A loucura e seus destinos

Por Anastácia David

 

A loucura, palavra feminina, foi derramada entre as mulheres como lava da misoginia. “Por que gritam essas mulheres?”, “Do que se queixam?”, “Por que paralisam?”, perguntou-se a medicina para responder aos fenômenos da histeria, panis normalis dosim repetatur¹ diziam. Àqueles, homens e mulheres, que alucinavam e que contavam de experiências que não condiziam com a realidade de todos, eram encarcerados e suas palavras esvaziadas de sentido, estavam no registro da desrazão e mereciam o exílio, o asilo, a inanição ou precisavam alcançar uma fé. Em resumo, falamos da história da loucura² na modernidade.

Nesse longo período entre os séculos XVII e XIX ressaltam-se nesse texto dois pontos fundamentais: a visão de mundo cartesiana e o surgimento dos grandes manicômios. No projeto do cogito a loucura trazia notícia de algo insuportável, a égide da razão mostrava a loucura como um erro que precisava ser reparado a qualquer preço. A ela era oferecido o manicômio; grandes instituições, a princípio eclesiásticas e posteriormente hospitalares, que se misturava toda sorte de pessoas que sofriam mazelas da mente e sociais. Essas pessoas deixavam sua autenticidade e experiência histórica para ser objeto de investigação, ou ainda, da administração totalitária da instituição. Desumanização é a palavra. 

Os grandes hospitais gerais e manicômios foram contemporâneos de Sigmund Freud que iniciou sua clínica com os estudos sobre histeria no final do século XIX e início do século XX. Freud funda sua teoria da escuta das mulheres que sofriam de maneira trágica e dolorosa dos sintomas da mente, sintomas histéricos. Articula a “cura” a partir da função dialética da fala e da escuta analítica.

Freud apresenta que a concepção de normal e patológico é uma construção social e opõe-se, com essa proposta, às ideias dos alienistas da época. Retoma a tragédia contida na loucura e a coloca no campo da psicopatologia, fundamenta a necessidade de tratamento médico, analítico e, sobretudo, do olhar com humanidade para a pessoa que sofre intensamente. Elabora os conceitos de realidade e funcionamento psíquico. Os momentos de crise tinham, agora, o sentido de tentativa de cura.  

Para Jacques Lacan, a forma como o sujeito é estruturado de maneira a ligar-se ao laço social, estrutura o funcionamento da sua teia simbólica; o campo da linguagem para o sujeito inscreve a experiência única de sua existência, que pode ser a loucura. Existe potencia criativa no discurso do sujeito que sofre, é vivenciada na linguagem e cabe ao analista com o seu trabalho ser sensível a uma logica que é do outro e não tem a ver com trazer de volta a razão, mas acompanhar e deixar advir um bem dizer.  

No Brasil, concomitante ao movimento de luta pelas “diretas já’ e redemocratização, viveu-se o movimento de luta anti-manicomial por volta do ano de 1970. A luta foi encabeçada por profissionais da saúde, pessoas que necessitavam de terapêutica adequada para o seu sofrimento, seus familiares e população. Notaram que a ausência da escuta e da rede de apoio social, evidenciava grande desamparo da rede pública de saúde. O sofrimento psíquico intenso, disruptivo, amedrontador daquele que vive com a loucura e seus familiares não possuíam espaço para o cuidado adequado naquele tempo. 

A ideia é romper com a clausura e amparar o sujeito dentro da sua rede, do seu território. Constroem-se os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ligados à legislação do Sistema Único de Saúde e Saúde Mental. Ainda hoje o processo de reforma está em andamento; a revolução iniciou uma transformação sobre a forma como é vista a loucura e quanto ao entendimento do que se torna importante no cuidado em saúde mental. Têm-se ganhos graduais e processuais que envolvem uma compreensão cultural ampla. É preciso que os governos acompanhem as discussões sobre saúde mental para que seja possível uma sociedade sem manicômios, com opções de centros de saúde mental, acesso a medicações, terapêuticas e, principalmente, escuta.

As formas de sofrer da humanidade apuram-se e atualizam-se ao longo do tempo, seja pela experiência do sujeito com o laço social seja pelas contingências históricas vividas. Vemos o crescimento de novos sintomas como cortes no corpo, medicalização da vida, ansiedades relacionadas às redes sociais dentre outros sintomas.  Percebe-se que a loucura refina suas maneiras e exige refinamento de escuta e rede de acolhimento à dor emocional. A sociedade muda e mudam-se também as formas de sofrer; atualizam-se as formas de representação da dor humana. 

Qual destino daremos para a loucura nos nossos tempos? 

Continuemos na busca por assegurar um lugar de escuta para a loucura. 

 

 

¹ FREUD. Sigmund. A História do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. ESB Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

²   FOUCAULT. Michel. A História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1977.