões de movimento a quem assiste, permanece na cultura. Não se esvai como máquinas que ficaram num tempo passado. Os textos de nossos convidados também provocam movimento em quem ler. Um movimento de pensar esta experiência em diferentes aspectos fazendo com que nossa próxima ida ao cinema não seja a mesma. O cinema, persiste e ganha força quando transmite através de discursos, imagens e música, histórias que atravessam o tempo e, pessoas que se deixam ser atravessadas.