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Por que Psicanálise?

Através de uma pergunta “simples" convocamos o leitor a pensar a questão que se desdobra na proposta do site: Por que transmitir a psicanálise nos dias de hoje? Pensar o lugar desta práxis na contemporaneidade permite-nos questionar os paradigmas atuais e como a psicanálise se posiciona diante de tantas Verdades. 

De uma ciência tão conhecida popularmente, presente nos ditos populares – como recalque associado a inveja, por exemplo – e que de alguma maneira – mesmo que torta, no senso comum – está presente na cultura, mas não menos repleta de pré-conceitos e ideais aliados a uma herança patriarcal, aristocrática e burguesa. As consequências disso são os efeitos no imaginário popular até hoje, seja no aspecto teórico ou em sua prática. 

Sem pretensão de em apenas um texto desconstruir pressupostos cristalizados – muitas vezes pelos próprios psicanalistas – nos ocorre como uma proposta possível escandir a ideia de cura que a psicanálise propõe ao sujeito: a cura pela fala ou a talking cure. A fala por si só promove cura? Que tipo de cura se trata na psicanálise? Vejamos.

Quando Freud resolve escutar e supor uma verdade no que diz sua paciente diante de seus impasses e questões, isso produz um efeito importante em seus sintomas. O fato de se ter uma escuta que privilegia o sujeito do inconsciente permite que esta fala endereçada a alguém (ao analista) produza efeitos no sujeito a partir de um inesperado, onde ele próprio (o paciente) confesse sua verdade e confesse sem sabê-lo, como diria Lacan. 

Se na época de Freud as histéricas ocuparam a cena com seus sintomas (paralisias, cegueira, surdez, etc), hoje, vemos manifestações clínicas que são expressões do sofrimento psíquico e apresentam-se como o mal estar na atualidade. São eles a síndrome do pânico, os transtornos alimentares, as manifestações psicossomáticas, as depressões, as dependências químicas, etc. No campo médico, manuais não nos faltam para dar conta dos inúmeros e infinitos diagnósticos.

Outra questão da atualidade seriam as consequências de um imperativo da felicidade (não importa como, seja feliz!) com o apelo para eliminar qualquer tipo de dor, tristeza, insatisfação. O que também torna problemático seriam, talvez, as vias para evitar o inevitável: o sofrimento, muitas vezes colocando a medicalização como única alternativa, tanto para adultos quanto para as crianças. Freud vai na contramão desta lógica da eliminação a qualquer custo, pois esse custo pode ter um preço alto para o sujeito.

Apesar de outros teóricos já terem pensado sobre a questão do inconsciente, a revolução freudiana se encontra na sua afirmação de que somos regidos pelo mesmo. De lá pra cá, mais de 100 anos se passaram desde a Interpretação dos sonhos (1900), e Freud nos deixa um legado consistente e vasto de sua teoria, mas, ao mesmo tempo, passível quanto aos diversos tipos de interpretação que dela se faz. Algumas interpretações rasas falam da psicanálise como uma ciência que aborda psicopatologias de uma época diferente, do século passado, e que não se aplicam aos dias de hoje. 

Seria a psicanálise uma ciência ultrapassada? Ou pior: a psicanalise é letra morta? Se considerarmos a psicanálise que em primeira instância fala sobre desejo: não. O desejo é o que move o sujeito, aquilo pelo qual uma pessoa luta sem se dar conta que está lutando. Uma busca constante articulada a uma falta estrutural que é o cerne de toda experiência humana. Portanto, essa falta que falamos é a causa do sujeito e causa de seu desejo. Algo estrutural, independe do tempo, lugar, cultura, sociedade. Desejar é humano. É esta a ética da psicanálise.

Questionar a psicanálise na cultura e sociedade atual pode ser uma maneira de pensar sobre um suposto hiato entre sua práxis e o sujeito. Se por um lado ela é vista como privilégio dos que frequentam os consultórios psicanalíticos, perpetuando o difícil acesso a massa, por outro ela se encontra à margem. À margem de quê? Talvez de um cientificismo, refém de um discurso que impossibilita o laço (social), inviabilizando as produções subjetivas, produzindo sujeitos no mínimo angustiados. 

Para a psicanálise é preciso coragem como num ato subversivo (por que não chamá-lo de ato analítico?) em que torna-se importante sustentar seu posicionamento à margem (do cientificismo, das Verdades, etc.) e seguir cada vez mais, numa proposta de avançar para além das paredes do consultório, romper os limites do divã e, quem sabe, fazer sua escuta ao alcance dos que também estão à margem. A partir dessa possibilidade fazemos questão de esclarecer algo que deveria ser óbvio: o inconsciente não tem classe, cor, nem gênero. Há um sujeito – e considerar isso já é um bom começo.

 

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Anastácia David

Carolina Prado

Lorena Bitar

Mariana Anconi