Desenlace

Esta semana fui a um restaurante e presenciei um diálogo entre pai e filho. O pai tentava conversar com o garotinho sobre o uso do celular à mesa. Disse que se um dos dois usasse o celular alguém ficaria sozinho e, que seria muito mais legal, se eles dois ficassem conversando e brincando juntos.

O garotinho – por volta dos cinco anos – continuou insistindo, dizendo que queria brincar com o celular. De repente, a conversa iniciada com cuidado e paciência pelo pai, tomou outro rumo, quando este percebeu que não seria fácil convencê-lo. Irritado, perguntou ao menino: "Quem manda aqui?”

Prontamente, a criança respondeu: "o dono do Outback!”

O diálogo entre os dois foi o que me fez pensar, nesse momento, sobre as relações, os laços. Em uma busca rápida na internet encontrei a seguinte definição de laço: “Nó corredio facilmente desatável, com uma, duas ou mais alças.”

Acredito que há muitas outras formas interessantes de poder dizer sobre isso, mas esta definição me chama atenção por dar ênfase na facilidade do desfazer ou desatar o laço, ou seja, a possibilidade do desenlace.

Nas relações, seja na família, no trabalho, nas relações ditas amorosas, o que muitas vezes é visto como o que é sólido (certezas) se desmancha no ar, como disse Karl Marx(1). Na vida, os laços são como os do sapato, ora apertam, ora soltam, ora derrubam. Um laço conecta dois ou mais entre si, salva da solidão, conforta, assegura, tranquiliza, mas também o laço amarra, acorrenta, constrange, limita, incomoda.

A psicanálise se dedica ao tema com vários estudos. Um dos jeitos de avançar na discussão sobre os laços é pela ideia do laço social. O que faz laço entre pessoas ? Antes de nos assegurarmos com uma resposta, podemos partir da ideia de que os laços sociais são tecidos e estruturados pela linguagem e, com Lacan são, portanto, denominados discursos.

Ou seja, há diferentes possibilidades de estabelecermos laços sociais. Lacan aponta quatro formas: o discurso do mestre, universitário, da histérica e do analista. Acrescentando posteriormente um quinto discurso, único que não faz laço: o discurso do capitalista.

Os discursos são, na interpretação de Lacan, os quatro modos de relacionamento apontados por Freud (1930) como fontes do sofrimento do Homem: governar, educar, analisar e fazer desejar. São impossíveis  aos quais o Homem se propõe a realizar, mesmo com seus fracassos.

O que podemos pensar com Lacan é que existe um impossível em cada discurso. O laço proposto por cada um não está garantido. Se pensarmos no discurso do mestre, por exemplo, há uma dependência do outro para que opere sua função. Na educação, ser professor não garante que haverá ensino se, o outro (aluno), não reconhecer o lugar de quem ensina (mestre).

Com os pais de crianças, também podemos pensar os lugares que ocupam no ato de educar. A questão é, por qual via o fazem? Os laços podem operar com diferentes tons e significantes.

No caso da conversa em que mencionei no início do texto, o lugar de "quem manda aqui” não estava garantido com um reconhecimento pelo outro (criança). A posição do menino diante do discurso operado pela fala do pai desmontou o laço proposto.

A maneira como cada um responde ao discurso é o que também possibilita fazer giro e mudar para outras formas de laço. 

A certeza do “quem manda aqui” fracassou, como acontece inúmeras vezes na educação de crianças. A resposta do garotinho foi bem humorada, pois provocou risadas aos que estavam por perto, mas silêncio entre os dois.

De volta a pergunta, o que faz laço? Considerar a possibilidade do desenlace e seu impossível (não sua impotência), desmanchando a solidez das certezas, pode ser uma via para dar espaço ao desejo. 

 

(1) Manifesto comunista  (1848)