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Ensaio sobre política

No último sábado, do banco de uma praça podia-seouvir o som das árvores e das peças de dominó quedeslizavam pelas mesas de jogo e entretinham homens de meia idade. A sublime contemplação daquela atmosfera pacata fora interrompida por grande barulho que se estabeleceu naquele lugar. O silêncio fora quebrado por uma fila de carros e trios elétricos em apoio a um candidato à presidência. Ao som de gritos de guerra e gestos armados, a paz da tarde rompeu-se naquele instante,não fosse a cena que aparecia do outro lado da praça.

Um grupo de jovens caminhava de forma leve, se tocavam trocando carícias e ao mesmo tempo riam das histórias que contavam, tinham entre eles a viva expressão das suas sexualidades, das suas artes, expressão do que para eles significava ocupar aquele espaço; tornaram-seresistência. Viviam a praça.O outro grupo, extremado, ora apontavam aos jovens suas armas imaginárias, ora pulavam em seus carros com frenesi.Ambos os grupos faziam política com suas falas e seus corpos. Existindo cada um à sua maneira, impactados com a existência mútua. Pesava no ar, assim como pesa o medo, a rigidez da divergência de pensamento.

O historiador e cientista político AchilleMbembé, no texto A era do humanismo está terminando (2016), conversou com esse cenário quando disse em sinal de denúncia que “a política se converterá na luta de rua e a razão não importará. Nem os fatos. A política voltará a ser um assunto de sobrevivência brutal em um ambiente ultracompetitivo”.

Essas formas de existir, atravessadas pelas histórias  que as constituem,encontraram-se naquela tarde para um embate. Ambos circularam pela praça, ofereceramsuas ideias ao lugar que habitaram. O estado democrático de direito prevê o diálogo, a divergência de ideias, com a ressalva de que não seja normalizado “um estado social de guerra” nas palavras de Mbembé, ou um clamor mortífero que rompe com a humanidade; temos em memória as lembranças do fascismo e as suas marcas nefastas à humanidade. Para esse teórico o próprio fazer político está em vias de resistir à sedução do capital “a transformação da política em negócio coloca o risco da eliminação da própria possibilidade da política”. Em tempos de capital, alguns discursos políticos oferecem como solução à crise das instituições, da economia e das relações sociais uma espécie de administração tal qual uma empresa; parecem denegar que a dinâmica das relações humanas é mais complexa do que os seus cases de sucesso.

No texto Filosofia do ressentimento, sociedade do espetáculo (2011) no livro Freud – mas por que tanto ódio¿, o psicanalista Roland Goricomenta sobre a atmosfera francesa em meados de 2010 “perderam cruelmente a esperança e a confiança no futuro e temem pelo pão cotidiano dos seus filhos” [...] “trata-se de uma crise no céu da democracia que, como a nuvem da erupção vulcânica, escurece o horizonte de nossos contemporâneos. Jean Jaurés não cansou de nos avisar: o pior, para uma democracia, é a ausência de autoconfiança”.O grande desafio da sociedade atual, não só a brasileira, parece ser a preservação da capacidade de fazer política a partir das diferenças.

O sol se pôs. As pessoas deixaram a praça. Não havia mais carreata, nem jovens nem carícias. E aquele espaço existiu com vida enquanto todos passaram por ali.

Aos analistas, lembremo-nos do dever de sempre se posicionar do lado da denúncia de todo discurso que tem por ética calar a palavra, calar o corpo de sua expressão. Façamos, enquanto cidadãos, função de praça onde a palavra possa existir e resistir. Não há psicanálise sem política, pois não há nada que milite mais do que o próprio inconsciente.

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A loucura e seus destinos

Por Anastácia David

 

A loucura, palavra feminina, foi derramada entre as mulheres como lava da misoginia. “Por que gritam essas mulheres?”, “Do que se queixam?”, “Por que paralisam?”, perguntou-se a medicina para responder aos fenômenos da histeria, panis normalis dosim repetatur¹ diziam. Àqueles, homens e mulheres, que alucinavam e que contavam de experiências que não condiziam com a realidade de todos, eram encarcerados e suas palavras esvaziadas de sentido, estavam no registro da desrazão e mereciam o exílio, o asilo, a inanição ou precisavam alcançar uma fé. Em resumo, falamos da história da loucura² na modernidade.

Nesse longo período entre os séculos XVII e XIX ressaltam-se nesse texto dois pontos fundamentais: a visão de mundo cartesiana e o surgimento dos grandes manicômios. No projeto do cogito a loucura trazia notícia de algo insuportável, a égide da razão mostrava a loucura como um erro que precisava ser reparado a qualquer preço. A ela era oferecido o manicômio; grandes instituições, a princípio eclesiásticas e posteriormente hospitalares, que se misturava toda sorte de pessoas que sofriam mazelas da mente e sociais. Essas pessoas deixavam sua autenticidade e experiência histórica para ser objeto de investigação, ou ainda, da administração totalitária da instituição. Desumanização é a palavra. 

Os grandes hospitais gerais e manicômios foram contemporâneos de Sigmund Freud que iniciou sua clínica com os estudos sobre histeria no final do século XIX e início do século XX. Freud funda sua teoria da escuta das mulheres que sofriam de maneira trágica e dolorosa dos sintomas da mente, sintomas histéricos. Articula a “cura” a partir da função dialética da fala e da escuta analítica.

Freud apresenta que a concepção de normal e patológico é uma construção social e opõe-se, com essa proposta, às ideias dos alienistas da época. Retoma a tragédia contida na loucura e a coloca no campo da psicopatologia, fundamenta a necessidade de tratamento médico, analítico e, sobretudo, do olhar com humanidade para a pessoa que sofre intensamente. Elabora os conceitos de realidade e funcionamento psíquico. Os momentos de crise tinham, agora, o sentido de tentativa de cura.  

Para Jacques Lacan, a forma como o sujeito é estruturado de maneira a ligar-se ao laço social, estrutura o funcionamento da sua teia simbólica; o campo da linguagem para o sujeito inscreve a experiência única de sua existência, que pode ser a loucura. Existe potencia criativa no discurso do sujeito que sofre, é vivenciada na linguagem e cabe ao analista com o seu trabalho ser sensível a uma logica que é do outro e não tem a ver com trazer de volta a razão, mas acompanhar e deixar advir um bem dizer.  

No Brasil, concomitante ao movimento de luta pelas “diretas já’ e redemocratização, viveu-se o movimento de luta anti-manicomial por volta do ano de 1970. A luta foi encabeçada por profissionais da saúde, pessoas que necessitavam de terapêutica adequada para o seu sofrimento, seus familiares e população. Notaram que a ausência da escuta e da rede de apoio social, evidenciava grande desamparo da rede pública de saúde. O sofrimento psíquico intenso, disruptivo, amedrontador daquele que vive com a loucura e seus familiares não possuíam espaço para o cuidado adequado naquele tempo. 

A ideia é romper com a clausura e amparar o sujeito dentro da sua rede, do seu território. Constroem-se os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ligados à legislação do Sistema Único de Saúde e Saúde Mental. Ainda hoje o processo de reforma está em andamento; a revolução iniciou uma transformação sobre a forma como é vista a loucura e quanto ao entendimento do que se torna importante no cuidado em saúde mental. Têm-se ganhos graduais e processuais que envolvem uma compreensão cultural ampla. É preciso que os governos acompanhem as discussões sobre saúde mental para que seja possível uma sociedade sem manicômios, com opções de centros de saúde mental, acesso a medicações, terapêuticas e, principalmente, escuta.

As formas de sofrer da humanidade apuram-se e atualizam-se ao longo do tempo, seja pela experiência do sujeito com o laço social seja pelas contingências históricas vividas. Vemos o crescimento de novos sintomas como cortes no corpo, medicalização da vida, ansiedades relacionadas às redes sociais dentre outros sintomas.  Percebe-se que a loucura refina suas maneiras e exige refinamento de escuta e rede de acolhimento à dor emocional. A sociedade muda e mudam-se também as formas de sofrer; atualizam-se as formas de representação da dor humana. 

Qual destino daremos para a loucura nos nossos tempos? 

Continuemos na busca por assegurar um lugar de escuta para a loucura. 

 

 

¹ FREUD. Sigmund. A História do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. ESB Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

²   FOUCAULT. Michel. A História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1977.

 

Psicanálise do povo: sobre a formação de um analista negro

Por Anastácia David

 

Um dos temas discutidos sobre a questão do negro no Brasil apresenta a temática da descolonização do conhecimento como foco. Fala-se sobre a circulação do saber como estratégia de construção e reformulação social, tendo em vista a existência da desigualdade, sobretudo de raças, como papel de estruturação dos grupos sociais na pátria Brasil. 

Sob uma perspectiva foucaultiana¹, o dispositivo de domínio do saber é utilizado com equivalência em relação ao poder. Quem tem acesso e quem transita pelos lugares de saber, estabelece relações de domínio com aqueles que possuem sua ascendência ao saber barrada em sua trajetória. Quando se conversa sobre descolonização do saber, aborda-se a questão do acesso ao ensino de qualidade na educação de base (ensino fundamental e médio) e acesso as universidades públicas e privadas pela população de poder aquisitivo baixo majoritariamente negra. O que representa dizer que, quando olhamos para a questão do negro no Brasil estamos cuidando da questão do povo; da base da pirâmide de classes.

 Aproximar essas camadas da população à aquisição do conhecimento é ampliar e agregar a rede de construção de saberes, é permitir letramento à comunidade, é tornar pífio o dispositivo de opressão que o saber pode tornar-se. É distribuir o “lugar de fala”, como denuncia a socióloga Djamila Ribeiro².  O acesso à educação é estratégia de abalo às estruturas sociais existentes, e decadentes, que resultam em aumento da pobreza e aumento do sofrimento. Essa exclusão, na experiência de escuta de pessoas negras em consultório de psicanálise, é sentida como diferenciação e abismo social, é vivida como mal-estar e reflete em sofrimento psíquico intenso. Reedita no psiquismo a ancestralidade dos tempos de escravidão.

Nessa medida, surge aqui o pensamento sobre a psicanálise descolonizada. E porque não dizer, “enegrecida” uma vez que o avanço e a notícia de vanguarda trazida por ela também diz respeito ao sujeito negro. Não desde a origem desse saber, pois nasce no centro burguês e “embranquecido” no século XX - com a publicação da obra Interpretação do Sonhos (1900) -  , mas logo adiante na sua história, quando rompeu com as barreiras da cartografia e Sigmund Freud começou a estudar e construir produções teóricas que envolveram o surgimento das ciências dos povos tais como a Antropologia. Os temas sociais e culturais foram peça chave para a escrita do texto “Totem e Tabu” (1913), que inaugurou a escrita dos textos sociais e antropológicos freudianos. Esses textos oferecem faceta rica para a escuta do povo negro. E não só.  

Há na psicanálise aporte teórico do saber sobre as massas. Existe no seu seio a construção de conhecimento sobre o homem marcado pelo social. Quando se fala sobre sujeito, para a psicanálise, estão intrínsecos ao conceito os seus enodamentos com o laço social - conceito criado por Jacques Lacan a partir de Freud. Com a linguagem, o sujeito é marcado racialmente e fala a partir de um lugar.

Ao tratar da psicanálise na atualidade a historiadora e psicanalista Elizabeth Roudinesco no texto Retraimento individual e Mal-estar coletivo (1989) ³ diz: “a massificação do movimento psicanalítico é o produto de uma dupla revolução [...] ligada a democratização da instituição escolar universitária, permitindo que outras camadas da população acendessem ao saber psicanalítico e [...] ligada à história específica das instituições freudianas. ” (p.45). Essa última é referência às escolas de formação em psicanálise. E a autora continua dizendo que para a psicanálise existir é preciso “um ensino independente das demais instituições (médicas, universitárias, estatais, etc.), uma liberdade de fala e associação, e um reconhecimento “consciente” do inconsciente” (p. 46). É preciso um Estado de direito como afirma a historiadora. 

Ainda hoje no Brasil os negros têm dificuldade de acesso a esse saber seja na procura por tratamento seja na sua formação como analista negro. Apesar de Roudinesco defender que há muito a psicanálise deixou seu berço elitista, quando partimos para os grupos de analistas aqui no Brasil ainda existe um abismo a transpor. É preciso reconhecer o percurso dos analistas negros dentro das instituições de formação, é preciso abrir canais de escuta e abertura para a enunciação da fala negra. Do lado dos negros resistência e do lado dos brancos abertura para a escuta.

Se pegarmos a experiência da primeira mulher psicanalista no Brasil Virgínia Leone Bicudo (1910- 2003), negra e neta de escravos, notamos os impasses e muros que se apresentaram à sua formação nos anos 70. Com episódios de não citação do seu trabalho, episódios de esquecimento dos seus méritos e negação dos seus traços identitários. Em 1955, Virgínia participou de projeto intitulado Unesco-Anhembi que desconstruiu a tese do Brasil como um País de democracia racial; o seu trabalho aparece como apêndice da pesquisa e em segunda edição não é citado apesar de ser fundamental à compreensão do mito da democracia racial.

Virgínia Bicudo viveu os desafios da luta de gênero, pois mulheres não frequentavam os meios analíticos e do “preconceito de cor”, como a mesma se referia em relação ao racismo.  Seu trabalho “A incidência da realidade social no trabalho analítico” (1972) é referência nos estudos sobre psicanálise e questões étnico-raciais. 

Existe grande diferença entre saber enquanto matéria e o saber sobre o inconsciente. Jacques Lacan em 1964 no ato de formação da “Escola Freudiana de Paris” defende uma psicanálise ao alcance daqueles que a partir do Ato de envolver-se com o ensino proposto por Sigmund Freud são convocados ao trabalho analítico, no sentido da transmissão e do desejo de saber. Lacan (1964) afirma: “Desta fundação podemos destacar, antes de mais nada, a questão de sua relação com o ensino, que não deixa sem garantia a decisão do seu ato” (p. 242).

Existe uma relação entre o querer saber e o desejo do analista, como nos diz o psicanalista Marco Antônio Coutinho Jorge no texto O desejo de saber como laço entre analista: um comentário sobre a “nota italiana”³ diz: “o surgimento de um analista estaria intrinsecamente ligado ao despertar desse desejo de saber” (p.249). E, para Lacan, outro ponto chave para o percurso do analista é o laço entre os analista, por isso pensa seu ensino também articulado ao grupo. Envolvidos pela transferência de trabalho

A formação do analista passa pelo reconhecimento do grupo de um lugar de desejo. Um lugar de fala. E sobretudo um lugar de escuta.

 

¹ Michel Foucault (1926 – 1984) teórico da filosofia, história e psicologia. 

²  Djamila Ribeiro, O que é lugar de fala?, Belo Horizonte, Letramento, 2017

³ Marco Antônio Coutinho Jorge [organização], Lacan e a formação do psicanalista, Rio de Janeiro, Contra Capa Livraria, 2006

LACAN, J. Ato de fundação. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. 

 

Que história é essa? Psicanálise e o mito de Édipo

Por Anastácia David

 

É comum ouvir o termo “Complexo de Édipo” seja na áurea teoria analítica exercitada nas universidades e escolas de psicanálise, seja nos corredores das casas, no meio das praças em conversas fugazes onde se diz: “fulano está com complexo de édipo”, como se de alguma maneira se configurasse como uma espécie de patologia da qual se precisa curar.

Com nenhum rigor teórico-metodológico a teoria freudiana em relação ao Complexo de Édipo é invocada de forma “silvestre” ou melhor dizendo, “selvagem” ¹, ou seja, utilizada fora do contexto principal que a fez surgir como uma espécie de domínio público de botequim. Esse desuso não torna menos importante esses lugares de enunciação, pois é lugar da voz do público em relação ao texto analítico e é passível de escuta, mas também é necessária a elucidação por parte dos analistas desse e de outros conceitos fundamentais à clínica.

Por que não tratar do uso deslocado e corriqueiro dessa teorização? Essa é uma construção de saber muito cara aos analistas, base importante da teoria desde Sigmund Freud. A saber, seu conceito fundamental sobre a teoria da sexualidade e a constituição do aparelho psíquico e mais adiante na história da psicanálise, a releitura do tema feita por Jacques Lacan (1901-1981) que ampliou a teorização com a dimensão do sujeito desejante e a elaboração do conceito de metáfora paterna. 

O uso casual da expressão “Complexo de Édipo” não causa ou causou danos à teoria da psicanálise, que supera o mau uso de seus conceitos há mais de cem anos. A questão é que esse mau uso escancara a resistência em relação aos conceitos cunhados por esse saber e sobretudo alimenta os pensamentos fantasiosos sobre o fazer analítico.

Salvaguardadas as devidas proporções, no primeiro caso trazer um mito grego como alicerce à teoria analítica, quer dizer um lugar especial reservado a esse tipo de narrativa dentro da teoria. Para a psicanálise, o mito assume uma tarefa importante: apresentar uma narrativa particular onde se pode pensar a partir do mito a história do sujeito e seu enlace com a história da humanidade. Os mitos são importantes à teoria freudiana porque eles fazem uma articulação entre o singular e o coletivo, uma intersecção entre a história do sujeito e a história da humanidade (VERSIANI, 2008). O mito ocupa lugar de representação do drama humano. Segue-se, então, pela trilha da contribuição lacaniana.

Para recordar: o Complexo de Édipo foi inspirado no texto de Sófocles 427 a.C. “Édipo Rei”. Na mitologia, Édipo diante de uma trajetória determinada toma como diretriz de vida a tarefa hercúlea de livrar-se do seu destino infeliz, matar seu próprio pai e desposar sua mãe, tal como advertiu o Oráculo de Delfos.

O mito diz, à luz da psicanálise lacaneana, que para todo ser humano imerso em linguagem, a exemplo do bebê, há uma teia de palavras – significantes* - que o irão conduzir à um processo de identificação estrutural com aquilo que é o desejo de seus pais, amar e entregar-se como oferta, vislumbrando ser a satisfação absoluta do desejo de um deles. Para equacionar, respeitando as mais diversas formas de famílias existentes, diremos que o bebê se identificará com aquilo que seria o objeto* do desejo materno* e necessitará que haja uma interdição dessa equação para que desse enquadre emerja um sujeito que, por sua vez, possa ser um sujeito desejante* e não somente o resultado de um espelhamento com o que imaginariamente seria o desejo materno. É preciso que algo interdite essa colagem. Um pai, por exemplo; um trabalho, um outro filho, algo que possa fazer função de corte; metáfora paterna*. Tudo isso acontece no interior do seio da família até que possa haver o tempo para o corte simbólico, castração*. 

O que é importante observar para além da cena do incesto contida no mito é a riqueza do diálogo, da narrativa mitológica, que serve de bandeja ao conteúdo para pensarmos a questão do homem como sujeito desejante. Jacques Lacan no texto “O mito individual do neurótico” (1953) afirma que o homem passa a se humanizar na relação com seu semelhante.

Uma análise se faz de uma narrativa, onde o sujeito irá construir, reconstruir, recontar sua história. Na medida em que a fala progride, tem valor de mito como nos diz Lacan.

 

*conceitos psicanalíticos – ao longo do texto foram apresentados conceitos psicanalíticos complexos tanto em sua elaboração quanto em sua compreensão. A literatura analítica, os grupos de estudos, as atividades das escolas de psicanálise, o percurso em supervisão e analise pessoal são amparos para a compreensão desses conceitos. Esse texto não possui interesse em esgotar a sua explicação, mas aproximá-los daqueles que se sentem convocados ao estudo da psicanálise.

 

Referências

 

¹ Texto: 

 FREUD, S. 1976.__(1911). Psicanálise silvestre. Em: Edição Brasileira Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XI. Rio de Janeiro: Imago. 

 

LACAN. J. (1953 b/2008). O Mito individual do neurótico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

 

VERSIANI, Renata Nogueira Rocha Clementino. Mito e Psicanálise. Brasília, 2008. 14 p. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica e Cultura)- Departamento de Psicologia Clínica, Instituto de Psicologia, Universidade de Brasilia (PCL/IP/UNB), 2008.

 

Alguma saída

Por Anastácia David

Veio à lembrança um atendimento realizado numa tarde. Nele falava-se sobre a rapidez da expressão do tempo, sempre em trânsito, ele passa por nós e pelas coisas. Nesse tempo que flui, existe o tempo de uma vida; há a palavra que é dita que não retorna às entranhas, sai delas para o mundo e pode ou não encontrar repouso em outro ser. Há a bala, que nunca sai perdida do cano de revólver. Sai "encontrada" em direção daquilo que a fez existir. As mãos uma vez potentes e firmes hoje claudicam e, por vezes, vê-se beleza quando ao lado dessas mãos, aparecem outras mãos que as tomam pelo braço e as ajudam a atravessar.

Sobre esse movimento de vida Sigmund Freud, em Berlin (1915  ), publica um texto intitulado "Transitoriedade". Esse ensaio versa sobre um diálogo que ocorreu num passeio público em que ele e mais dois colegas, sendo um deles um poeta, questionam-se, inicialmente, sobre o coeficiente efêmero do belo nas artes, nas tradições de um povo, nos afetos entre as pessoas. Falam sobre o que é precioso ao ser humano.

Mergulhados na vida em volta deles percebem que a conversa passa a girar em torno da dor humana diante de um objeto perdido, objeto aqui lido como um ente encharcado de afeto, precioso. Ora, o que nos causa dor em relação à passagem do tempo é também aquilo que se perde no percurso de uma vida. Aquilo que nesse trânsito da existência fica perdido pelo caminho.

Freud inscreve nesse ponto do texto o conceito de luto. Ou seja, o que em nós some, se perde, quando aquilo que amamos deixa de existir. O conceito de luto apresentado com mais substância no texto Luto e Melancolia- escrito em 1915 e publicado em 1917 por Freud-  se refere tanto a expressão emocional da perda quanto como à vivência de luto como intrínseca ao existir humano.

 O luto se difere da melancolia que pode ser compreendida como um desinvestimento profundo de energia de vida, um posicionamento na estrutura o que Jacque Lacan nos falará mais adiante na história da psicanálise. O que é doloroso é não somente a constatação  da perda como também os sinais de angústia que envolve as situações de perda. Freud no texto transitoriedade aponta para o processo de perda individual e a dor inerente a ela, fala sobre a perda no âmbito social como, por exemplo, as perdas resultantes de uma guerra. Perdas resultantes de uma crise política como a vivenciada no Brasil da atualidade.

Freud na escrita desse texto já estava marcado pela experiência da Primeira Grande Guerra Mundial, nesse momento via se transformar tudo a sua volta. Preocupava-se com a sobrevivência dos seus familiares, com a cultura perdida, com o ícones transformados, preocupava-se com a sobrevivência da psicanálise à guerra. Dessa vez a guerra nada mais tinha a ver com as guerras dos séculos anteriores que se tinha notícia nos livros, as armas brancas foram substituídas por um potencial bélico nunca visto. O alcance mortífero dos bombardeios agora vindo também pelos ares com o dirigível tipo Zeppelin marcou a humanidade de forma tal que seria necessário outra guerra anos mais tarde ainda em virtude dos desfechos dessa.

Dentro do seio da psicanálise, Sándor Ferenczi, Otto Rank dentre outros analistas, saíram dos seus consultórios e foram ser combatentes no campo de batalha. Foi nesse período de guerra que Freud passou a revolucionar seu próprio pensamento; como nos conta a historiadora Elizabeth Roudinesco no livro "Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo" (2016).

Parece oportuno tratar da questão da transitoriedade nesse momento numa coluna do Escutatório. É notório o caráter transitivo dos rumos políticos para os próximos anos no Brasil. Um governo transitório, crise política, crise das instituições e, porque não dizer,  crise das relações entre as fatias sociais. Na coluna para o jornal Folha de São Paulo dessa semana o professor e filósofo Vladimir Safatleidentifica a situação atual como uma guerra civil "é uma guerra brutal [...] de acumulação e espoliação". Nesse cenário de guerra é possível pensar, de certa forma, que as balizas que alicerçam a sociedade brasileira estão em trânsito. Diante dessa situação de mudança há um coeficiente de angústia que envolve a sociedade e não é raro, que os pensamentos sobre política adentrem a reuniões familiares, os consultórios, as praças. Essa situação aponta para o extremismo ideológico e afrouxamento do legado das lutas sociais; descontentamento maciçodos discursos pautados nos direitos humanos. 

 Certamente, algumas saídas existem para a situação política atual. Destacamos o excerto de Sigmund Freud à respeito da guerra ainda no texto sobre a transitoriedade: "Quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito em que tínhamos as riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta da sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes" (p.319, Imago V. XIV).

 Ao leitor fica como ponto de partida esse texto que indica uma aposta no tempo vindouro, um caminho longo de mudança e reconstrução se anuncia. 

Um analista

Por Anastácia David

Temos como um dos marcos históricos da humanidade o surgimento da psicanálise, ali por volta de 1900. Psicanalistas debruçados na história do movimento psicanalítico apontavam que dali a cinquenta anos esse saber estaria vivendo seus tempos de apogeu; traços da sua influência seriam sentidos nas artes causando grande revolução na forma como a história do homem era contada, na poesia, nas tintas a óleo e nos textos literários. Para além das artes, o pensamento psicanalítico propõe nova relação no processo de “cura” para os sintomas e sofrimento emocional.

Os textos contidos nas Obras Completas de Sigmund Freud (1856- 1939) foram traduzidos do idioma alemão para o inglês, catalão, espanhol, italiano, francês e nos anos 1933 publica-se a tradução para o idioma japonês. Esse passo dado pela psicanálise reafirmou a conexão possível da psicanálise com os não-europeus e, mais ainda, com o público oriental. Observa-se uma expansão. Após textos como Totem e Tabu (1913) dentre outros textos antropológicos, tidos como textos sociais da obra freudiana, conseguimos contemplar o olhar amplo da psicanálise para o homem, não somente organizado em grandes cidades, mas também em tribos, aldeias e, por que não dizer que há campo para o estudo da psicanálise com populações quilombolas?

Falando de teoria, o pensamento psicanalítico desde Jacques Lacan (1901-1981), em sua retomada aos textos freudianos, ocupou-se das questões relacionadas ao sujeito e as formas de constituição subjetiva inerentes ao pertencimento a uma ordem de linguagem, fundamental ao humano. Nesse sentido, falar sobre “si” pressupõe um posicionamento no código linguístico comum ao laço social, esse sujeito além de inscrito na linguagem, ocupa um lugar na ordem social.

E é aí que esse texto quer chegar. 

O sujeito não é entendido dentro da psicanálise como uno, o sujeito é barrado, barrado por esse código linguístico que baliza seus anseios e o orienta à vida na polis.  Se o sujeito não é uno, e se diz a partir da relação com o laço social, concerne à psicanálise deixar-se de fora das questões sociais? 

Virgínia Bicudo (1910-2003), psicanalista, precursora da psicanálise no Brasil debruçou-se sobre as questões sociais referindo-se à psicanálise como portadora de uma abrangência social. Fundamental à clínica e ao fazer analítico, está a importância do posicionamento analítico nas lutas sociais. Ou seja, a psicanálise stricto sensu, aquela reservada as paredes do consultório, deve ocupar-se também de que tipo de mundo habitam tanto o analista quando o analisante. 

Elizabeth Roudinesco (1944), historiadora e psicanalista, influenciada pela verve questionadora da publicação doLe livre noir de la Psychanalys: vivre, penser e aller meiux sans Freud - organização de Catherine Meyer, publicado a primeira vez na França no ano de 2005 e conhecido nos corredores da psicanálise, apenas, como “O livro Negro” - e consciente dos impactos à psicanálise de uma publicação com teor histórico e metodológico amplamente questionável, ocupou-se da tarefa de produzir o livro“Em defesa da psicanálise: ensaios e entrevistas” (editora Zahar, 2010) para responder com amplo alcance, ou seja, impacto social às criticas apresentadas à teoria analítica e aos ataques em primeira pessoa dirigidos aos analistas da velha guarda (Melanie Klein, Françoise Dolto, Ernest Jones dentre outros). Teria o psicanalista um caráter militante? Seria a causa analítica uma bandeira? Pensemos. 

[ Pausa]

Apesar de todo arsenal histórico apresentado nesse texto, que perpassa pelo surgimento de uma teoria, personagens dispares e protagonistas da causa analítica, homens, mulheres que se deslocam do cenário euro centrista para discutir o cerne das questões humanas, que defende o funcionamento de um aparelho psíquico e o inconsciente como senhor das emoções. Apesar de tudo isso... 

Se puxarmos da memória a imagem de um analista, o que aparecerá? Posso sugerir que aparecerá um consultório em tons terrosos, um ou dois tapetes em composição com o divã, poltronas de couro escuro onde está sentado o analista, um homem, branco, de meia idade, com óculos redondos pousados sobre o nariz e uma barba espessa que vai de encontro a sua mão no queixo com expressão de je vous écoute (estou lhe escutando).

Atenderia somente essa cena à psicanálise em seu surgimento? E nos tempos atuais?  

Certamente, nos consultórios e instituições o que se vê são analistas como esse citado, mas também uma infinidade de outros tipos humanos, gêneros diversos, raças distintas, ou seja, como Charles Melman escreveu em 2007 no seu texto sobre A essência do analista, não existe um "traço evidente" que identifique um analista. Um analista é aquele que passa pela sua formação: em primeiro lugar o processo de análise pessoal, ao estudo teórico da psicanálise e a supervisão dos seus atendimentos por um analista de maior percurso dentro da psicanálise. Esse é o tripé definido por Freud como fundamental à formação. Mais adiante no mesmo texto, C. Melman complementa com a afirmativa "Lacan tinha esta fórmula curiosa:  não há analistas, ele dizia, mas analista. Em outras palavras, os analistas não formam uma união de indivíduos, mas de objetos não especularizáveis e não quantificáveis", nas palavras dele.

 Em respeito a causa analítica pode-se acrescentar o compromisso com a transmissão da psicanálise e o comprometimento político – ético – social.

Um psicanalista pode ser um membro de escola ou sociedade psicanalítica, pode ser o representante de um coletivo, pode ser atuante em redes sociais, pode ser escritor desde que, com o seu fazer em nome da psicanálise, mantenha o compromisso com a Ética analítica assumido em sua autorização, por si e por alguns outros, como afirma Lacan.  

 

Fale-me mais sobre Isso...

Por Anastácia David

“Fale livremente o que vier a sua cabeça” essa frase, ou seu sentido, é uma das mais repetidas nos consultórios de psicanálise desde sua invenção no século passado. Essa regra fundamental à análise - conceito da associação livre - atravessa o tempo e se atualiza hoje a cada vez que um sujeito endereça ao analista suas questões; seus sofrimentos. 

Quando convocados desse lugar de fala, ou seja, daquele que tem a palavra para consigo, pode-se cair na preocupação de produzir grandes elaborações mentais, frases escolhidas à dedo para definir da melhor forma o problema do qual se queixa. Todavia, não só de questões ontológicas, questões de alta complexidade e grande reflexão vive o analista.

 Definitivamente, quando se sugere ao paciente que este fale de maneira livre “o que vem a sua cabeça”, estamos indicando que a escuta atenta realizada no processo de análise partirá de qualquer ponto que o sujeito trouxer em sua fala, mesmo que este seja um ponto pífio, obsoleto! Mesmo que este decida falar de um pequeno detalhe da sua existência. 

 A psicanálise defende que faz parte do discurso do sujeito não somente aqueles pontos dignos de nota, aqueles que se encaixam, mas também pequenos detalhes, as conhecidas bobagens, besteiras. Ao analista pode-se dizer qualquer coisa como explica Jacques Lacan na conferência de imprensa “O triunfo da religião” de 1974 em Roma. E complementa seu argumento indicando que à análise interessam as coisas tais como elas são, os acertos e os erros tão comuns à vida. Interessa à análise “A vida como ela é” como na obra do dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues - em suas crônicas escritas a pedido de Samuel Wainer e que tinham como função retratar uma série de histórias da vida real para serem publicadas no folhetim.

Esse olhar diferenciado da psicanálise pressupõe uma prática clínica inédita onde o paciente se coloca a falar sobre seu sintoma, seu mal-estar e a partir dessa fala “livre” é capaz de fazer associações que o levam a construir uma nova forma de ouvir-se, uma nova forma de ver- a- si. Uma veracidade sobre o seu desejo. Essa fala livre, mais a intervenção do analista, levam o sujeito a mudar de posição, levam o sujeito ao trabalho, o que Jacques Lacan chamou no seu seminário “Análise e verdade ou o fechamento do inconsciente” (1964) de o “engajamento da análise”.

Nessa veracidade existente no processo de análise podemos identificar para onde aponta o desejo do sujeito e pela ética do desejo escolher se por esse caminho é possível seguir. Sem garantias de felicidade. Certamente a felicidade existe na medida em que podemos vê-la como uma satisfação sempre não toda, não plena, mas, sobretudo, uma satisfação articulada com o Real. Menos idealizada. 

É evidente que essa fala livre não se dá sem resistência por parte do falante; falar de maneira livre se caracteriza como uma busca, uma permissão para que possa emergir da mente aquilo que tem de mais singular do sujeito. A fala livre está vinculada aos sentimentos do falante em relação ao analista; suposto saber e transferência.

A resistência à psicanalise é resistência ao conteúdo que nela habita e aquilo que dela pode advir: a existência de um funcionamento psíquico alheio ao interesse do indivíduo, alheio a consciência; aponta para uma singularidade do sujeito que direciona para aquilo que é diferente no contexto do grupo, a psicanálise aponta para uma fragilidade no âmbito do grupo.

O que Sigmund Freud chamou em seu texto “As resistências à psicanálise” (1925) de “hipocrisia cultural”. Observa-se, nas palavras de Sigmund Freud, que as fontes do ódio à psicanálise não são de natureza, em sua grande maioria, intelectual, mas sim provenientes de fontes afetivas. 

Ou seja, a novidade que a psicanálise conta, essa sobre a existência de um sujeito do inconsciente, gera grande desprazer ainda na atualidade. Convencionou-se na contemporaneidade que é necessário abafar o autêntico, o diferente, para poder conviver em sociedade. Seria essa uma das bases das manifestações de ódio tão presentes na história humana? Seria esse o cerne do massacre ao discurso das “minorias”? 

A sociedade atual constrói uma espécie de culto ao silêncio, prega que “falar dói”, contudo, o que se observa na experiência analítica e na literatura analítica é que a fala é um recurso para trabalhar a dor, para lidar com a dor. Falando abre-se a possibilidade de reconstruir o vivido, elaborar as emoções e dá oportunidade ao sujeito aparecer dando as balizas de para onde aponta o seu desejo.

Falar dói na medida em que se revisita as dores do momento do “trauma”. Quando se fala ao analista esse atravessamento da angustia é acompanhado por ele, é falar sobre a dor do colo – no sentido de amparo - do analista. Qual a contrapartida para não falar da dor? Permanecer com ela guardada em algum lugar de si mesmo? 

Pensemos.

Voltando à questão principal desse texto, a psicanálise é esse outro tipo de saber humano, nem filosófico, nem médico. Que comporta a fala livre do sujeito, que pode falar partindo de qualquer ponto tanto a besteira quanto uma grande elaboração pensada durante dias para ser contada na sessão de análise.

Não é pretensão da psicanálise ocultar seu conhecimento para caber melhor nos critérios científicos. A psicanálise perde ao tentar fazer esse enquadramento científico no que diz respeito à singularidade do sujeito; como objeto de estudo o dito verdadeiro sobre o sujeito não é classificável cientificamente, pois responde a outra lógica, a lógica do inconsciente, mas isso não significa dizer que a ciência não contribui com a psicanálise e vice-versa. São campos do conhecimento que merecem articulação, não enquadramentos. 

A psicanálise antes de qualquer coisa é afeita aos detalhes. Uma letra perdida numa palavra, um gesto que se revela sempre quando se toca no mesmo assunto, o suspirar entre uma fala e outra.

Os detalhes, esses “divinos detalhes” como nos fala o psicanalista Jacques Alain-Miller - numa entrevista dada a Hanna Waar para a revista Psychologies Magazine em outubro de 2008 sobre a temática do amor - nos interessam à medida que dizem algo sobre o sujeito. 

As emoções são guardadas nos detalhes. Percebam: cheiro de café fresco que acabou de ser coado, a risada da pessoa amada, os segundos de explosão da verve amorosa. Esses fragmentos são a matéria prima da análise. 

 

Isso não é só um detalhe. Fale-me mais sobre Isso. 

O Brasil místico: sobre psicanálise e o "lado A" da religião

Por Anastácia David

 

   Vê-se um número crescente de estudos sobre espiritualidade e os efeitos desta nos seres humanos em diferentes contextos. Hoje, longe do interesse de esgotar o tema em questão, a proposta é de apresentar algumas inquietações resultantes do conceito de religião como escolha de vivência da espiritualidade e sua importância na história do homem, do homem brasileiro. 

    Nessa ocasião não falaremos sobre a religião como opressora, como limitante do pensamento nem como perseguidora da qual a amostra temos os tempos da inquisição, dentre outros momentos de intensa violência ligada à religião. Não versaremos sobre o temor a Deus nem as questões ligadas ao sentimento de culpa imbricadas em algumas religiões em especial as de ordem cristã (lado B). 

    A Importância de falar sobre espiritualidade por ser algo mais amplo, contempla com esse sentido generalista diferentes formas de expressão de fé, contudo, é fundamental no Brasil – um Estado laico – falarmos sobre religião nos discursos sobre espiritualidade na medida em que ela diz um mais além sobre o sujeito no âmbito politico, no âmbito das instituições. Para esse texto parece ser fundamental discutir questões sobre religião. Trataremos do lado “A”.

     A Religião é além de um fenômeno individual um fenômeno de grupo, de massa. A psicanálise enquanto saber sobre o sujeito também é grande referência nos estudos de grupo, estudos culturais, antropológicos desde os textos sociais de Sigmund Freud como, por exemplo, Totem e Tabu (1912-1914) ou o texto de base para a escrita de hoje Psicologia das massas e análise do eu (1920-1923).

     Faz-se então um convite ao leitor, de pensar alguns pontos de impacto da religião na nossa sociedade. Para esse intento, escolheu-se dois campos da sociedade, falaremos sobre alguns pontos da importância da família e da escola na formação do sujeito.

     Aqui vamos defender a experiência religiosa como um produto especificamente humano, demasiadamente humano, e sua liberdade de escolha como um dos possíveis destinos onde pode repousar a inquietações relacionadas ao desamparo, a dor de existir. Mais detidamente vamos defender aqui a importância da liberdade religiosa para a construção do subjetiva. 

     Tendemos a concordar com Leandro Karnal, historiador atualmente professor da Unicamp, quando diz “que a crença individual deve ser sempre respeitável” em uma fala realizada no programa de televisão "Café filosófico", disponível no YouTube.

       Para algumas pessoas, não todas, a espiritualidade tem papel fundamental em suas vidas e é importante ser expressada tanto no campo individual quanto no campo coletivo, das relações. 

     Vemos com frequência nas escrituras religiosas, por exemplo, situações onde as principais inspirações de ordem religiosa acontecem em ocasiões de peregrinação, de meditação, de atravessamento do deserto, por vezes um deserto literal e, em outras vezes o atravessamento do deserto como busca pessoal, como tentativa de simbolização da falta constitutiva. Podemos citar grandes revelações vividas pelos chamados "padres do deserto".

      Podemos dizer que, no campo das religiões, existe a tentativa de resposta para as questões primordiais da existência humana como sinaliza Freud – a origem, a sexualidade, a morte.  Delas a religião obtêm êxito no que diz respeito a resposta pois, joga no campo dos dogmas da fé aquilo que não se pode elucidar somente com palavras, deixado a cargo do peregrino da vida o trabalho de elaboração no que diz respeito a sua Angst (angústia, que também podemos ler como medo). E mais, arrisca-se dizer que ainda aqueles que não escolhem a religião como vivência de espiritualidade, aqui no Brasil, sofrem influência delas desde muito cedo.

     A experiência clínica nos mostra que com facilidade temos acesso a recordações relacionadas a episódios com personagens religiosos. Essas figuras, benzedeiras, curandeiras, parteiras, videntes, cartomantes, baianas, povoam o imaginário popular sendo personagens da nossa história. São absolutamente ligados as mais diversas religiões e fazem parte da construção da identidade do povo brasileiro. 

     O Brasil místico se inscreve em nossa fala desde quando crianças em nossos primeiros berços: a família e a escola.

    Em um debate realizado essa semana com o professor e psicanalista Christian Hoffman pontou-se a família e as transformações nela vivida atualmente como sendo de grande valia ao ouvido atento dos analistas, porque é no modelo da família que a “política da cidade é construída”. É também no ambiente escolar, nesse micro-espaço, que pode-se vivenciar as principais relações sociais, as concepções de lei, a perpetuação de conceitos e pré - concepções diversas. 

    Seguindo esse raciocínio é de berço que temos os primeiros contatos com a perspectiva religiosa e são nesses primeiros lugares de convívio, que na infância se aprendem noções de tolerância e sobretudo o seu revés a intolerância. 

      O termo tolerância surgiu no século XVI no momento das guerras religiosas entre católicos e protestantes, refere-se a compreensão, ao respeito pelas opiniões divergentes e ao cuidado com o outro considerando e validando sua liberdade de pensamento, e nesse caso, sua liberdade em expressar sua fé. 

      É importante falar sobre a religião, importante fortalecer o direto do sujeito de construção da sua espiritualidade através do conhecimento sobre o diferente, o entendimento sobre a alteridade, ou seja, aquilo que é forma de existir do outro. Nesse sentido, calar o sujeito na sua expressão de fé, na sua busca pela espiritualidade, ou seja, agir com intolerância diante da fé do outro em qualquer circunstancia é um gesto de recusa do outro, é um ato de violência com o que é da ordem do humano, não deixa de ser uma violência consigo próprio.

     Para encerrar essa breve explanação aponta-se a afirmativa: é possível encontrar os traços do Brasil místico em nós. 

   Sejamos ateus ou não.

 


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Morada do desejo

Colunista: Anastácia David

Colunista: Anastácia David

Em certa ocasião de uma análise ouviu-se do analista a seguinte frase: “É sim, é preciso falar da dor”. A dimensão de dor que o analisante – aquele para quem se dirige o tratamento – se referia naquela circunstância, tinha a ver com uma dor no campo das emoções, falava-se sobre uma ferida, algo difícil de falar, algo mais profundo.

Dor subjetiva, ou seja, que não se delimita ao corpo e nem tampouco à mente. Uma dor que se inscreve, sobretudo, na linguagem – não há outra forma desse sujeito falar de si que não passe por essa dor que sente. 

Quantos de vocês já não presenciaram um discurso dessa forma? Quantos de vocês já não viram alguém assim, onde isso se mostra de maneira mais evidente?

Voltando a situação da análise citada, o analisante segue falando ao analista:

“Não sei se você se recordadaqueles filmes onde a trama consiste em um corte no tempo onde cada dia vivido é a repetição do anterior, como se houvesse um marco inicial e, todos os dias subsequentes fossem a repetição deste primeiro dia”.

E continua: 

“Posso relacionar o meu sofrimento emocional, essa dor, como esse Feitiço do tempo, onde eu esbarro nos mesmos entraves e como num Dejà vu penso que estou eu novamente entrando naquela mesma situação.”

Naquele momento falava-se de uma situação que sempre se apresentava ao analisante e a questão que se formulou durante a sessão foi: 

“Até quando irei padecer desse mal que me leva a crer, que eu estou criando?”

Vamos deixar um pouco de lado a sessão de análise criada, pois ela ainda temum longo percurso até o seu fim – terminável ou interminável – para pegarmos essa cena onde o sujeito se põe a falar para o analista.

E se põe a falar justamente das situações que se repetem em sua vida e cujasrédeas não parecem estar em suas mãos. 

São essas, as situações repetidas, que estão em volta do núcleo traumático e do sofrimento nele contido.

Observa-se que antes, nos exemplos dos filmes,  o sujeito se vê sozinho no momento de passar por essa angústia e de vivenciar o seu dilema. 

No decorrer de uma análise a proposta é que se possa construir um elo de trabalho – transferência – para atravessamento do sofrimento, para atravessamento dessas situações citadas hoje, mas também de muitas outras tão frequentes nas análises como, por exemplo, fobias, tristezas profundas, ansiedade.  

Parece não haver muito sentido falarmos do mito da busca da felicidade quando gastamos uma grande energia com aquilo que nos causa sofrimento. É importante lembrar que estamos nos referindo a atravessamento, e não remissão da “dor de existir” e do real da falta inerente ao humano. 

Diferente dos filmes o que se pode com uma análise é conhecer o mecanismo de que algo em si próprio o está guiando para aquela situação. É necessário repetir, falar muitas vezes sobre o sofrimento, para que o ouvido atento do analista possa pinçar algumas palavras que abram para novas significações, novas formas de falar sobre a mesma coisa, novas formas de ação: ato. 

Mas então estamos supondo - e quanto a esse conhecimento devemos integralmente ao inventor da psicanálise - que existe uma força que nos impele a viver situações e da qual não nos damos conta até adentrar num processo analítico. Ou seja, até nos dispormos a falar e permitir que essa fala caminhe livremente por diversos assuntos até encontrarmos a “verdade do sujeito”, até que ele possa se dizer.

A matéria prima do trabalho analítico está onde o sujeito pode advir, tal com Freud afirma e Lacan repete. 

Psicanálise é movimento, entre palavra e ato. É preciso falar para um outro que possa da coxia dirigir a cena do setting analítico para que se possa dirigir a cena de sua própria vida. 

O que buscamos afinal? É possível correr atrás daquilo que liberta, é possível correr atrás do diferente? A neurose tem como grande aliada a sensação de culpa e o gozo, essas “dores da consciência” como se refere Freud em seus textos.

Então, o que se pode numa análise não é deixar de sofrer. A promessa que se cumpre ao final do percurso analítico é esvaziar-se da toxicidade da vida humana como construída nos dias atuais e poder dizer que seu desejo aponta para um lugarque é diferente,  singular, e não sentir-se sozinho ou menos humano por escolher e se posicionar. Sendo assim, o lugar para onde aponta o Desejo é morada da verdade sobre o sujeito, da verdade sobre si.

 


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