Unheimlich urbano: Psicanálise, Arquitetura e Políticas | Por Mariana Anconi

O espaço urbano como território em constante mudança é feito corpo vivo: pulsional e precisa da linguagem para não ser tomado pelo caos. Essa linguagem articulada às políticas públicas e o que se faz dos espaços, vão dando contornos, limites e produzindo outros espaços no “entre" construções. 

A produção de outros espaços pode fugir à regra, ao planejamento inicialmente projetado para aquele território. Lefebvre (1991) afirma que os cidadãos produzem espaços, inventam lugares e, consequentemente constroem uma arquitetura. Esta arquitetura construída, nos espaços produzidos pelos habitantes gera descontinuidade e um furo na lógica, por exemplo, dos espaços ditos produtivos. 

A arquitetura configura-se como linguagem na cidade, uma espécie de materialização do inconsciente. Uma cidade não é feita apenas do que a arquitetura representa, mas dos espaços que as pessoas inventam a partir desta arquitetura. Esse é o aspecto de corpo que uma cidade adquire, e como corpo, podemos considerar a existência de um "psiquismo da cidade".

A experiência do unheimlich na cidade surge do encontro com o outro estranho e ao mesmo tempo familiar. O outro nos impõe a dialética dos contrastes, das rupturas e com a política dos laços. Uma política que não escapa ao estranhamento. Trabalhei neste texto com a perspectiva do unheimlich como efeito da produção de outros espaços na cidade. Espaços estes que furam discursos, lógicas e ideais.

A palavra unheimlich (em alemão) ganhou estatuto de conceito em Freud no texto Das Unheimliche (1919) traduzido como L’enquietant (em francês) e O estranho (em português) e, mais recendente, O infamiliar (2019). Freud aponta que o estranho é tudo aquilo que, devendo permanecer oculto, acabou se manifestando. Portanto, afirma: “esse estranho não é nada novo ou alheio, porém algo que é familiar e há muito estabelecido na mente, e que somente se alienou desta através do processo de repressão” (FREUD, 1970, p.301). 

No contexto urbano, o que faz com que uma cidade passe de um espaço familiar para infamiliar/estranho (unheimlich)? 

Primeiro, deve-se considerar que as cidades são espaços dentro de outros espaços, mas não só. São constituídas por cultura, história, memória e trauma. São marcadas por corpos que transitam e expressam sua subjetividade. Os muros (como limites de territórios e lugar de expressão) são exemplos do que é possível escrever (e dizer) do mal-estar na cidade. É importante que haja espaço para uma expressividade do nível do mal-estar.

O unheimlich urbano é o que surge nas rachaduras na cidade quando se tenta operar com ideais incompatíveis e, por vezes, perversos. Mais ainda, é o que retorna do inconsciente e causa estranheza, mas que diz de um movimento dos próprios habitantes. É a negação de uma parte do próprio território. É o que se alega ser do estrangeiro (do outro), mas é do mais íntimo em nós.

A experiência do unheimlich pode ser vivenciada a partir do encontro com a diferença entre territórios na cidade. Cito aqui dois espaços possíveis: os espaços públicos (parques, praças, etc) e os terrenos vagos sem a marca da "produtividade".

Na cidade, os espaços públicos como parques, praças, bibliotecas apresentam uma topologia  que permite o deslocamento dos corpos. Esta mesma topologia, que transmite a ideia de uma continuidade entre cidade e os corpos, permite encontros com o radical da diferença, encontros com o estranho, mas que também é familiar.

As cidades passam por transformações o tempo todo. De acordo com Lefebvre (1991) elas são consequência das relações entre os habitantes, ou mais especificamente o produto das relações sociais. No meio destas transformações sócio-econômicas e culturais vemos discursos que produzem o estrangeiro em seu próprio território, por isso, os espaços públicos possibilitam a construção de lugares democráticos e de expressão de sua subjetividade. O encontro com a diferença possibilita a diminuição das fronteiras e os muros entre habitantes e diminuem o desamparo discursivo no campo social daqueles ditos “estrangeiros”.

Os espaços abandonados e esquecidos (vagos) sem a marca da produtividade do discurso capitalista representam uma descontinuidade, uma estranheza (unheimlich) no urbano. São territórios desconhecidos, à margem ou entre prédios, vistos como ameaça. São territórios em geral evitados à todo custo porque ocupam no imaginário dos habitantes o lugar do estrangeiro. 

De acordo com Alessandra [1] do coletivo Escutando a cidade, “os lugares onde se sente a presença do unheimlich na cidade são também lugares de resistência, habitados por sujeitos em deslocamento, por pessoas ou grupos que justamente por estar a margem da cadeia produtiva são capazes de criar novas configurações de vida, que apesar de precárias e oscilantes, como os terrenos vagos, parecem ter algo a nos ensinar sobre como viver em um solo instável.”

A diversidade de territórios dentro da cidade nos coloca a questão:  Mas afinal, quem é o estranho/estrangeiro? 

Podemos partir da ideia de que o estrangeiro nos habita primeiramente, para então deslocarmos para o estranho nos laços e nos discursos que circulam na cidade. Roland Barthes (1993) afirma que a cidade é um discurso e o discurso é uma linguagem: a cidade fala com seus habitantes. Quando políticas públicas operam para que a partir dos espaços públicos sejam promovidos encontros com a diferença, nos tornamos menos estranhos e estrangeiros uns aos outros. 

O unheimlich urbano diz dos territórios nômades, deslocados e que apontam para uma estranheza e uma diferença que habita a cidade. Negar a diferença implica em um retorno do que é recalcado produzindo efeitos de ódio e segregação.  




REFERENCIAS 


FREUD, S. (1909) O infamiliar [Das Unheimliche]. Obras incompletas de Sigmund Freud. São Paulo: Autentica, 288p.


BARTHES, R.  (1985). La aventura semiologica. Trad. R. Alcalde. Barcelona: Paidós, 1993.


LEFEBVRE, H. (1991) The production of space. Blackwell publisher, Oxford, 33p.


[1] A cidade fala - texto disponível em: http://escutandoacidade.com.br/semanario/193296-a-cidade-fala