O que é um corpo?

Por Carolina Escobar

 

A interrogação sobre o corpo funda os primórdios da Psicanálise. As famosas cegueiras, impedimentos motores, paralisações, fortes dores, etc. levam Sigmund Freud a estudar os casos de histeria buscando decifrar o que acontecia com os corpos-enigma dessas mulheres. Eram enigmas, pois não eram encontradas causas orgânicas que justificassem os fenômenos descritos e, mais ainda, porque desafiavam a organização anatômica dos órgãos e músculos.

Sua teoria, após se pôr a escutá-las, é que a aparição dos sintomas corporais teria um sentido relacionado com representações inconscientes construídas na história de cada uma; mais especificamente a uma experiência vivenciada por elas como traumática.

Há uma grande contribuição freudiana nos estudos sobre o corpo; pois apresenta uma quebra de paradigma. Inserido no contexto médico, o corpo era compreendido como um sistema orgânico que responde às leis da biologia e da fisiologia; desde Freud, ele também passou a ser compreendido como efeito de uma construção particular (e inconsciente) que só pode ser feita com e pelo intermédio da linguagem.  

Apesar de serem formulações que, até hoje, servem de base para a inserção e posicionamento do psicanalista nos mais diferentes contextos de sua atuação; não são novidades para os psicanalistas, nem para os interessados pela psicanálise. No entanto, recentemente tive acesso a um livro que trouxe novos elementos para pensar o corpo e pensei em compartilhar com vocês neste texto.

Em ‘Inventando o sexo’ o historiador Thomas Laqueur (2001) se dedica para o estudo da história social e da medicina com a intenção de refazer os passos feitos dos gregos até o nascimento da teoria de Sigmund Freud naquilo que diz respeito à anatomia humana.

O autor resgata o pensamento de Galeno de Përgamo (c. 130-200), influente anatomista da tradição ocidental, uma vez que suas ideias foram difundidas de forma extensa até o final do século XVII. Segundo ele, o corpo humano seria composto por apenas uma anatomia – isto mesmo! Igual para todos os seres humanos.

Nos dias atuais, nos aproximamos da teoria do sexo único com estranheza, ainda mais quando descobrimos que ela era a explicação científica sobre o corpo, seus sistemas e funcionamento. Para nós, a ciência demonstra que a anatomia humana comporta dois sexos: feminino e masculino. São dois sistemas orgânicos distintos e característicos.

Para Galeno, todos tínhamos pênis. No entanto, ele poderia alojar-se dentro do corpo, ou então pender para fora dele de acordo com os afetos sentidos pelas pessoas e, principalmente, por sexos sociais com diferenças radicais no que diz respeito aos direitos e obrigações perante à pólis; “(...) ser homem ou mulher era manter uma posição social, assumir um papel cultural, e não pertencer organicamente a um sexo ou a outro. O sexo era ainda uma categoria sociológica, não ontológica” (2001, p.177)

Mas qual seria o impacto desta leitura? Aquilo que nos tempos atuais é compreendido como uma verdade (duas anatomias compondo o conjunto dos corpos humanos) também seria efeito de uma construção cultural e linguageira. 

O ato de nomear e a forma como isso é feito, são capazes de fundar a existência de algo.  Qual seria o efeito disto sobre a subjetividade, assim como sobre as modalidades de sofrimento em cada tempo? E no nosso?

 

 

Laqueur, Thomas Walter. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud/ Thomas Laqueur; tradução Vera Whately. – Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.