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O que pensamos sobre cinema - Time Escutatório

O que será que leva milhões de pessoas ao cinema ? Ouvir histórias ? Viver uma experiência nova? Encontrar respostas para um dilema? Assistir ao trabalho de um ator, atriz, diretor que admira? São inúmeras possibilidades, assim, nos propomos a pensar o tema do cinema, lançando a pergunta “O que você pensar sobre o cinema” a quatro pessoas que estão atravessadas e dedicadas a pensar, mas de perspectivas diferentes, tornando a construção de uma reflexão mais complexa e interessante.

O cinema é um universo. Um retorno a sua origem e etimologia nos ajuda a pensar o que mais está associado a esta arte. Cinema tem origem no francês cinéma, encurtamento de cinématographe, nome dado à sua invenção ao redor de 1890 pelos irmãos Lumière, a partir do grego kinema, “movimento”, de kinein, “mexer, deslocar, movimentar”. Se trata da arte que produz uma ilusão de movimento a partir de imagens fixas, será que podemos encontrar nos textos dos convidados algo desse movimento em suas histórias? Ou melhor: Que movimentos suas narrativas (histórias) geram em nós, leitores?

Há várias formas de contar uma história. Os filmes nos mostram isso de maneira interessante, como em uma sessão de análise em que adentramos e, mergulhamos nela. Há histórias que começam já pelo nó principal expondo ao espectador a questão de cara, há outras que recorrem a um estilo biográfico, com fatos e um enredo cronológico. Outras ainda, exploram uma misturas de tempos, em que passado, presente e futuro podem estar numa mesma cena. 

É humana a necessidade de contar histórias e registrá-las, é um "ato" como nos diz Diego Penha (psicanalista) no seu texto. É também um registro e herança às próximas gerações. Assim, como em seu texto, que traz à tona doces lembranças de uma infância com os avós e filmes, que pode ser passado às próximas gerações.

Estamos familiarizados no meio analítico com palavras como histórias, cena, sessão, mas ao aproximar demais as duas experiências corremos o risco de perder a especificidade e função de cada uma na cultura. No entanto, há algo que os aproxima, como no dado curioso da correlação do surgimento do cinema com o surgimento da psicanálise. Contemporâneos, tanto a psicanálise quanto a arte cinematográfica causaram grande revolução na cultura.

Em determinado momento, Sigmund Freud questiona-se sobre a possibilidade de conseguir expressar a atmosfera e as cenas daquilo que se fala quando se conta um sonho, por exemplo. Seria possível representar as formações do inconsciente, os mecanismos psíquicos à partir das imagens de um filme? 

Não à toa que inspirado na obra freudiana novas linhas de cinema foram criadas, o cinema surrealista bebe na fonte da psicanálise para expressar os caminhos alcançáveis com a construção cinematográfica. Teóricos da temática psicanálise e cinema apontam para essa questão como um "pé atras" de Freud. Outros afirmam que Freud atrasou a apresentação da psicanálise, com sua obra "A interpretação dos sonhos" para esperar a virada do século e acompanhar o movimento de transformação cultural do século XX.

No texto do crítico de cinema Márcio Sallem, primeiro convidado da nossa série, o cinema é uma arte plural que condensa outros registros artísticos seja pela narrativa, pela fotografia, atuação etc. Para Márcio, a arte cinematográfica assume importante papel social, com função de crítica e de registro histórico. Essas características podem ser bem apreciadas no cinema do tipo "cinema documentário", mas não só. 

O registro de imagem criado imprime a historicidade daqueles sujeitos envolvidos e o marco social de um filme é resposta daqueles que o assistem, é fruto desse encontro. Como o exemplo do clássico  "E o Vento Levou" (1939 de Victor Fleming) ou  "O homem Elefante" (1980 de David Lynch) e o atual e revolucionário "Pantera Negra" (2018 de Ryan Coogler). 

Para a atriz convidada Larissa Ferrara a atuação em cinema tem a ver com doar-se ao personagem e à condução do diretor. Tem importante relação com a entrega de si. Uma entrega corporal. Larissa faz pensar que, apesar de se ter um roteirista é o diretor quem conta o filme. “Você pode pegar um mesmo roteiro e entregar à diretores diferentes, com certeza, sairá filmes e perspectivas diferentes da mesma história. E é esse olhar que eu sinto que é essencial em um filme. Normalmente, os atores estão tão entregues e tão perto daquela estória e dos personagens que acabam não conseguindo ver o macro do filme e o diretor entra aí”. 

Temos então nessa grande tela o ato de contar histórias com os recursos artísticos para tal. Essa pluralidade artística confere à esse registro a capacidade de construção de uma atmosfera onde o que aparece pode fazer com que daquele que está assistindo se identifique ou sinta-se convocando à  pensar a história que está sendo contada.

Como no texto de Francisco Capoulade o cinema promove efeitos de sentir. Isso abrange a "experiência do cinema", fala sobre um encontro possível à partir do enredo do filme. Frase de Francisco quando cita Zizek "nunca é só prazer. O cinema também deve provocar angústia, também deve tocas nas coisas mais repulsivas de nós mesmos. Deve nos afetar com sua imagem som e palavra". O filme é potência representativa dos afetos. 

Assim, a “experiência cinematográfica” proporcionada por uma máquina que produz ilusões de movimento a quem assiste, permanece na cultura. Não se esvai como máquinas que ficaram num tempo passado. Os textos de nossos convidados também provocam movimento em quem ler. Um movimento de pensar esta experiência em diferentes aspectos fazendo com que nossa próxima ida ao cinema não seja a mesma. O cinema, persiste e ganha força quando transmite através de discursos, imagens e música, histórias que atravessam o tempo e, pessoas que se deixam ser atravessadas. 

 

Por Francisco Capoulade - Diretor

O que você pensa sobre o cinema?

Psicanalista e documentarista. Doutor em psicologia pela UFSCar e em psicanálise pela Universidade Paris VII. Mestre em Psicologia e  Bacharel em Filosofia, ambos pela PUC-Campinas. Coordenador do curso de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica pela UniFAJ. Membro da Associação Campinense de Psicanálise (ACP). Diretor, roteirista e montador do filme Hestórias da Psicanálise - Leitores de Freud (2016). Diretor do filme curta metragem Apuê (2012) e Produtor do filme documentário No Gargalo do Samba (2017). Atualmente, trabalha na pré-produção da continuação do "Hestórias da Psicanálise" e na produção do projeto "Pai nosso de cada dia".

Psicanalista e documentarista. Doutor em psicologia pela UFSCar e em psicanálise pela Universidade Paris VII. Mestre em Psicologia e  Bacharel em Filosofia, ambos pela PUC-Campinas. Coordenador do curso de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica pela UniFAJ. Membro da Associação Campinense de Psicanálise (ACP). Diretor, roteirista e montador do filme Hestórias da Psicanálise - Leitores de Freud (2016). Diretor do filme curta metragem Apuê (2012) e Produtor do filme documentário No Gargalo do Samba (2017). Atualmente, trabalha na pré-produção da continuação do "Hestórias da Psicanálise" e na produção do projeto "Pai nosso de cada dia".

Recentemente, assisti ao filme Juste la fin du monde (2016) de Xavier Dolan. Assisti por indicação de uma amiga. Não teria sido, na verdade, uma indicação, mas os efeitos que o filme provocou nela me despertaram interesse. A forma como ela falava do filme e a admiração pelo trabalho do diretor me fizeram ir em busca de assisti-lo. 

O filme é baseado na peça de teatro homônima de Jean-Luc Lagarde (1990) que conta a história de Louis, 34 anos, que retorna a sua cidade natal, após 12 anos de ausência, planejando contar para sua família que está doente de morte. Na adaptação de Dolan, Louis (interpretado por Gaspar Ulliel) é um homem introspectivo e contemplativo. Seu silêncio e sua aparente apatia são marcas indeléveis do personagem, porém, o que mais se destaca na trama é sua hesitação constante. O filme contém traços de mitos como Caim e Abel, Odisseia de Homero e até mesmo a parábola do filho pródigo. Isso funciona muito bem na história contada pelo diretor canadense. Por outro lado, Dolan foge da ideia de forjar uma história baseada na jornada do herói. Louis está morrendo e não há nada a ser feito. Não se encontrará lá nem uma revelação messiânica nem miraculosa. É nesse contexto que ele faz emergir os conflitos familiares, principalmente com o irmão mais velho Antoine (interpretado por Vincent Cassel), ponto forte do filme. A cena do carro é impressionante.

Como se trata de uma adaptação para cinema, o diretor possui outros instrumentos para atingir o espectador, não conta apenas com a interpretação dos atores. Conta também com câmeras, lentes, iluminação, som, trilhas, montagem, etc.. Daí, toda essa provocação que Dolan nos faz está bem visível em sua linguagem cinematográfica. Os planos assumidos em campo-contracampo deixando muitas vezes os rastros dos objetos pelo caminho, como que entrecortando o espaço, a câmera na mão tremendo mais do que o necessário, a lentidão de planos em travelling são técnicas que o permitem construir uma linguagem cinematográfica que provoca o espectador. Tais técnicas podem ser vista e são reconhecidas nos trabalhos de Lars von Trier e Terrence Malick, por exemplo. Porém, cada um se utiliza disso de modo bem peculiar. Dolan exagera e isso pode produzir uma certa inquietação ou mesmo irritação. Podemos discutir se a linguagem utilizada por ele funciona bem ou não, e até mesmo se agrada. No entanto, há que se reconhecer que ele produz uma obra cinematográfica.

Kiarostami disse, em algum lugar, que um filme é 50% da cabeça do diretor e os outros 50% do espectador. Eu não me atreveria a dizer que esse cálculo está correto, mas prefiro imaginar que um diretor pensa o filme, pensa nos efeitos que o filme pode provocar no espectador. Mesmo nos filme de puro entretenimento, os efeitos são calculados. Quem tiver curiosidade é só ler o trabalho de Christopher Vogler, a jornada do escritor. No caso dos filmes chamados de arte o cálculo é outro pois se quer atingir outro registro. 

De alguma maneira, podemos incluir Lacan aqui. Em seus seminários, Lacan pensava nos efeitos de sua fala no público que o seguia. Mais do que construir uma teoria repleta de conceitos rígidos, ele pretendia movimentar uma outra forma de pensar. Ele queria acessar o inconsciente. Então, seus seminários eram antes uma experiência do pensar psicanalítico do que a exposição de teoremas e conceitos.  

A experiência cinematográfica, guardada a devida proporção, é uma experiência de um outro pensar. Na cena não há apenas a cena, mas há a outra cena também. Acredito que seja isso que João Moreira Salles diz em seu filme No intenso agora (2017): “nem sempre a gente sabe o que está filmando”. Ele diz isso quando toma a imagem de uma menina que começa a dar seus primeiros passos e toda a família participa, no entanto, a babá, que a ajuda no começo, retira-se de cena no momento em que a menina engata a caminhada. Provavelmente não tenha sido isso que se queria filmar, mas essa outra cena está lá. Evidentemente esse exemplo parece mais claro quando tratamos dos filmes documentários. Todavia, se olharmos com atenção isso está sempre presente na obra cinematográfica, ou pelo menos deveria, já que se trata de outro cálculo. É esse cálculo que se abre a outra cena que está na cabeça dos cineastas. 

Por fim, voltando ao filme de Dolan, lembro-me do que Zizek disse a respeito da experiência que se dá na sala de cinema. Nunca é só prazer. O cinema também deve provocar angústia, também deve tocar nas coisas mais repulsivas de nós mesmos. Deve nos afetar com sua linguagem: imagem, som e palavra. O cinema é arte.

Isso é o que eu penso hoje sobre o cinema.

Por Larissa Ferrara - Atriz

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Meu nome é Larissa Ferrara, tenho 28 anos, sou atriz e moro em São Paulo. 

Eu tinha apenas 14 anos quando fiz minha primeira peça. Eu, tão jovem, já havia descoberto o que eu queria fazer pro resto da minha vida e sempre considerei isso metade do caminho andado. Mesmo que na época, eu não fazia ideia de que a outra metade do caminho estaria recheada de dúvidas, incertezas, frustrações, decepções e muitos egos feridos. Claro que sempre bem equilibrado com as coisas boas (às vezes nem tanto), mas posso dizer que apenas um trabalho bem feito, uma personagem bem construída, um processo intenso e com muito aprendizado, já me fortalecem e me dão gás para continuar nessa busca e luta. 

 O cinema sempre foi minha paixão, tanto para atuar como para assistir. Acredito ser um meio de expressão bem completo, pois contém imagens, música, movimento, seres humanos, relações, fotografia, estórias, efeitos sonoros e etc. É como se fosse um conjunto de todas as artes em uma coisa só, fazendo com que a imersão do espectador seja mais rápida e intensa. 

A minha experiência como atriz no universo cinematográfico sempre foi emocionante. Sinto que cada personagem me fez viver diversas situações e relações que provavelmente eu, Larissa, nunca viverei. E isso para mim, é simplesmente mágico. É entender e aceitar diversas perspectivas diferentes sem julgamento. 

Eu, por exemplo, já vivi uma personagem que estava em uma situação extrema, onde ela havia sido rejeitada em um emprego por motivos psicológicos e era simplesmente o sonho e a vida dela. A reação dela, foi vingança, violência e destruição. Eu tive que viver aquilo, acreditando verdadeiramente que aquela era a única saída para ela. E vivi. Foi uma loucura, pois tive que estudar tudo sobre surtos psicóticos, psicopatas e afins. 

Uma outra vez, fiz uma personagem que era uma jornalista e precisava escrever uma matéria completa sobre as redes sociais de relacionamentos afetivos, como o Tinder. Ela namorava, mas sentiu que só conseguiria escrever se realmente vivesse tudo aquilo. E foi o que ela fez, entrou no aplicativo e começou a encontrar e ter varias relações sexuais com diversas pessoas diferentes. Nesse filme, eu tive que entender a cabeça de uma pessoa ambiciosa com tamanha vontade de acertar e fazer algo perfeito que acaba se sujeitando a ações na qual nunca havia feito e tudo isso para escrever a melhor matéria para uma revista. 

Enfim, foram diversas personagens e estórias diferentes que me fizeram perceber o quão complexo é a cabeça de um ser humano. 

A figura mais importante do cinema (para mim) é o diretor. O roteirista escreve a história, mas o diretor é quem a conta. Você pode pegar um mesmo roteiro e entregar à diretores diferentes, com certeza, sairá filmes e perspectivas diferentes da mesma história. E é esse olhar que eu sinto que é essencial em um filme. Normalmente, os atores estão tão entregues e tão perto daquela estória e dos personagens que acabam não conseguindo ver o macro do filme e o diretor entra aí. 

E é por isso que Kubrick, Bergman, Kurosawa, Polanski, Haneke, Truffaut, Hitchcock, Almodóvar, Scorsese, Fellini, Tarantino, Woody Allen, são alguns dos melhores diretores com os melhores filmes de todos os tempos. O jeito que cada um conta uma história é diferente, autêntico e cada uma tem uma linguagem específica. É como ver um quadro do Kandinsky, você imediatamente reconhece que a pintura é dele, pois ele tem um estilo próprio. 

O cinema é uma arte em conjunto do diretor, dos atores, do roteirista, da figurinista, do editor, da equipe técnica e etc. Quando todos estão alinhados, o filme tem uma grande chance de ficar interessante.

Enfim, o cinema me traz vivência, potência, entendimento, aprendizado, milhares de emoções e principalmente, me faz olhar para dentro, fazendo com que eu descubra cada vez mais sobre eu mesma. 

 

Por Diego Penha - Psicanalista

Psicanalista. Doutorando em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Membro do Grupo de pesquisa CNPq Sujeito, sociedade e política em psicanálise (USP) e do Laboratório Psicanálise Política e Sociedade (PSOPOL). Atualmente pesquisa as relações entre Psicanálise, Política, Arte e Horror. Autor do livro: "Teorias de Freud: Descobrindo o Inconsciente". Editor da revista digital Lacuna: uma revista de psicanálise ( lacunarevista.com ). Colunista de cinema e quadrinhos para o site Mob Ground ( mobground.net ). 

Psicanalista. Doutorando em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Membro do Grupo de pesquisa CNPq Sujeito, sociedade e política em psicanálise (USP) e do Laboratório Psicanálise Política e Sociedade (PSOPOL). Atualmente pesquisa as relações entre Psicanálise, Política, Arte e Horror. Autor do livro: "Teorias de Freud: Descobrindo o Inconsciente". Editor da revista digital Lacuna: uma revista de psicanálise (lacunarevista.com). Colunista de cinema e quadrinhos para o site Mob Ground (mobground.net). 

Uma das primeiras coisas que me vem à cabeça quando penso em cinema são os finais de semana que passei junto à minha avó durante minha infância e adolescência. Depois que ela me buscava em casa, passávamos religiosamente em uma das agora extintas “locadoras de filmes” e escolhíamos três filmes cada, um para sexta, outro para o sábado e um para o domingo. Obviamente, assistia os meus três na sexta-feira e aproveitava sábado e domingo para assistir os filmes que ela havia escolhido. Assim como ocorreu comigo, suponho que para muitos que viveram a virada do século e principalmente os anos 1990, o cinema e os filmes faziam parte de um circuito afetivo do cotidiano. Filmes lembram minha avó, assim como cocada lembram minha outra avó. Esse laço afetivo com cinema, mediado pela conexão com minha avó, ao passar dos anos deslocou-se para primos, namorada e com o tempo foi-se deslocando para outras pessoas e atividades. Mesmo que esse tipo de laço com o cinema pareça cada vez mais incomum, não acredito que tenha desparecido completamente, assim como não acho que ela foi exclusiva dessa geração. 

A psicanalista Felícia Knobloch (1) certa vez narrou a história de uma mulher polonesa que lhe contava sobre sua experiência de trabalho forçado em um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Ela lembrava de passar os dias na plantação de beterraba com o primo, enquanto este lhe descrevia as histórias dos filmes que havia assistido no cinema antes de estourar a guerra. Tal foi o efeito dessas conversas, que quando a garota polonesa se refugiou no Brasil seis anos depois, uma das primeiras coisas que quis fazer foi entrar em uma sala de cinema e ver todos os filmes em cartaz. Acho que essa história toca o ponto nevrálgico do que entendo por cinema, pois nela, pouco importa quais foram os filmes assistidos pelo primo ou pela garota polonesa. O que importa é a presença de certa “experiência do cinema”.

O que chamo aqui de “experiência” do cinema está relacionado à ideia de transmissão, assim como a de repetição e reprodução. Para exemplificar, retomo outra lembrança de minha infância. Certa vez, sentado nas escadarias da escola, comecei a ouvir a conversa entre dois garotos sentados ao lado. Um contava ao outro sobre o filme que havia assistido na noite anterior: O brinquedo assassino. O ouvinte e eu não havíamos visto o filme, principalmente por que para mim, somente a ideia de conceber a existência imaginária de um “Chucky” já era insuportavelmente apavorante. Lembro desta tarde como se tivesse “assistido” o filme através das palavras deste garoto que nem conhecia. Ouvia sua história de terror, como se estivéssemos sentados ao redor de uma fogueira. O cinema é herdeiro da fogueira.

No geral, contar histórias é o que o cinema faz. Claro que existem filmes e cineastas que se esforçam para romper com isso, mas por algum motivo o cinema como conhecemos apenas sobrevive e se expande devido à narrativa hegemônica. Mesmo que se experimente e que se alcance uma nova subversão técnica e formal que mude os paradigmas do que conhecemos como arte cinematográfica, o ato de contar histórias marcou a história do cinema e o transformou em uma forma de entretenimento que está especificamente relacionada à esse ato. 

Recentemente, invertemos um tanto essa relação com a potencialidade do cinema. A própria ideia de spoiler denuncia essa inversão. Subitamente, passamos a acreditar que exista certa experiência no ato de assistir um filme pela primeira vez, que pode ser completamente arruinado se soubermos de determinado acontecimento do enredo. Há vinte anos atrás Titanic chegava aos cinemas. Tenho a lembrança de ter ido vê-lo no cinema onze vezes até sair de cartaz, mesmo sabendo que Jack morreria congelado no final (chegava até a torcer para que magicamente ele sobrevivesse). Saber o fim do filme, não mudava minha experiência em nada. Acho que é um pouco disso que escapa às pessoas quando leem as ideias de Walter Benjamin (2) sobre o tema: cinema é repetição. Isso faz de um filme algo que não busca ser tão facilmente descartado, ou seja, a reprodutibilidade técnica é também uma estratégia que a arte encontra para sobreviver no capitalismo – o que não deixa de ser paradoxal com a própria ideia de indústria cultural.

Os filmes que aluguei durante os anos com a minha avó não importam, muito menos quais fui ver no cinema com meus primos ao longo da minha adolescência. Assistir filmes e ir ao cinema era uma coisa que gostávamos de fazer juntos e simplesmente fazíamos. Claro que lembro especificamente de alguns filmes que me marcaram, mas posso revê-los a qualquer momento. Entretanto, a memória de deitar no chão ao pé do sofá com meus primos para ver um filme durante as férias, as conversas com determinados amigos na saída do cinema, ou os argumentos que eu inventava para justificar à minha avó porque deveríamos alugar determinado filme, são experiências que não voltam mais.

A psicanálise parece sempre ter o que dizer sobre o que representa determinado personagem ou determinada cena, o que desloca o que e quem está condensado em quem. Gostaria que falássemos mais sobre os filmes que nos emocionam e não entendemos o porquê. Em geral, as teorias psicanalíticas e cinematográficas parecem dar conta de muitos aspectos do cinema, mas pouco tem se importado com o fato de que podemos odiar determinada película, acha-la de fato ruim e ainda assim nunca esquecer uma cena, uma trilha sonora, ou uma fala que nos toca nos mais profundos afetos trazendo-os à tona. Recentemente, a cena final de La la land teve esse efeito. Aquele de nó na garganta. Assim como quando em Cinema Paradiso, Alfredo e Toto projetam um filme nos muros da rua para as pessoas que ficaram de fora do cinema. O mesmo acontece com o final e outras cenas de Rebobine, por favor. Não são exatamente meus filmes favoritos, mas me fazem acreditar no impossível.    

 

(1)  KNOBLOCH, Felicia. L’expérience morcellaire et celle de la rupture dans les situations traumatiques. In: Colloque Aix-Marseille Université: Traumatisme et Transmissions: Violence de Guerre, Urbaine et dans la Culture, 2015, Marselha. Conferência. 

 (2) BENJAMIN, Walter. (1989[1936]). A obra de arte na época de seu reprodutibilidade técnica. Porto Alegre: Zouk, 2014. 127 p. Tradução de Francisco De Ambrosis.

 

Diego Amaral Penha

 

Por Márcio Sallem - Crítico de cinema

O que você pensa sobre cinema?

 

Márcio Sallem é Crítico de Cinema, editor do site Cinema com Crítica (   www.cinemacomcritica.com.br    / @cinemacomcritica no instagram), e amante desta arte desde de suas primeiras lembranças.

Márcio Sallem é Crítico de Cinema, editor do site Cinema com Crítica (www.cinemacomcritica.com.br / @cinemacomcritica no instagram), e amante desta arte desde de suas primeiras lembranças.

Antes de discutir cinema, preciso refletir sobre meu sentimento com relação à arte. Aposto no chavão que relaciona a arte à vida, esta não como sinonímia de existência, e sim de atuação e modificação do mundo ao redor, para chegar à conclusão de que aquela, de modo geral, nasce da profunda inquietação do ser humano consigo próprio e com o entorno. A arte, então, é resultado de tribulações, desencadeadas por questões socioeconômicas, históricas ou políticas, interpessoais ou intrapessoais, que promove a reflexão a partir de seu conteúdo e sua estética. O cinema não é diferente. 

Das artes estabelecidas no Manifesto das Sete Artes de Ricciotto Canudo, é a caçula e também a mais plural. Digo isto sem a pretensão de menosprezar as demais, mas de enaltecê-las. Até porque o cinema não tem a pureza primordial das antecessoras; é produto da miscigenação, uma amálgama com as impressões digitais da literatura (o roteiro), da música (a trilha sonora e o som), da pintura (a fotografia), da arquitetura (o design de produção), das artes cênicas (a movimentação) e da pintura (fotografia). Nesse sentido, o cinema é, desde sua gênese conceitual, uma ferramenta artística apta a representar a diversidade humana do mundo em que vivemos, assim como suas contradições e suas incongruências. 

Assim, uma das facetas da arte cinematográfica é a de proporcionar o debate de temas atemporais, que povoam o imaginário popular, ou problemáticas contemporâneas, que preenchem a grade dos telejornais, no formato de narrativa, mais acessível ao espectador. Quantos de nós aprendemos sobre as guerras mundiais ou as incursões norte-americanas em países estrangeiros a partir do olhar crítico e reflexivo das lentes cinematográficas? Quantos não descobriram meios de tatear e aceitar questões existenciais e tecnocêntricas estimulados por ficções científicas, fantasias ou terrores, cujo sucesso depende da habilidade em costurar metáforas e humanidade na embalagem do extraordinário? É, em verdade, um instrumento para expandir a inteligência do espectador sobre determinada matéria, sem exauri-la, até por representar o ponto de vista do autor (em geral, o diretor, embora este não detenha sua titularidade exclusiva) sobre determinado ponto, contra o qual, frise-se, temos a ampla liberdade de manifestar nosso inconformismo. 

Em sendo assim, o cinema estimula o espectador a admitir opiniões divergentes e a desenvolver a empatia diante dos dramas retratados. Isto porque a arte acolhe, de braços abertos, histórias acerca de temas que a sociedade e seus representantes consideram tabus e, logo, rejeitam, contaminados, muitas vezes, por julgamentos prévios e preconceitos, tais como aborto, a interrupção terapêutica da vida, a igualdade de direitos, a crise dos refugiados, a falência do capitalismo rentista e neoliberal e outros. O leque de tópicos limita-se somente à imaginação e ao que a realidade proporciona como inspiração ao oleiro responsável por moldar a obra cinematográfica, que assume, ao longo do tempo, como toda forma de arte, novas interpretações e oferecendo reflexões mais superlativas. 

Isso sem tergiversar da vocação cinematográfica de ser a porta de entrada para que todo espectador possa acessar o mundo artístico, mesmo que a narrativa em questão não provoque tantas discussões, porém apenas proporcione duas horas de entretenimento passageiro. O escapismo, a propósito, está inserido no arcabouço cinematográfico como peça fundamental para que haja a apropriada imersão na narrativa, e, neste sentido, o ambiente do cinema é o lugar mais apropriado para transportar um espectador fora do mundo real. A escuridão e o silêncio são substituídos pela imagem dominante e pervasiva, que nasce detrás de nós e sobre a qual não temos controle nem opção senão sucumbir ao contrato tácito que o espectador assina com o realizado quando adquire o ingresso. Ora, dadas tais características de exibição, o cinema assemelha-se a uma espécie de hipnose coletiva, em que cada espectador é convidado a visitar as memórias e o subconsciente de personagens imaginários. 

Ante isso, penso que o cinema pode ser descrito como a arte da empatia e da convivência, ainda que temporária, entre o espectador, o autor da obra, os personagens e o contexto narrativo, capacitando aquele a reentrar na sociedade mais apto a entender o entorno em que habita e o seres humanos com que se relaciona. 

 

 

O que você pensa sobre ... cinema?

E voltamos com mais uma série de posts com convidados de diferentes áreas ! Essa é uma série que surgiu com a pergunta “o que você pensa sobre ...” Já falamos sobre o corpo e sobre a tecnologia na transmissão de saberes. Agora nosso terceiro tema é sobre CINEMA ! E para isso teremos a participação de um time de convidados muito especiais !


Com uma frequência semanal teremos 4 textos no total, desenvolvidos por: um crítico de cinema (Marcio Sallem), um psicanalista (Diego Penha), uma atriz (Larissa Ferrara) e um diretor (Francisco Capoulade) que dirão o que pensam a respeito do tema “cinema”. Partindo da ideia de que não há A resposta (única resposta), queremos ouvir/ler as respostas a partir da perspectiva particular e subjetiva de cada profissional.


Além disso, desejamos abrir um espaço de interlocução e colher em suas escritas aquilo que faz questão de alguma forma, e como efeito, nosso time produzirá um texto ao final da serie propondo uma interlocução com o que foi escrito pelos nossos convidados. Vocês estão prontos ? Esperamos a participação de nossos queridos leitores !

O que pensamos sobre o uso da tecnologia na transmissão de saberes? por Escutatório

De início gostaríamos de destacar o efeito dos textos de nossos convidados do mês de junho sobre nós, psicanalistas que escrevem para o site. A pergunta escolhida por nós e feita a cada um deles foi pensada a partir do contexto de comemoração de 1 ano do site, no intuito de re-pensar nosso próprio fazer através do uso da internet/site para a publicação de conteúdo.

Quando quatro analistas se propõem a levar em conta a ideia de transmissão, desenvolve-se um projeto (Escutatório) com alguns objetivos específicos. Talvez o primeiro deles seja o de levar "a peste" a outros espaços e lugares, abrindo a possibilidade do debate e discussão de temas e conceitos complexos e que exigem este exercício de crítica. O segundo objetivo está relacionado a escrita e a produção de textos publicados no site, mas ao mesmo tempo, também está para além disso, pois entendemos que o nosso fazer circula por outros lugares – não só virtuais –  seja nos consultórios escutando nossos analisandos, seja em palestras explorando temas ou mesmo em supervisão discutindo casos.

Os textos escritos e publicados no site expressam a tentativa de não "falar sobre" a psicanálise, mas de abordar temas que concernem ao humano atravessados pela psicanálise, com o cuidado de nós mesmas nos fazermos entender aquilo que está sendo escrito, evitando, quem sabe, o que já se conhece por "lacanês", uma vez que escrever/falar lacanês só o próprio Lacan, pois fora deste contexto, vemos como tentativas frustradas de encarná-lo. Assim, ao evitar uma escrita rebuscada (cansativa?) estamos simplesmente convidando o leitor a transitar pelos conceitos,  ideias e temas psicanalíticos de Freud a Lacan.  Além disso, convidamos também para o diálogo pessoas que atuam em outras áreas com formas diferentes de compreender o mundo. Como foi o caso no mês de junho. 

Se o nosso objetivo com a programação de junho foi o de repensar a própria prática a partir do site e do uso da tecnologia, acreditamos que o objetivo foi alcançado, pois com a leitura dos textos dos convidados – Gabriel, Caio e Christian – fomos tomadas por um efeito inesperado que gerou um reposicionamento nosso quanto ao conceito de transmissão para a psicanálise. Por isso, agradecemos aos três por terem nos proporcionado esta experiência a partir do que escreveram e pensaram sobre a pergunta: "O que você pensa sobre o uso da tecnologia na transmissão de um saber?" 

O reposicionamento em relação ao conceito de transmissão, está orientado pela ideia de causa. A transmissão não está dada (a priori), ela opera a partir de um discurso que tem o saber como a produção de uma verdade do sujeito: o discurso do analista. Como bem disse Christian em seu texto, a transmissão está do lado de quem a oferta e não de quem recebe, ou seja, está do lado de quem opera tal discurso. Quanto a nossa pergunta que compõe o título deste texto, consta nela a tríade saber-transmissão-tecnologia, o que exige de nós um esforço e tempo maiores para um aprofundamento, no entanto, isso não nos impede de expor algumas construções possíveis em costura com os textos dos convidados.

Nosso convidado Caio Gondim, em um dos seus apontamentos, explora a tecnologia como ferramenta que trabalha na lógica da escala e da acessibilidade. Pontos fortes que justificam por exemplo o crescente investimento na área de tecnologia da informação. Tal lógica parte do problema que muitas pessoas não tem acesso a educação e que com a internet esse número pode vir a diminuir, uma vez que há a possibilidade do e-learning. Nesse sentido, a tecnologia tem como um de seus objetivos aumentar o número de pessoas que tem acesso a informação e ao conhecimento. Entendemos que a ferramenta (tecnologia/internet) é a mesma que a utilizada por nós, no entanto, os objetivos são diferentes,  pois publicamos conteúdo no intuito de abrir a discussão, apresentar disparadores e construir um movimento em torno da teoria e da prática na psicanálise. Neste sentido, se a área de TI tem como um de seus objetivos a "massificação" da informação (quanto o maior número de pessoas acessarem melhor) esta mesma massificação aparece para nós como efeito, mesmo não sendo nosso objetivo. 


Quanto a "outra face" da tecnologia, Gabriel Vitturi explora em seu texto o caminho da crítica para lidar com as obscuridades da tecnologia: distantes da neutralidade, alinhados aos efeitos de vigilância excessiva, ameaça da privacidade, rastreamento dos passos daqueles que se aventuram no espaço virtual. Esse recorte nos adverte também quanto aos riscos, por exemplo, de sermos capturados pela sedutora polaridade consumo–narcisismo tão presente nas redes sociais.

A contribuição feita pelo texto do Christian Dunker nos remete o tempo todo a questões importantes do lado dos psicanalistas, que implicam em uma posição destes quanto ao uso da internet e das redes sociais. Inclusive, este pode ser um espaço ocupado pelos psicanalistas, mas não substitui o encontro "presencial" ou "corpo a corpo". Além disso, ele retoma o conceito de transmissão, o articula à formação do analista e que a tecnologia pode estar presente em tudo isso. Contudo, não há garantias que uma transmissão se dê, pois diferente da ideia de ensino, não está relacionado as questões da aprendizagem, está para além disso. O aspecto que irá diferenciar a ideia de transmissão para a psicanálise dos demais saberes é o Inconsciente enquanto causa. 

Um ano após a rotina de escrever textos para as colunas do site sobre temas atravessados pela psicanálise e também pela experiência de cada uma com a transmissão, voltamos a pergunta: O que e de que forma se transmite em psicanálise? Relançamos a presente questão para que o debate não se encerre e, esta seja uma questão sempre presente na práxis daqueles que se propõem a escutar com o objetivo de produzir um saber (verdade) do sujeito.

 

Anastácia David

Carolina Escobar

Lorena Bitar

Mariana Anconi

 

O que você pensa sobre o uso da tecnologia na transmissão de um saber? Por Caio Gondim

Caio Gondim é engenheiro de Software no The New York Times.

Caio Gondim é engenheiro de Software no The New York Times.

Não é de hoje que, como espécie, tentamos melhorar nossas habilidades como contadores de histórias. Começamos usando símbolos para indicar objetos, evoluímos para a escrita e, desde então, estamos a procura de algo novo (potencialmente melhor) para repassar conhecimento.

A tecnologia veio nos dar mais ferramentas para esta tarefa tão humana. Já se foi rádio, TV e Internet. Cinema mudo, com cores, 3D e até com cheiro. Realidade aumentada e virtual.

Abaixo cito 5 pontos fortes no uso da tecnologia na disseminação de conhecimento de uma forma geral.

 

Imersão

Se empatia é a capacidade de um indivíduo se por no lugar do outro, imersão é a capacidade de por o outro em um lugar que não este. Experiências imersivas são aquelas que se assemelham a experiências reais.

Há anos inventamos e melhoramos dispositivos para enganar nossos sentidos e propiciar uma experiência de algo artificial o mais próximo possível do real (por mais absurda que esta seja). Telas com alta resolução onde pixels individuais não podem mais ser vistos; óculos 3D que adicionam uma sensação de profundidade; equipamentos de som surround; …

A tecnologia nos dá ferramentas para aumentarmos a imersão do leitor na história contada. Podemos ir além do texto e mais próximo ao que foi vivenciado pelo autor.

Abaixo um exemplo de tecnologia como recurso de imersão feito pelo The New York Times. Ele foi gravado em 360º e retrata a batalha pela cidade de Falluja, no Iraque, que estava sob posse do ISIS .

Link:

The Fight for Falluja
Embed with Iraqi forces as they retake a city from ISIS - and experience the battle's aftermath.www.nytimes.com

Escala

Com a internet conseguimos disponibilizar informação para um grande número de pessoas de forma mais barata que o convencional método que é treinar professores, criar instituições, e ligar estas a conglomerados populacionais através de estradas.

Países em desenvolvimento, onde a infra-estrutura é precária e professores escassos, estão se beneficiando com o ensino a distância (e-learning), já que é necessário um menor investimento para alcançar mais pessoas.

Acessibilidade

Conteúdos digitais são mais fáceis de serem adaptados para grupos com algum tipo de deficiência física ou cognitiva.

Para deficientes visuais temos leitores de tela. Para deficientes auditivos temos legendas (já podendo estas serem geradas sob demanda). Todos estes problemas difíceis ou não-práticos de serem resolvidos sem tecnologia.

Mas acessibilidade não se limita apenas a fornecer acesso a deficientes físicos ou cognitivos, mas sim para todos. Existem pessoas que, literalmente, não possuem acesso a uma escola ou biblioteca. Para estas, a internet é a única forma de acesso ao conhecimento gerado por outros.

Logística

Atualizações e novas publicações são mais baratas e rápidas de serem entregues pela internet. O autor atualiza seu website e automaticamente todos seus leitores estão com a última versão, em todo o mundo. No pior do casos é necessário o download de um novo PDF.

Imaginem tentar replicar isso com livros físicos… Uma tarefa cara e demorada. Por isso a necessidade do filtro por parte das editoras na escolha de novos títulos. A impressão de um novo livro é cara.

Mas na internet somos todos autores em potencial.

Interatividade

O meio digital é interativo. A informação não só apenas flui do autor (produtor) para o leitor (consumidor). O leitor pode interagir com o que foi criado e a criação mudar de acordo com o que foi inserido. É criada uma via de mão dupla, onde antes a informação fluía em um único sentido.

Abaixo um outro trabalho feito pelo time de interatividade do The New York Times, explicando como o Uber utiliza truques psicológicos para manter os motoristas nas ruas.

Link:

How Uber Uses Psychological Tricks to Push Its Drivers' Buttons
The secretive ride-hailing giant Uber rarely discusses internal matters in public. But in March, facing crises on…www.nytimes.com

Espelho preto

Mas os mesmos aparelhos que tanto ensinam, também distraem. Ao mesmo tempo que temos uma biblioteca de Alexandria no bolso, há um mundo de distrações e prazeres instantâneos a um clique de distância.

A tecnologia, assim como o fogo e a pólvora, são apenas ferramentas. Cabe a nós decidir como usá-las.

O que você pensa sobre o uso da tecnologia na transmissão de um saber? por Christian Dunker

Por Christian Dunker

Christian Dunker é psicanalista, professor Titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Seu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015), lhe rendeu seu segundo prêmio Jabuti na categoria de Psicologia e Psicanálise. 

Christian Dunker é psicanalista, professor Titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Seu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015), lhe rendeu seu segundo prêmio Jabuti na categoria de Psicologia e Psicanálise. 

Do início ao fim de seu ensino Lacan associou o inconsciente ao saber, seja ele um saber suposto, um saber em dialética com a verdade ou ainda um saber como meio de gozo. Isso culmina na ideia do inconsciente (em alemão Unbewusst) transliterado para o francês une-bévue (uma aberração, erro, espanto) do saber. Se o inconsciente se estrutura inicialmente como uma linguagem, ele é também momento de uma dialética com o saber. A experiência recente com uma rede mundial de computadores corresponde a uma reorganização dos modos de saber, que traz consigo uma redefinição de fronteira entre o público e o privado, bem como dos suportes materiais e práxicos da linguagem. Lacan insistiu muito sobre as variações dos modos de linguagem, sempre extraindo consequências para nossos modos de subjetivação, inclusive em sua dimensão histórica. Neste sentido vamos encontrar o tema da carta de amor no surgimento do romance provençal, a importância subjetiva da noção de obra em Joyce, o tema do mito e da história no debate entre as formas orais e escritas de cultura.   

    Torna-se óbvio, neste contexto, afirmar que a mudança de meios representada pela vida digital afeta nossos complexos discursivos, nossos regimes de enunciação e nossa experiência de fala. Há sintomas que anunciam isso. Crianças com mutismo seletivo, autistas que encontram nas facilidades da escrita digital um meio expressivo bem como neuroses que se organizam em torno da temporalidade digital, que é muito diferente do tempo da fala ou da experiência intervalar da comunicação epistolar ou do sistema de publicação que envolvia a forma livro. 

    Zizek, em seu ensaio pioneiro, de 1999, perguntava se seria possível atravessar a fantasia no ciberespaço.  Seu argumento contra os pós-modernistas, que viam o espaço digital como uma matéria prima para o exercício da liberdade e flutuação de identidades, que a vida digital mostraria mais e mais a nossa prisão fantasmática, induzindo não a liberdade mas a constatação de nossa pobreza imaginativa, propiciada pela suspensão de certos limites de linguagem e de comunicação, por exemplo, uso de pseudônimos, anonimato e possibilidade de entrar em espaços privados com alta densidade erótica e pornográfica. De certa forma Zizek tinha razão. Na internet quem tem muito o que dizer o dirá com maior repercussão e com um nível de alcance translinguístico e transcultural jamais imaginado. Por outro lado, aqueles que tem pouco a dizer tendem a aumentar o volume da voz e se verão expostos em sua pequenez ou seu sentimento de irrelevância.  Muitos tem associado tais modos de relação com a emergência da cultura do ódio, no Brasil, com a cultura do ressentimento, como a dos jovens nerds solitários do “4chan” que ajudaram a eleger Trump. Há indícios que certos processo de radicalização e de alistamento em aventuras como Estado Islâmico e terrorismo dependam de certos efeitos discursivos tonados possíveis pela vida digital. 

    Na psicanálise teremos efeitos ambíguos como estes. Por isso suspeito um pouco da hipertrofia da noção de transmissão em detrimento da ideia mais freudiana de formação. A formação é um trabalho de quem recebe, se responsabiliza e presta contas, pública e privadamente sobre seus progressos na relação com o saber, que caracteriza o “autoriza-se por si mesmo e por mais alguns”. A transmissão parece-me um destes conceitos que eram revolucionários na época em que Lacan os cunhou, mas que se tornaram radioativamente ideológicos em nossa época. A transmissão para Lacan era um processo indiscernível da tese de um discurso que não seria do semblante, e de uma crítica da noção de autoria em sua conexão literária com o conceito de obra. A transmissão é de quem faz não de quem recebe. Uma grande ideia que, no entanto, pode alinhar a psicanálise contemporânea com uma massa de transmissores, anônimos ou inconsequentes, tornando o autorizar-se por si mesmo uma espécie de versão pós-moderna do self-made-man, ou seja, o self made analist

    Enquanto discutíamos a radicalidade da Escola de Lacan em 1967, acontecia de tudo na internet: gente querendo profissionalizar a psicanálise como uma seita religiosa, gente vendendo carteirinha de psicanalista ou manual com o tamanho exato que um divã deve ter, gente criando o código de ética dos psicanalistas, gente declarando abertamente a psicanálise como uma pseudociência, gente vendendo formação psicanalítica on-line, gente dizendo que a psicanálise era uma invenção dos nazistas ou dos esquerdistas, gente dizendo que a psicanálise estava por trás de ou incorporada em tudo quanto é tipo de psicoterapia sugestiva. O espaço público, quando ele acontece tem horror ao vácuo, se você não ocupa alguém o fará por você. Infelizmente analistas estabelecidos e garantidos, não só não querem se arriscar nesta barbárie, como não contribuem muito para que o problema que se coloca para os mais jovens, em termos de percurso de formação e complexidade do processo de autorização, seja repensado.  Não precisa ser uma oposição simples entre a transmissão vertical e genealógica ou a transmissão horizontal em superfície infinita da experiência digital. Acredito em transmissão transversal, não sem formação pessoal, direta, sem procuração ou anonimato. 

    É certo que a reorganização e disponibilidade do saber, como ordem simbólica de enunciados torna o estudo, a pesquisa e a divulgação das ideias psicanalíticas uma experiência inédita. A antiga autoridade condominial dos mestres que encurralavam pessoas em circuitos de transferência convergentes foi saudavelmente exposta á diversidade de meios e a emergência de uma polifonia de vozes. Muitos vão ver nisso uma corrupção das práticas sagradas e uma profanação do que deveria ser a verdadeira psicanálise. Fico espantando com a virulência e com o caráter rudimentar de certas críticas que recebo, principalmente de psicanalistas, em torno de meu programa de questões sobre a psicanálise, o Falando Nisso. Dá-se por certo que se alguém se deixa filmar é porque tem uma paixão narcísica e exibicionista. Que se alguém se envolve com política é porque quer se tornar candidato. Que se alguém fala de psicanálise de forma aberta, pública e gratuita é porque está disposto a se autopromover ou tem uma agenda escondida de interesses sórdidos ou partidários. Isso denuncia como estávamos pensando a organização do saber em psicanálise, ou seja, como a administração de um bem precioso, que deve permanecer sob a guarda de um grupo especial, para que o capital cultural ou capital social, associado com este saber, não se dissolva ou se “massifique”. Neste sentido a internet aplicou um saneamento básico absolutamente bem vindo para um tipo de relação com o saber-poder que é histórica e constitutivamente antagônico com a ética da psicanálise, como tentei mostrar em meu livro sobre “Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica”.  

    Neste contexto radicaliza-se a distinção entre pesquisa e a apresentação da psicanálise ao debate público e a formação dos psicanalistas. Esta pode ser facilitada e democratizada com a transmissão digital, assim como pode ser aviltada com a substituição do laço coletivo e pessoal de transferência, seja analítica, seja de trabalho, pelo anonimato. Desde sempre o poder das associações psicanalíticas dependeu de dois fatores: sua força como instância de certificação e reconhecimento da formação que ela dispensa, o que Lacan chama de garantia, mas também da força indireta de facultar aos psicanalistas, que estes se apresentem ao mundo. Um espaço público que no qual eles podem dizer que pensam desta ou daquela maneira, que praticam a psicanálise neste ou naquele estilo. Infelizmente poucas associações pensaram-se a si mesmas como atores sociais no espaço público, seja como versões de uma associação científica, seja como um escola definida por uma comunidade de experiência, seja ainda como uma entidade política da sociedade civil. Este atraso organizativo foi atropelado pela chegada deste novo suporte transmissivo que é a internet. Vemos então escolas se organizarem em escala global e a psicanálise desenvolver-se me lugares remotos, como o Líbano e a Patagônia, com uma facilidade espantosa e impensável sem a facilidade da comunicação digital. Mas vemos também uma relativa perda de algo que para a psicanálise é insubstituível, e que de fato a torna artesanal, que é o encontro com psicanalista, em uma experiência de fala (e não de escrita), em primeira pessoa, com corpo presente. E o seu respectivo correlato em termos de supervisão ou de vida associativa.  

    Por isso vejo com alguma restrição, tanto teórica como pela própria experiência, a ideia de um tratamento inteiramente desenvolvido por Skype. Os carteis que participei on line, nunca foram muito bem sucedidos e os debates que acompanho, mesmo por listas de email, facilmente evoluem para a tensão imaginária à qual estamos habituados na vida digital. Como dizia Lacan, não há progresso, como não se sabe o que se se perde de um lado, não podemos calcular, com perfeição, o que ganhamos do outro. Hoje, provavelmente, há muito mais discussão sobre psicanálise e participação dela neste espaço público-privado, estruturado topologicamente como uma Garrafa de Klein, graças à internet, do que jamais houve. Umarenovação crítica é exigida por estes novos meios.   

O que você pensa sobre o uso da tecnologia na transmissão de um saber? por Gabriel Vituri

Neste mês de junho o Escutatório completa 1 ano de existência! Preparamos uma programação especial para discutir um tema atual e que deve ser colocado em debate: a escolha pelo uso da tecnologia para transmitir saberes. Tecnologias  como   Skype, WhatsApp,  YouTube que  também estão presentes  no fazer diário dos que se propõem a falar, produzir e/ou transmitir conteúdo. No entanto, acreditamos que abrir o dálogo com outros profissionais sempre é mais interessante e enriquecedor! Assim, apresentamos nosso primeiro convidado, o jornalista Gabriel Vituri, que aceitou escrever e pensar o tema a partir da pergunta: "O que você pensa sobre o uso da tecnologia na transmissão de um saber?".  Ficamos felizes por ter colaborado neste projeto!

Boa leitura!


Gabriel Vituri é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero. Como repórter, passou pelos portais do Estadão e da MTV Brasil,  editou sites na Editora Abril e colaborou com outros veículos, impressos e digitais. Atualmente, é m  estrando em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp, integra o grupo de pesquisa Informação, Comunicação, Tecnologia e Sociedade (ICTS/Unicamp) e atua como jornalista freelancer. 

Gabriel Vituri é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero. Como repórter, passou pelos portais do Estadão e da MTV Brasil,  editou sites na Editora Abril e colaborou com outros veículos, impressos e digitais. Atualmente, é mestrando em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp, integra o grupo de pesquisa Informação, Comunicação, Tecnologia e Sociedade (ICTS/Unicamp) e atua como jornalista freelancer. 

O convite do Escutatório – pelo qual gostaria de agradecer mais uma vez, aliás – despontou na caixa de entrada com uma questão capaz de gerar em mim sentimentos dissonantes entre si. Em conversas informais ou durante discussões profundamente teóricas, a ideia de pensar a tecnologia entre tarefas complexas e ordinárias do dia a dia me atrai ao mesmo tempo em que me desnorteia. Explico.

Pouco importa hoje sobre o quê estou debruçado, tudo invariavelmente atravessará processos facilitados por tecnologias de informação e comunicação: pesquisas e apurações jornalísticas, incessantes caçadas por textos científicos, leituras de resenhas (de cafés, impressoras, seriados, máquinas de lavar roupas), a busca pelo melhor novo hambúrguer da região onde moro, uma decisão sobre o itinerário apropriado, a compra de um item em promoção. Por outro lado, a inevitabilidade dessas mediações e sua conveniência me geram em outra ponta enorme inquietude. O sentimento vem da certeza de que tudo tem seu preço.

Para cada saber que buscamos, produzimos ou compartilhamos dentro de espaços conectados, entregamos gentilmente, muitas vezes sem o saber, dados que revelam quem somos, fomos ou gostaríamos de ser dali a algumas horas ou anos. Correndo o risco de esse enunciado parecer distante ou imaterial, melhor seria dizer que nossas televisões são capazes de escutar uma conversa ambiente mesmo desligadas, que nossos smartphones literalmente rastreiam nossos passos, que nosso navegador na Web prevê o que vamos querer fazer mais tarde, dentre outras centenas de situações que ameaçam nossa privacidade.

Apesar de soar pessimista, ou “paranoico”, para citar um termo recorrente entre os que se referem aos interessados em debates sobre vigilância, não se trata de vilanizar a Internet ou as tecnologias e suas utilidades, e sim de expor uma tomada de consciência sobre ferramentas que nos são caras, porém estão bem distantes de serem neutras. Como lidar, então, com a realidade de um cenário supostamente ameaçador, mas também tão intangível? A impressão, e essa vai para a minha modesta cota de otimismo, é que há uma onda de resistência cada vez maior dentro desse cenário. As revelações de Edward Snowden sobre a espionagem da NSA, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, em 2013, assim como outros movimentos recentes de estudos sobre tecnologia, parecem ter despertado um senso crítico em bastante gente. 

Compreendendo a transmissão de saberes e informações como um percurso de mudanças constantes, talvez o caminho sejam vários, mas principalmente o da crítica. A complexidade das tecnologias, suas controvérsias e obscuridades não deveriam mais dialogar com a inércia. 

 

ps.: Com o tempo, verdade seja dita, tenho deixado meu celular cada vez mais longe de mim durante as sessões de análise. Nunca se sabe.