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Fechado para "deforma"

O que faz o encontro de pessoas formar um time?

O Escutatório nasceu de um encontro. De lá pra cá experimentou dinâmicas, palavras, linguagens e ideias diferentes e, em nenhum momento, foi possível ser Um time. Somos várias e diferentes.  

E estamos aqui de  novo escrevendo a três mãos. Escrevemos porque algo falta nesse mar de letras e posts que insistimos em navegar, mas por vezes, a falta pode ameaçar desaparecer e sem ela não existe movimento, nem escrita. 

Há 3 anos (29/06/2016), quatro mulheres (Mariana Anconi, Anastácia David, Carolina Escobar e Lorena Bitar), se reuniram criando um espaço de articulação, transmissão, diálogo por meio da escrita livre e engajada com o desejo de, para além de falar, escrever psicanálise à nossa maneira, com nossos traços e percursos. Com o rigor que trouxemos de nossa formação com professores que nos estimularam com amor ao invento freudiano. Nos estimularam a olhar para além das imagens formadas ao fundo da caverna. 

Desde então, seguimos, cada uma à sua maneira fazendo psicanálise e apostando nesse saber como um caminho para atravessar a vida. Vida que nos leva dia e noite para encontros com embates e belezas imprevisíveis. Vida que traz e leva, como o mar, metáfora para o movimento constante. Lá e Cá.

Hoje somos Mariana, Maiara e Anastácia. Talvez nosso leitor não saiba, mas estamos em diferentes lugares por esse mundo. Maiara em São Luís, Anastácia em São Paulo e Mariana em Nova York. Mas não foi sempre assim. Tivemos encontros (belos!) para pensar temas e propor ideias. Desde o ano passado atravessamos uma fragmentação (im)possível sustentada pelo espaço virtual, tentando compor, articular e construir uma produção em conjunto. 

Dos diferentes lugares, tempos e posições apostamos em uma costura. Em seu significado temos na palavra costura: “ato, processo ou efeito de unir duas ou mais coisas, por meio de pontos”. Mas uma pergunta insiste: Como sustentar o desejo sem a presença do encontro? O virtual dá conta? Ou precisamos do encontro na materialização do corpo? Para nós, isso parece imprescindível em alguns momentos. 

Três anos se passaram: seria o Escutatório um Ateliê? Um Cartel? Dispositivo das escolas de psicanálise onde se assume o envolvimento com uma questão da teoria para ao final sair uma produção que tem a ver com o desejo? Às vezes parece que sim, outras que não… deixemos no ar. 

Chegou a hora de movimentar! Anunciamos que nosso Escutatório estará “fechado para reforma”; ou “deforma” como escolhemos. "Deforma" implica em deformar, sair da forma e da fôrma. O analista para exercer sua função passa por uma formação, mas aposta-se em uma deformação que está atravessada por sua análise pessoal também, que o possibilita operar na função de uma escuta que causa desejo. Um movimento necessário para sua (de)formação.
Contaremos durante um (in)certo tempo com um trabalho de elaboração nosso a respeito do projeto a partir do desejo de cada uma. Fica uma aposta no futuro. Para trocar e transmitir o que precisamos dizer, se não neste, em outros espaços. 

Mariana Anconi

Anastácia David

Maiara Marques

Dois anos de Escutatório: Isso não é psicanálise

A cada ano, no mês de junho, dedicamos um espaço de nossa programação para comemorar o aniversário do site.  É um exercício que nos permite construir questões sobre o que nos faz continuar investindo numa transmissão que passa pela escrita, mas não só.

Ano passado passamos pelo tema da tecnologia como ferramenta de transmissão e, desde então, já  estamos advertidas que a transmissão na psicanálise não está garantida a princípio. Ela se dá de forma inconsciente e acontece a partir de uma aposta feita a partir da ética psicanalítica. Na comemoração de 1 ano de site estávamos às voltas com a questão da transmissão e sua especificidade na psicanálise. Desde o início deste projeto dizíamos: O Escutatório é um site de psicanálise !

E hoje? Continuamos no tempo desta frase?

Nos sentimos convocadas a  tentar responder a isso, assim como a pensar os rumos do site e de nossa escrita através do saber enigmático que Magritte transmite em suas obras.

Este artista – considerado por alguns como surrealista – nos faz construir enigmas através da arte. Apesar de ser considerado como integrante do movimento surrealista; ocupou uma posição diferente dos surrealistas em vários momentos, inclusive, quando disse não ter sido influenciado pela psicanálise e que não tinha interesse nesse saber. 

Magritte dizia: "Minha arte não tem influência da psicanalise" ou "Isso não tem a ver com psicanálise ".  Assim também como escreveu: "Isso não é um cachimbo" ou ainda, "Isso não é uma maçã" em seus famosos quadros. Marcas características de seu trabalho.

Uma das contribuições de sua arte foi problematizar a imagem enquanto representação verdadeira. O cachimbo que enxergamos no quadro é uma representação dele e, portanto, nunca será o objeto em si. Algo fica de fora.

De volta as nossas questões quanto a escrita neste site e sobre a afirmação feita há um ano atrás "Esse é um site de psicanálise",  invertemos a lógica para  "Isso não é psicanalise".  Ao dizer isso, entendemos que esse é um site de Psicanálise, mas seu conteúdo não define o que ela é. Não a representa em sua totalidade.

O Escutatório é uma representação não-toda da psicanálise. E, só assim, é possível continuar nesta aposta de transmissão.

Neste mês de julho, além de comemorar os dois anos de site, faremos uma homenagem a arte de Magritte. Em cada post publicaremos uma obra feita por ele e um retorno à trechos de algumas publicações feitas por nós e por nossos convidados.

Entre-vistas com Ana Laura Prates Pacheco

Hoje o Escutatório inicia uma nova seção no site chamada "Entre-vistas" que consiste em uma série de diálogos com profissionais que apresentam um percurso importante pela psicanálise e, através de seus posicionamentos acerca de questões atuais, nos convidam a refletir e a (des)construir saberes. Lembramos que as respostas se referem ao modo de pensar do convidado sobre o tema proposto por nós. 

Esperamos que as "entre-vistas" possam inspirar e suscitar questões para além das que foram colocadas para nossa convidada. Desde já agradecemos a Ana Laura pela disponibilidade em participar deste projeto.  Boa leitura a todos! 

Ana Laura Prates Pacheco é Psicanalista, Psicóloga. Mestre e Doutora em Psicologia Clínica pela USP (IPUSP). Pós-Doutora em Psicanálise pela UERJ. Pesquisadora convidada do LABEURN, UNICAMP. É AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - Fórum de São Paulo, da qual é fundadora. Participou do Secretariado do Passe no Brasil (2008-2010) e foi Diretora da EPFCL-Brasil (2010-2012). Atualmente é representante do Brasil no Colégiado de Representantes da Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano. Foi editora da revista Stylus (2008-2010). É coordenadora da Rede de Pesquisa de Psicanálise e Infância das Formações Clínicas do Campo Lacaniano, além de transmitir em seus próprios Seminários. É autora, dentre outros, de: "Feminilidade e experiência psicanalítica"(Haker, 2001), de “De la fantasía de infancia a lo infantil de la fantasía” (Letra Viva, 2012) e “Da fantasia de infância ao intanfil na fantasil” (Annablume, 2012) e “La letra de la carta al nudo” (Um-decir, Asociacion Foro del Campo Lacaniano de Medellin, 2015). E-mail:  analauraprates@terra.com.br

Ana Laura Prates Pacheco é Psicanalista, Psicóloga. Mestre e Doutora em Psicologia Clínica pela USP (IPUSP). Pós-Doutora em Psicanálise pela UERJ. Pesquisadora convidada do LABEURN, UNICAMP. É AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - Fórum de São Paulo, da qual é fundadora. Participou do Secretariado do Passe no Brasil (2008-2010) e foi Diretora da EPFCL-Brasil (2010-2012). Atualmente é representante do Brasil no Colégiado de Representantes da Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano. Foi editora da revista Stylus (2008-2010). É coordenadora da Rede de Pesquisa de Psicanálise e Infância das Formações Clínicas do Campo Lacaniano, além de transmitir em seus próprios Seminários. É autora, dentre outros, de: "Feminilidade e experiência psicanalítica"(Haker, 2001), de “De la fantasía de infancia a lo infantil de la fantasía” (Letra Viva, 2012) e “Da fantasia de infância ao intanfil na fantasil” (Annablume, 2012) e “La letra de la carta al nudo” (Um-decir, Asociacion Foro del Campo Lacaniano de Medellin, 2015).
E-mail: analauraprates@terra.com.br

Escutatório: Como foi seu encontro com a Psicanálise?

Ana Laura: Meu encontro com a Psicanálise foi ainda na infância, por volta de uns 5 anos de idade. Morávamos em uma cidade do interior de São Paulo e minha mãe, que era professora de filosofia na UNESP, ia toda semana fazer análise em Ribeirão Preto. Uma vez ela me disse que ia me levar para conversar com seu analista, uma ideia que me pareceu muito bem vinda! Fiquei bastante ansiosa, esperando o dia do encontro. Na estrada eu já imaginava a sessão de análise que faria... O curioso é que pensava em falar mesmo, e não em brincar ou desenhar. Fiquei na sala de espera enquanto minha mãe fazia sua sessão, e quando ela saiu me disse que o analista tinha achado melhor não me escutar. Não faço a menor ideia do que possa ter acontecido, mas sei que essa sessão que na houve inaugurou minha relação com o inconsciente. Aos 16 anos, finalmente iniciei uma terapia em dupla – eu e minha melhor amiga. Algo um tanto inusitado. Decidi cursar Psicologia para ser Psicanalista. Interessava-me, sobretudo, a clínica com crianças. Mas os primeiros contatos com a Psicanálise na faculdade, em meados dos anos 80 foram um tanto decepcionantes. Até que comecei a atender, e iniciei uma análise, ainda não lacaniana. Fizemos um grupo de supervisão muito interessante com a falecida professora Jussara Brauer, a partir do qual vários projetos foram realizados (até hoje alguns de nós temos consultório juntos). Quase ao mesmo tempo, iniciamos um grupo de estudos de Freud com o Alejandro Viviani, que foi muito importante, e em seguida o encontro decisivo com o também falecido professor Luis Carlos Nogueira, com quem aprendi as primeiras lições de Lacan. A partir daí foi inevitável iniciar uma análise lacaniana. Meu encontro com a Psicanálise, como podem notar, foi causado por um curioso e precoce encontro faltoso que me marcou...

Escutatório: O que você entende por escuta analítica?

Ana Laura: Perguntinha difícil, hein?! Eu sempre brinco que a Psicanálise é um patrimônio cultural da humanidade. Pensei em dizer um patrimônio imaterial, mas acho que não, é um patrimônio material mesmo: a materialidade do significante, naquilo que ele porta de equívoco, e a materialidade da letra, em sua estrutura de rasura e marca. A escuta analítica é algo muito peculiar, sui generis, porque é uma escuta que produz uma letra, com a qual se pode escrever algo novo na vida. Gosto muito dessa imagem que Lacan usa, sobre a escuta analítica tratar-se de um forçamento, um forçamento através do qual é possível fazer ressoar outra coisa que não o sentido comum. Não canso de me surpreender com essa incrível disposição de Freud em operar com a linguagem, criando uma nova razão – um novo discurso, se preferirem – ou, se não cria-lo – já que temos notícias de que Sócrates já operava com ele – ao menos transforma-lo em uma experiência clínica inédita na Modernidade. Essa possibilidade de manipular a ocorrência transferencial de modo a extrair desse laço social inusitado algo tão original como um desejo decido, o consentimento a um modo de gozo e um novo amor, é algo sensacional! Escutar o outro, nas mais diversas esferas é reconhecidamente algo importante e transformador. Não é a toa que vocês criaram esse neologismo tão bem vindo: Escutatório. Mas a escuta analítica tem algumas peculiaridades, não é? Essa deformação do ouvido ocorre no divã, e graças a essa experiência sua afinação é dissonante.  Tal como o poeta, nós nos deixamos levar pelo duplo sentido, pela polifonia, pelo caráter estrangeiro de toda língua, pelas imagens sonoras e assim podemos operar com o inconsciente. É como entendo o uso que Lacan faz da palavra francesa antiga dupes. A escuta analítica deve ser dupes. Ser dupes é “cair como um patinho”, ou seja, se deixar levar pelas variações entre sons e sentidos que compões a língua, e porque não reconhecer, lalíngua.

Escutatório: É possível tecer relações entre a materialidade citada com as manifestações corporais que compõem o sintoma de cada sujeito?

Ana Laura: Sim, é possível tecer essas relações, mas para tanto seria preciso um longo desenvolvimento teórico. Lembremos que Lacan, na década de cinquenta, articula o sintoma com a estrutura da metáfora. É o que permite, aliás, sua decifração a partir da interpretação, visando a construção e o atravessamento da fantasia fundamental. Mas sabemos que nos anos setenta, Lacan define o sintoma como acontecimento no corpo. Aqui, não se trata do corpo enquanto imagem, mas do corpo enquanto aquilo de que se goza. São noções clínicas e teóricas bastante complexas. O sintoma enquanto marca de gozo singular tem íntima relação com a letra, que é um conceito exterior à Psicanálise, mas que interessa a Lacan justamente por portar uma fixação e uma identidade diferente do significante. Embora a letra seja uma criação do significante, ela é idêntica a si mesma. Daí Lacan propor essa homologia do sintoma com a letra, na escrita do enodamento dos registros do Real, do Simbólico e do Imaginário. É claro que para desenvolver esse ponto seria ainda necessário distinguir as ocorrências corporais nos diferentes tipos clínicos: o fenômeno psicossomático, a somatização na neurose obsessiva, a conversão na histeria e assim por diante.

Escutatório: Como você vê os processos de singularização e subjetivação na atualidade?

Ana Laura: Não sei se entendi bem a pergunta, mas vou tentar interpreta-la... Penso que a questão da singularidade é estrutural no falasser – neologismo inventado por Lacan para falar desse pleonasmo, já que só há ser da fala. Então temos sempre as três dimensões: o universal da linguagem que nos causa, e que chamamos sujeito desejante; o modo particular como cada sujeito entra na linguagem e inventa sua fantasia, seu delírio ou seu fetiche; e a singularidade da inscrição sem par que nos torna únicos e, até certo ponto, incomunicáveis no que diz respeito ao gozo, e que chamamos de sintoma – ou sinthoma como preferem alguns. Algumas experiências humanas permitem, para além das tradições e das identificações, acessar essa singularidade. Certos artistas, certos amantes, ou algumas vivências de limite absoluto. E essa é também a promessa da experiência analítica, que o faz, entretanto, de um modo inédito. O que acontece é que os psicanalistas precisam estar à altura dessa promessa. Bem, isso posto entendo que o que vocês estão chamando de subjetivação é algo que inclui outra variável que é a história e, portanto, inclui os efeitos da passagem do tempo. Como a estrutura se manifesta em diferentes momentos históricos e, por outro lado, como as coordenadas de certos momentos históricos afetam a própria estrutura. Pensando nisso, Lacan inventou os discursos, que escrevem laços sociais que predominam em um dado momento histórico. Mas como podemos falar sobre os processos de subjetivação – como vocês mencionaram – de nossa época, da atualidade, como disseram. Lacan recomendou aos psicanalistas que renunciassem a essa prática aqueles que não alcançassem em seu horizonte a subjetividade de sua época. É um grande desafio e um paradoxo, pois nunca alcançamos o horizonte... A atualidade nos escapa a cada segundo, e não estamos imunes aos seus efeitos. Mas talvez eu possa dizer que, mais sério do que a espetacularização, tão bem descrita por Débord, o que me preocupa é a aceleração sem precedentes provocada pela aliança entre o capitalismo de consumo e o discurso cientificista. Suspeito que a bizarra epidemia atual de “autismo” tenha a ver com isso. A ver...

Escutatório: Você poderia falar um pouco mais sobre essa relação entre o capitalismo de consumo e o discurso cientificista com a epidemia de "autismo" e se ela também se aplica a outros diagnósticos?

Ana Laura: Esse foi um tema que eu trabalhei há alguns anos atrás, estimulada pela participação da Rede de Pesquisa de Psicanálise e Infância do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo no Movimento Psicanálise Autismo e Saúde Pública. Eu me perguntava por que o “autismo” é a bola da vez. Gosto de colocar “autismo” entre aspas devido à imprecisão cada vez mais patente desse diagnóstico. O “autismo” ou o seu “espectro” é epidêmico, como atualmente se constata na saúde pública, dada a ampliação dos fenômenos clínicos que podem ser incluídos nessa categoria.  Meus argumentos estão em um texto que foi publicado da revista A PESTE vol4 n2. Autismo e Segregação. A categoria clínica “autista” hiperboliza a série de paradoxos apresentadas pelo binômio hipermoderno segregação-concentração. Se o autista se auto exclui, justamente por recusar a entrada no Discurso do Mestre enquanto discurso da estrutura, a neuropsiquiatria do capitalismo avançado o concentra no universo da genética, e tenta proibir-lhe a psicanálise. Em tempos de infância generalizada, portanto, não nos surpreende que as questões relativas à infância estejam na ordem do dia e, mas especificamente, as crianças autistas. Talvez fosse o caso de nos perguntarmos se não estaríamos todos concentrados em uma mesma “doença da libido”, para usar uma expressão de Colette Soler. A resposta do psicanalista, entretanto, não está nem do lado da segregação nem do lado da concentração, na medida em que faz valer um discurso que sustenta a singularidade e a diferença absoluta.

Escutatório: Qual a função do analista nos debates das questões da polis?

Ana Laura: Sei que minha posição quanto a essa questão está bem longe ser unânime, mas considero que o analista tem uma função crucial nos debates das questões da polis. A ideia do Psicanalista enclausurado nas quatro paredes do consultório me parece incoerente com a história do movimento psicanalítico, desde Freud. O analista, em sua experiência clínica, tem a oportunidade de entrar em contato com as formações do inconsciente e com os modos de gozo; e isso permite o acesso a um saber muito específico sobre os laços sociais. O analista escuta, mas a posteriori pode ter voz e tomar a palavra. Aliás, é sua responsabilidade! Cabe a ele transmitir, amplificar isso que se recolhe em sua experiência, como fazemos quando falamos no megafone, em uma manifestação, ou no jogral das manifestações secundaristas atuais. O saber que a Psicanálise produziu sobre os laços pode ser de grande valia para a construção coletiva de um amor mais digno e de uma sociedade mais justa. O discurso do analista é incompatível ao fascismo e ao discurso do capitalista. Isso é estrutural, queiram ou não os psicanalistas mais conservadores. 

 


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Tempo e corte: Fim de um ciclo?

    Que tempo é esse que renova as esperanças para a possibilidade de um amanhã melhor ou mesmo diferente? Seria esta esperança o efeito de um corte ou ruptura no calendário? Existe um só tempo? A pergunta parece ingênua, mas quando se define a perspectiva pela qual se considera o tempo, ele pode ser vários, mas também pode ser um, por exemplo, o caráter democrático do tempo ao ser finito a todo ser humano.
    Fim de um ciclo? Um ano que passou e promoveu muitas marcas. Em nossa cultura o momento de retrospectiva do ano na TV é muito aguardado. A ideia de poder reviver os fatos, lembrá-los para então, quem sabe, elaborá-los se presentifica. A repetição está aí, mesmo que em seu caráter mórbido, como o de rever cenas tristes e chocantes, mas também de reatualizar o passado, de certa forma, retornar no tempo.
    Em um ano temos como um ciclo completo das quatro estações e das datas que celebramos com os que estão a nossa volta e com quem compartilhamos a mesma cultura. Sem dúvida alguma são marcadores fundamentais para os humanos; assim se organizam, se encontram, convivem. No entanto, nem sempre esses marcadores coincidem com o que marca nossa vida; nossa carne. 
    As horas, os minutos e segundos fazem parte das marcações também. Estamos acostumados a considerar o tempo a partir das batidas do relógio. O tic-tac é o maestro do dia a dia; ele determina o que é um dia, um período, um ciclo. Ele organiza e constrói a rotina. Nos lembra o momento de acordar e, para alguns, até o momento de ir dormir. Promove encontros, mas não os garante. A vida é feita também de desencontros. 
    Ao mesmo tempo que organiza a vida, também é ele que assombra com seu constante lembrete de que uma hora, um minuto, um segundo já se foram. Sem possível retorno. Ele é sentido na pele quando, por exemplo, encontramos rugas displicentes em lugares que nunca imaginaríamos que pudessem enrugar e, no corpo, quando perdemos a força dos músculos e a flexibilidade das articulações. Ele – o tempo – nos atravessa.
    Há um tempo que se caracteriza no corte e não na continuidade. Esse corte é poderoso! Ele é tão potente que é capaz de desbancar os marcadores do tempo coletivo e compartilhado para inaugurar um outro tempo, aquele com o qual o sujeito dança conforme seu ritmo.
    Para os analistas o tempo está para além do chronos. Uma sessão pode ser pontuada a partir do relógio ou no momento de um dizer. Tempo do sujeito se dizer, o tempo do ato, o tempo da repetição, o tempo do fim de uma sessão. Não temos como falar sobre o tempo sem associa-lo à angústia e a castração. Essa angustia que se confunde com a que “mora na filosofia”. Angústia de saber-se finito. O que fazer com o tempo que lhe cabe, com o tempo que resta? Vivê-lo!
    O tempo de uma vida, de um dia, a passagem do tempo sentida na natureza; o sol que se põe para dar lugar à lua que chega soberana do céu. O tempo daquele dia, que define se vamos sair de casa usando casacos e galochas ou se poderemos tomar um açaí no fim de tarde caminhando com sandálias por aí. O tempo subjetivo de uma ligação esperada, de um abraço de alguém que se quer bem. Sua potência? Ser fruto da costura de cada sujeito ao acaso e, produzindo assim, a batida que o caracteriza. 
 

Anastácia David

Carolina Escobar

Mariana Anconi

 


 

 

Observações sobre o corpo

Por Mariana Anconi

 

     O corpo é medida, forma, conteúdo e duração. É objeto de estudo de diversos saberes que, vez por outra, deparam-se com sua complexidade. Singular e plural. É causa e efeito. Está na ambivalência. Da constituição no narcisismo ao reconhecimento da imagem no espelho pelo Outro. Júbilo.

     Uma vez inserido na linguagem o corpo é também lugar de expressão do sujeito. A fala, o discurso e a metáfora atestam. Nos ditos populares aparece constantemente. Quem nunca conheceu uma pessoa que "fala pelos cotovelos."? Ou quem nunca "meteu os pés pelas mãos"? Ou ficou com "água na boca" ao olhar um bolo de chocolate?  Quem nunca "quebrou a cara"? , Ou conheceu alguém "cara de pau"?, Ou ainda alguém que "meteu o nariz onde não foi chamado"?  As expressões coloquiais e populares demonstram maneiras pelas quais o sujeito pode se apropriar do corpo no laço social. 

     Quanto a isso, há muitas maneiras de se apropriar. Em sua obra “O mal-estar na civilização” (1930), Freud esclarece que a beleza, a limpeza e a ordem ocupam posição especial entre as exigências da civilização.  Com o corpo não é diferente. Tendemos a repudiar tudo o que é feio, sujo ou desordenado porque tememos essas características em nós mesmos, daí a rejeição (mesmo que inconsciente) com os quais não nos identificamos. 

     De certa forma, vemos nas diversas experiências contemporâneas com o corpo, a presença dessas exigências e o repúdio ao que não corresponde ao "padrão" de beleza e saúde por exemplo. Aqueles que tentam corresponder a isso, persistem na frustração. Em alguns casos tornam-se pessoas angustiadas e tristes. O espelho ganha uma nova função para além do reflexo: Eu não me vejo mais, vejo apenas o meu ideal (aquilo que não sou ainda). Dependendo de como se lida com o ideal ele pode servir para impulsionar o indivíduo para a vida ou ajudá-lo a tamponar um buraco, uma falta que é essencial ao sujeito. E aí os efeitos são nefastos.

     Atualmente, questões relacionadas a experiência do corpo na religião e ciência, no exercício sexual, nos regimes alimentares, treinamentos físicos, etc. podem definir ideais presentes na cultura estabelecendo parâmetros que acabam tornando-se verdadeiros imperativos às pessoas, deixando de lado a singularidade dos corpos. Não é à toa que os debates sobre o corpo e o que se faz dele  – como no aborto – sempre retornam à nível de tabu na sociedade. 

     Esse corpo ora me é próprio, ora alheio. Não o conheço totalmente. E quando acho que conheço, me surpreendo. As manifestações patológicas no corpo sinalizam algo do sujeito. Uma enxaqueca que persiste, uma falta de ar, uma erupção na pele, os pelos do corpo que caem, etc. Ao contrário do que se pensa, o corpo não fala. Quem fala é o sujeito do inconsciente. Tais manifestações da ordem de um não-saber colocam o indivíduo frente a possibilidade de se implicar ou não com o que não reconhece como seu. "Se não é meu, o que faço com isso?" Há quem se cale por não ter respostas. E há quem se utilize de outros recursos (fala, escrita, a arte) para ir em busca delas.

     Na arte, o corpo apresenta nuances e convoca os expectadores. Em sua conferência – no Encontro Internacional do Corpo Freudiano - Escola de Psicanálise realizado mês passado em Búzios - RJ – a psicanalista Paola Mieli ao falar do corpo faz alusão as intervenções artísticas, dentre elas, a de Marina Abramovic, dando destaque para a intervenção chamada de Imponderabilia realizada primeiramente em um museu na Itália com seu parceiro Ulay, também artista performático. Marina e Ulay ficavam nus, frente a frente na entrada do Museu. Os visitantes eram obrigados a passar pelo espaço limitado entre eles. Cada pessoa que passava tinha que decidir qual dos dois iria encarar. A reação dos visitantes diante da situação é o efeito mais intrigante – e cômico – da performance. Acredita-se que nesta situação a verdade de cada indivíduo é exposta por meio da situação incomum que precisa ser enfrentada. O melhor da performance consiste na tomada de posição do sujeito no momento em que é convocado. Assim como na vida.

 

Impoderabilia (Bolonha, 1977) 


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Por que Psicanálise?

Através de uma pergunta “simples" convocamos o leitor a pensar a questão que se desdobra na proposta do site: Por que transmitir a psicanálise nos dias de hoje? Pensar o lugar desta práxis na contemporaneidade permite-nos questionar os paradigmas atuais e como a psicanálise se posiciona diante de tantas Verdades. 

De uma ciência tão conhecida popularmente, presente nos ditos populares – como recalque associado a inveja, por exemplo – e que de alguma maneira – mesmo que torta, no senso comum – está presente na cultura, mas não menos repleta de pré-conceitos e ideais aliados a uma herança patriarcal, aristocrática e burguesa. As consequências disso são os efeitos no imaginário popular até hoje, seja no aspecto teórico ou em sua prática. 

Sem pretensão de em apenas um texto desconstruir pressupostos cristalizados – muitas vezes pelos próprios psicanalistas – nos ocorre como uma proposta possível escandir a ideia de cura que a psicanálise propõe ao sujeito: a cura pela fala ou a talking cure. A fala por si só promove cura? Que tipo de cura se trata na psicanálise? Vejamos.

Quando Freud resolve escutar e supor uma verdade no que diz sua paciente diante de seus impasses e questões, isso produz um efeito importante em seus sintomas. O fato de se ter uma escuta que privilegia o sujeito do inconsciente permite que esta fala endereçada a alguém (ao analista) produza efeitos no sujeito a partir de um inesperado, onde ele próprio (o paciente) confesse sua verdade e confesse sem sabê-lo, como diria Lacan. 

Se na época de Freud as histéricas ocuparam a cena com seus sintomas (paralisias, cegueira, surdez, etc), hoje, vemos manifestações clínicas que são expressões do sofrimento psíquico e apresentam-se como o mal estar na atualidade. São eles a síndrome do pânico, os transtornos alimentares, as manifestações psicossomáticas, as depressões, as dependências químicas, etc. No campo médico, manuais não nos faltam para dar conta dos inúmeros e infinitos diagnósticos.

Outra questão da atualidade seriam as consequências de um imperativo da felicidade (não importa como, seja feliz!) com o apelo para eliminar qualquer tipo de dor, tristeza, insatisfação. O que também torna problemático seriam, talvez, as vias para evitar o inevitável: o sofrimento, muitas vezes colocando a medicalização como única alternativa, tanto para adultos quanto para as crianças. Freud vai na contramão desta lógica da eliminação a qualquer custo, pois esse custo pode ter um preço alto para o sujeito.

Apesar de outros teóricos já terem pensado sobre a questão do inconsciente, a revolução freudiana se encontra na sua afirmação de que somos regidos pelo mesmo. De lá pra cá, mais de 100 anos se passaram desde a Interpretação dos sonhos (1900), e Freud nos deixa um legado consistente e vasto de sua teoria, mas, ao mesmo tempo, passível quanto aos diversos tipos de interpretação que dela se faz. Algumas interpretações rasas falam da psicanálise como uma ciência que aborda psicopatologias de uma época diferente, do século passado, e que não se aplicam aos dias de hoje. 

Seria a psicanálise uma ciência ultrapassada? Ou pior: a psicanalise é letra morta? Se considerarmos a psicanálise que em primeira instância fala sobre desejo: não. O desejo é o que move o sujeito, aquilo pelo qual uma pessoa luta sem se dar conta que está lutando. Uma busca constante articulada a uma falta estrutural que é o cerne de toda experiência humana. Portanto, essa falta que falamos é a causa do sujeito e causa de seu desejo. Algo estrutural, independe do tempo, lugar, cultura, sociedade. Desejar é humano. É esta a ética da psicanálise.

Questionar a psicanálise na cultura e sociedade atual pode ser uma maneira de pensar sobre um suposto hiato entre sua práxis e o sujeito. Se por um lado ela é vista como privilégio dos que frequentam os consultórios psicanalíticos, perpetuando o difícil acesso a massa, por outro ela se encontra à margem. À margem de quê? Talvez de um cientificismo, refém de um discurso que impossibilita o laço (social), inviabilizando as produções subjetivas, produzindo sujeitos no mínimo angustiados. 

Para a psicanálise é preciso coragem como num ato subversivo (por que não chamá-lo de ato analítico?) em que torna-se importante sustentar seu posicionamento à margem (do cientificismo, das Verdades, etc.) e seguir cada vez mais, numa proposta de avançar para além das paredes do consultório, romper os limites do divã e, quem sabe, fazer sua escuta ao alcance dos que também estão à margem. A partir dessa possibilidade fazemos questão de esclarecer algo que deveria ser óbvio: o inconsciente não tem classe, cor, nem gênero. Há um sujeito – e considerar isso já é um bom começo.

 

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Anastácia David

Carolina Prado

Lorena Bitar

Mariana Anconi