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A Educação, os laços e a Psicanálise

 Por Carolina Escobar

 

Há algumas semanas alguns de meus colegas do ensino fundamental criaram um grupo virtual na tentativa de nos reunir 16 anos depois. Emoções, lembranças e constrangimentos à parte (rs), foi uma situação que me fez pensar que a escola é um dos lugares mais importantes para a construção de laços – com os colegas, com a cultura, com o que o cerca. É também lugar de vivenciar desencontros e dificuldades, que são tão importantes quantos os laços formados.  

As queixas escolares são frequentes demandas para os psicanalistas, mas confesso que tenho especial atenção àquelas que têm a ver com a aquisição da leitura e escrita. Há algo na queixa dessas crianças e adolescentes que intriga os familiares, os educadores e até eles mesmos. Alguns apresentam questões que se cronificam de tal forma que se tornam marcas determinantes na maneira que a criança estabelece relações com toda sua vida. 

Como o mundo se torna grande e incrível quando passamos a olhar as grafias  que o compõe e lê-las! Compreender a mensagem talhada no papel transforma todas as coisas. E ser capaz de talhar algumas também, deixar marcas, comunicar-se, então? Quanta potência! Quais os efeitos subjetivos nas dificuldades de adquiri-la?

Recentemente retornei à textos freudianos que há muito não tinha contato. Mais uma vez me surpreendi com a atualidade e, principalmente, com a radicalidade do pensamento que Sigmund Freud construiu e nos presenteou. Apesar de não ser o único momento em que ele levanta questões para pensar a relação da psicanálise com a educação, é em texto que encontro elementos que me fizeram pensar. 

Em os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) – um dos meus textos favoritos de Freud – encontramos uma das contribuições freudianas mais marcantes: a sexualidade começa na infância. Com esta afirmação, Freud desloca a questão da sexualidade da noção biológica ligada à reprodução, ideia vigente até então. Para ele sexualidade não se resume ao sexo (ato sexual). 

Sexualidade é o que coloca duas pessoas em relação, que possibilita a criação de laços e vínculos que nos diferenciam dos animais.

Tais vínculos são criados pelo corpo, mais especificamente por alguns pedaços dele; aqueles que também possibilitam uma demarcação de dentro e fora para nós mesmos: a boca (por onde nos alimentamos e exploramos o mundo desde muito pequenos), o ânus (lugar de nosso corpo que expele restos que podem ser presentes – “olha o que eu fiz mamãe! Dá tchau para ele!”), os genitais (que, em algum momento, compreendemos ser marcados por representações culturais que nos interrogam sobre o que somos/desejamos ser); e também o olhar (como o que dará notícias do interesse e/ou do desagrado de quem nos relacionamos). Ou seja, as relações se apoiam no corpo (pulsional) para serem estabelecidas.

Mas o que isso teria a ver com a educação e , mais especificamente, com a aquisição da leitura e escrita? 

Me lembro do caso de um pessoa no início da adolescência que, até então, não sabia ler nem escrever. Chega até mim com o encaminhamento de seu médico quando nenhum exame (da bateria realizada) apresentava resultados que justificassem a não apreensão da leitura e escrita. Não parecia um adolescente, mas sim uma pessoa muito mais jovem; em dias de muito calor, a mudança hormonal se fazia presente nos cheiros que invadiam a sala de atendimento sem que, aparentemente, percebesse. Em uma das sessões diz “Se conseguir ler e escrever, vou crescer. Como olhariam para mim? Como eu olharia para mim?”.

Ou então quando outra pessoa contava, muito angustiada, do medo que estava sentindo em não passar em uma prova muito importante em sua vida e se recorda de ter sido a única pessoa de sua classe que demorou para ser alfabetizada; “Lembro que sentia tanto medo de não conseguir aprender que evitava ao máximo chegar perto de um lápis; dizia para meus pais que não esperassem isso de mim, apesar de que acho que o que eu queria mesmo era que gostassem de mim apesar daquela merda toda”. 

Nestes fragmentos (e em tantos outros), a aquisição da leitura e escrita representa algo no laço com o outro e é esta uma das contribuições dos psicanalistas no que tange à estas queixas. Freud já dizia “Nós (…) temos todos os motivos para dedicar interesse a esses fenômenos temidos pelos educadores, pois deles esperamos obter esclarecimentos sobre a configuração original da pulsão sexual” (1905, p.82).

Bem, de volta ao (re)encontro com o ensino fundamental: mal posso esperar!

O que é um corpo?

Por Carolina Escobar

 

A interrogação sobre o corpo funda os primórdios da Psicanálise. As famosas cegueiras, impedimentos motores, paralisações, fortes dores, etc. levam Sigmund Freud a estudar os casos de histeria buscando decifrar o que acontecia com os corpos-enigma dessas mulheres. Eram enigmas, pois não eram encontradas causas orgânicas que justificassem os fenômenos descritos e, mais ainda, porque desafiavam a organização anatômica dos órgãos e músculos.

Sua teoria, após se pôr a escutá-las, é que a aparição dos sintomas corporais teria um sentido relacionado com representações inconscientes construídas na história de cada uma; mais especificamente a uma experiência vivenciada por elas como traumática.

Há uma grande contribuição freudiana nos estudos sobre o corpo; pois apresenta uma quebra de paradigma. Inserido no contexto médico, o corpo era compreendido como um sistema orgânico que responde às leis da biologia e da fisiologia; desde Freud, ele também passou a ser compreendido como efeito de uma construção particular (e inconsciente) que só pode ser feita com e pelo intermédio da linguagem.  

Apesar de serem formulações que, até hoje, servem de base para a inserção e posicionamento do psicanalista nos mais diferentes contextos de sua atuação; não são novidades para os psicanalistas, nem para os interessados pela psicanálise. No entanto, recentemente tive acesso a um livro que trouxe novos elementos para pensar o corpo e pensei em compartilhar com vocês neste texto.

Em ‘Inventando o sexo’ o historiador Thomas Laqueur (2001) se dedica para o estudo da história social e da medicina com a intenção de refazer os passos feitos dos gregos até o nascimento da teoria de Sigmund Freud naquilo que diz respeito à anatomia humana.

O autor resgata o pensamento de Galeno de Përgamo (c. 130-200), influente anatomista da tradição ocidental, uma vez que suas ideias foram difundidas de forma extensa até o final do século XVII. Segundo ele, o corpo humano seria composto por apenas uma anatomia – isto mesmo! Igual para todos os seres humanos.

Nos dias atuais, nos aproximamos da teoria do sexo único com estranheza, ainda mais quando descobrimos que ela era a explicação científica sobre o corpo, seus sistemas e funcionamento. Para nós, a ciência demonstra que a anatomia humana comporta dois sexos: feminino e masculino. São dois sistemas orgânicos distintos e característicos.

Para Galeno, todos tínhamos pênis. No entanto, ele poderia alojar-se dentro do corpo, ou então pender para fora dele de acordo com os afetos sentidos pelas pessoas e, principalmente, por sexos sociais com diferenças radicais no que diz respeito aos direitos e obrigações perante à pólis; “(...) ser homem ou mulher era manter uma posição social, assumir um papel cultural, e não pertencer organicamente a um sexo ou a outro. O sexo era ainda uma categoria sociológica, não ontológica” (2001, p.177)

Mas qual seria o impacto desta leitura? Aquilo que nos tempos atuais é compreendido como uma verdade (duas anatomias compondo o conjunto dos corpos humanos) também seria efeito de uma construção cultural e linguageira. 

O ato de nomear e a forma como isso é feito, são capazes de fundar a existência de algo.  Qual seria o efeito disto sobre a subjetividade, assim como sobre as modalidades de sofrimento em cada tempo? E no nosso?

 

 

Laqueur, Thomas Walter. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud/ Thomas Laqueur; tradução Vera Whately. – Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

 

Memória do trauma

Por Carolina Escobar

Quando se chega ao Museo de la Memoria y los Derechos Humanos em Santiago, no Chile, ao lado da entrada principal há um painel feito de pedra com a seguinte inscrição: ¿Qué passa si olvido? (O que acontece se esqueço?).

Me lembro de pensar que provocativo um museu nomeado ‘da memória’ se apresentar com esta pergunta e passei pela porta da entrada assim, despretenciosa, sem imaginar a marca que essa experiência deixaria em mim.

Esse museu conta a história da mais longa e brutal ditadura da América Latina e podemos entrar na realidade chilena quando comandada por Pinochet. Destroços, cartas,  vídeos, áudios, testemunhos anunciavam a violência e a desubjetivação em sua forma mais cruel. Sala após sala, o horror.

A reação dos visitantes não passou desapercebido: interrupções da visita, choro, gargalhadas, gritos surpresos, abraços, toque humano. Me lembro de ouvir soluços altos em uma sala mais adiante e me perguntar se fazia parte de algum vídeo do recorrido do museu. Não fazia; bom, fazia e não fazia; afinal, os afetos e reações ao que estava sendo narrado ali também compunham a memória daquele acontecimento.

Apesar de acompanhada por náuseas e uma dor de cabeça insistente saí do museu com a forte sensação de ter sido transformada por aquela experiência. De volta a São Paulo, busco por textos sobre memoriais, assim como sobre a produção de memória cultural e histórica e chego em estudos psicanalíticos sobre produções testemunhais. A clínica do testemunho possibilita voz que àqueles que foram vítimas da violência provocada pelo Estado, quando este, por dever, teria que protegê-los.

Sem os testemunhos dos torturados, dos sobreviventes do holocausto, da comissão da verdade, estuprados, moradores de rua, pessoas escravizadas, dos imigrantese tantos outros que sofreram todos os tipos de violência; a humanidade perderia a dimensão das catástrofes políticas que quando não esvaziam a condição humana, a colocam em suspensão.

Nestes contextos, a escuta analítica está a serviço da produção de uma fala sobre o trauma e de (re)instaurar o direito à voz a quem lhe foi retirado.

Mas, de que forma? Por serem destituídas de um lugar de direitos e reconhecimento social, uma fala produzida por estas pessoas pode não ser ouvida ou entendida como linguagem. A aposta da clínica do testemunho é que será pelo intermédio da escuta analítica que uma fala pode ser transformada em transmissão, endereçamento, narrativa e, com isso, promover a restauração da dimensão humana àqueles que, pela violência do Estado, se encontram objetalizados e desubjetivados.

Ainda há muito o que ser compreendido sobre o trauma, sobre a própria clinica do testemunho, sobre a cultura como transmissão e sobre os efeitos desta escuta - tanto para quem é escutado; quanto para as gerações posteriores que tem acesso à produção testemunhal (memoriais, comissões da verdade, entrevistas, documentários, etc) - no entanto, desde já acredito ser possível dizer que ao promover condições para o (re)ingresso na linguagem, um psicanalista faz política.

O que fazer com o sintoma?

Por Carolina Escobar

A aparição de um sintoma é, na maior parte das vezes, o que impulsiona a busca por um analista. Sintomas no sono, nas relações, no corpo, na fala; algo claudica, não se encontra explicação; porém é capaz de tirar a vida dos trilhos.

Muitos relatam aos seus analistas estarem intrigados com o fato de que, até o momento de suas vidas, aquele mal estar nunca havia acontecido antes. Não a toa ser tão comum a vontade de eliminá-lo, já que estamos falando de um mal estar que, em determinados níveis, pode atrapalhar - e até mesmo impedir - que as coisas mais rotineiras sejam feitas. 

Nesse exato momento, aparece em meus pensamentos muitas falas que trazem esta questão à tona: “não tenho me reconhecido no que me tem acontecido, de repente sinto uma vontade de chorar que não consigo controlar! Chego a ter que parar o que estou fazendo, ir embora do trabalho...só queria que isso parasse!”, ou  “procurei por esse atendimento a pedido de meu médico, pois essas dores de barriga horríveis me fazem passar mal todos os dias. Ele me afastou do trabalho, mas temo que essa licença médica me prejudique. Preciso de ajuda!”; e até mesmo “estou sem conseguir dormir há uma semana! O que está acontecendo comigo?”.

São relatos angustiados e carregados de interrogações. Por que procurar um analista nestas situações? Desde os momentos inaugurais da construção de seu pensamento, Sigmund Freud já apontava para a ideia de que aquilo que nos acomete poderia ser efeito de um processo Inconsciente. E, partindo deste pressuposto, propõe um método com procedimentos característicos que poderia ser uma proposta de tratamento para estes sintomas. 

Para a psicanálise, os sintomas podem ser entendidos como enigmas; algo curioso, muitas vezes ambíguo e que parece incompreensível; mas que, ainda assim, comunicam algo da particularidade daquele sujeito. 

Dias atrás, lendo o seminário sobre ‘A transferência’ (2010) de Jacques Lacan, me deparei com uma passagem que explicita essa questão:  “(...) o homem é marcado, é perturbado por tudo aquilo a que se chama sintoma – na medida em que o sintoma é aquilo que o liga aos seus desejos” (p.331). 

Trabalhar com o sintoma é complexo vide esta contradição contida em sua formulação: o mesmo ponto que quero eliminar por causar mal-estar, diz respeito ao que me é mais íntimo.  

Como lidar com ele?

Dar ouvidos a um sintoma e, assim, localizar seu caráter de querer dizer alguma coisa, oferece a abertura para que cada sujeito possa (re)conhecer o que ele conta de sua particularidade, visando, então, a extração do que há de singular em cada sujeito – dimensão ética do tratamento psicanalítico.

 A aposta contida no ato de escutar do analista é que isto poderia produzir um novo posicionamento daquele sujeito no que diz respeito à sua vida e quando em relação com outras pessoas. Uma nova posição diante das coisas – e do próprio sintoma – gera efeitos que podem ser recolhidos não só pela pessoa que o vivência, como por quem a rodeia.

Por esta ótica, é possível fazer a leitura de que a repercussão do tratamento psicanalítico poderiam atingir tanto o mal estar localizado no âmbito dos romances familiares (particular); quanto aquele que se faz presente no laço social.

    Lembro- me de uma afirmação de Dominique Fingermann (2011) que dá à escuta do sintoma como insígnia do mal-estar um lugar importantíssimo para aquilo que caracteriza o fazer de um psicanalista; já que é o que oferece a abertura para produzir o incurável – o saber fazer com o sintoma.  

Nela, Dominique aponta que, dessa forma, seria possível “(...) devolver ao sintoma seu alcance político, seu efeito revolucionário” (p.93). Revolucionário pois, ao balançar o que um dia estava nos trilhos, inaugura o espaço para a invenção de um novo trilhamento. Singular, mas não solitário.

 

    

Referências citadas:

Fingermann, Dominique. A política do sintoma na direção da cura. In: Stylus n.22; p.91-99- Rio de Janeiro, maio 2011.

Lacan, Jacques. O seminário, livro 8: A transferência, 1960-1961. -2ed.- Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

 

Transitar o Corpo

Por Carolina Escobar

 

Uma noticia no jornal recente me surpreendeu: várias pessoas que um dia realizaram a cirurgia de mudança de sexo começaram a manifestar o interesse em reverte-la, enquanto que outras já realizaram a “destransição”, como chamam.

Creio terem percebido que um dos temas de meu interesse é o Corpo*, não à toa decido escrever sobre a surpresa que senti ao ler sobre as "destransições". Decidir transformar, operar e vivenciar uma nova costura de si na carne não é qualquer coisa. O que pode ter acontecido, então?

Explicito que o objetivo deste texto não é o de questionar os avanços que tornaram real a possibilidade desta cirurgia, nem a decisão pela cirurgia e muito menos entrar no campo da moral diante de um assunto tão atual como esse. Mas sim, pensar sobre o que poderia estar em jogo neste importante fenômeno das destransições, pois ao se apresentar convoca os analistas tanto em seu fazer clínico – como aquele que escuta essas pessoas em sua singularidade - quanto como em responsabilidade política e possível contribuição com a pólis.

As pessoas que dizem padecer de seu corpo a ponto de não reconhecê-lo como seu precisam ser escutadas! E não me refiro apenas àquelas que consideram a cirurgia de mudança de sexo; a relação de qualquer sujeito com seu corpo não é algo simples, pois o Corpo carrega em si marcas de identidade e, como tal, serão os pilares norteadores da forma de estar no mundo e em relação com outras pessoas.

Incômodos com o Corpo, sendo ele gordo, velho, doente, tatuado, amputado, com cicatrizes, operado...marcado pela vida são considerados na escuta dos analistas; já que a forma com que cada um se relacionacom elesaponta para o que há de mais particular em cada um.

A reportagem sobre as destransições descreve o sentimento de estranhamento que as pessoas que iniciaram o tratamento hormonal sentem, ou até mesmo a angústia presente quando a cirurgia já foi feita e, qualquer novo corte na carne não irá devolver ao corpo seu estatuto inicial. Estes são elementos a serem considerados na escuta analítica, já que a aposta -desde Freud – é a de um tratamento da angústia pela palavra.

Resta a questão: a que o pedido por cirurgias de (des)troca de sexo pode estar respondendo no âmbito social? Mais uma vez com complexidade maior do que uma coluna comporta, mas pontos podem ser levantados para iniciar uma reflexão sobre o assunto.

Frases como “O corpo é meu, portanto, faço o que quiser com ele” representam a luta de movimentos sociais importantíssimos em nossa cultura. Lutam para conquistar direitos, respeito à diferença e cidadania; e são fundamentais para a construção de novos lugares sociais.

Porém, tenho pensado que, em alguns contextos, o uso destas frases acabam subvertendo esta proposta – política, forte e necessária – e, acabam transformando-se em um discurso alienado e mercantil que coloca em questãoa força de um movimento de promoção de cidadania tão importante.

Teriam as cirurgias de troca de sexo também se tornado um alvo para a lógica mercadológica? Em termos psicanalíticos, estariam respondendo à lógica do imperativo de gozo? Corte! Mude! Transforme-se! Seja quem quiser! E então, encontrará a felicidade! Qual o lugar da singularidade e reconhecimento de si neste cenário?

A contribuição da Psicanálise também está em alertar que pode ser problemático calar as perguntas sobre os estranhamentos corporais. Talvez as destransições escancarem que há consequências importantes – e por que não desastrosas – em certos tratamentos do mal-estar inerente ao humano presentes também no que é vivenciado no e a partir do Corpo.

Habitar um Corpo implica em uma construção dialética, ambos se afetam: Sujeito e Corpo.

 

 

 

 

(*): A escolha pela escrita de Corpo com a letra maiúscula foi para evidenciar que se trata de um conceito Psicanalítico. Na teoria proposta por Jacques Lacan, o Corpo é compreendido em três estatutos (Real, Simbólico e Imaginário) que, em forma de gestalt, irão dizer da corporeidade de cada sujeito.

A produção de corpos mortos

Por Carolina Escobar

Havia pensado em outro tema para este texto; no entanto, diante de alguns acontecimentos recentes penso ser urgente abrir este espaço para outra questão. Urgente pela seriedade, pela gravidade e – confesso - para que possa começar a dar algum tratamento para o estranhamento que me causaram.

É ainda mais impactante pensar que não são cenas inéditas; mas sim que fazem parte de nosso cotidiano e chegam a nós sem que precisemos fazer qualquer esforço para encontrá-las. Milhares de refugiados à deriva vivenciando em seus corpos o limbo do não-lugar; palavras de ódio sendo tatuadas na testa de um adolescente; ações de extrema violência e desubjetivação à moradores de rua – tanto as direcionadas aos dependentes químicos em situação de rua na “Cracolândia”; como os moradores de rua que foram acordados com jatos de água gelada em dias de baixíssima temperatura do inverno paulistano - e tantas outras.

Como disse, são apenas algumas das muitas situações que vislumbramos ao ter acesso às notícias, ao conectar-se na internet ou até mesmo ao sair de casa pela manhã e andar pelas ruas da cidade. São situações de grande complexidade que envolvem questões de política internacional, de políticas públicas, de saúde pública e que, para além disso, não podem ser pensadas dissociadas dos aspectos sociais e psíquicos. 

Recentemente tive um encontro com textos do filósofo italiano Giorgio Agamben e já me sinto intimamente marcada por eles. Sei que grande parte do estranhamento citado no início deste texto já é efeito deste encontro, por isso, não poderei deixar de cita-lo uma vez que suscitou em mim questões fundamentais sobre o mal-estar inerente à qualquer civilização e como a política pensa e tenta dar conta dele.

Convido-os para a leitura de um trecho do Homo Sacer I: o poder soberano e a vida nua (2002, p.146, grifo meu):

É como se toda valorização e toda “politização” da vida (como está implícita, no fundo, na soberania do indivíduo sobre sua própria existência) implicasse necessariamente uma nova decisão sobre o limiar além do qual a vida cessa de ser politicamente relevante, é então somente “vida sacra” e, como tal, pode ser impunemente eliminada. Toda sociedade fixa esse limite, toda sociedade – mesmo a mais moderna – decide quais sejam seus “homens sacros”. É possível, aliás, que este limite, do qual depende a politização e a exceptio da vida natural na ordem jurídica estatal não tenha feito mais do que alargar-se na história do Ocidente e passe hoje- no novo horizonte biopolítico dos estados de soberania nacional – necessariamente ao interior de toda vida humana e de todo cidadão. A vida nua não está mais confinada a um lugar particular ou em uma categoria definida, mas habita o corpo biológico de cada ser vivente.

 

Este e tantos outros trechos preciosos do texto de Agamben fornecem uma leitura muito interessante sobre uma das formas de fazer política do nosso tempo: a indistinção entre a vida política e a vida biológica; e a separação entre as vidas politicamente relevantes e as não relevantes que, de forma legitimada e incluída neste funcionamento, podem ser eliminadas.

O corpo natural é recortado pela política assim como sua dignidade humana, uma vez que apenas serão humanos aqueles que carregam os símbolos de cidadania e da cultura; os cidadãos. Retirada do plano político-social, a vida é tratada como matéria e sem vida humana aquele corpo é um mero projeto biológico. 

Esvaziado de cultura e sendo um projeto biológico se torna o objeto perfeito para bater, medicar, matar, internar, tatuar sem que haja qualquer reflexão sobre a humanidade daquele corpo. Afinal, porque pensar sobre um corpo que é só matéria e, portanto, não humano? 

Para ele, a política fica nos corpos!

Diante desta complexidade, a questão que motivou a escrita deste texto é: De que forma a Psicanálise pode contribuir com este cenário?

Para a psicanálise o Corpo possui lugar fundamental na compreensão, na escuta e na direção do tratamento. Aquilo que buscamos no reflexo do espelho não se trata, apenas, do reflexo de um organismo vivo (carne, músculos, sinapses em ação, órgãos conectados que, uma vez funcionando, são vitais), mas também – e sobretudo -  aquilo que unifica minha imagem em um lugar que dá sentido e sustenção à minha existência, me possibilita uma marca com a qual me identifico.

Quem são àqueles que habitam os corpos-matéria que, ao não serem politicamente relevantes, perdem a dignidade humana? Seriam humanos? Qual sua história? O que levou a este ponto? 

Seja pelo peso e importância que dá para a linguagem , já que é ferramenta potente no tratamento do mal estar e fundamentalmente o que nos distância da natureza; seja pela escuta analítica e as possíveis intervenções e tratamentos de linguagem que surgem a partir dela, a aposta é de transformar desamparo em potência.

Como? Escutar , reconhecer , apontar e localizar o humano!

Sobre este aspecto – o de considerar corpos-sujeito – entendo que a Psicanálise tenha muito a contribuir nesta discussão.

Medicina e Psicanálise

Por Carolina Escobar

   

    É bastante comum que pessoas procurem por um analista após terem iniciado um tratamento medicamentoso. Muitas dessas pessoas dizem: “Meu médico disse que precisava vir aqui porque o que está acontecendo é coisa da minha cabeça e preciso tratar meu emocional”.

    Mas o que poderia significar um encaminhamento como esse? Por que este encaminhamento se faz necessário? Para que associar a Medicina à Psicanálise (e vice versa)? Perguntas como estas acompanham quem chega aos consultórios dos analistas e também os próprios analistas.

    Nos dias atuais é comum a ideia de que seriam campos separados por um grande abismo, e o que consegue atravessar são ecos, meias palavras, fonemas, diferenças e, em alguns momentos, intolerância. 

    É comum escutar que o que justifica a dificuldade na comunicação entre os profissionais que atuam nestas áreas de saber é justamente a presença deste abismo como um desencontro epistemológico. O curioso é que muitos dos elementos fundamentais na constituição destes saberes só puderam existir quando diante de um impasse que revelava esse desencontro. 

    Freud era médico de formação e trabalhava como neurologista no Hospital Geral de Viena, foi neste contexto que soube da existência de casos de mulheres que apresentavam sintomas corporais importantes como cegueiras, impedimentos motores, paralisações, fortes dores, etc.; porém as causas eram enigmas para a Medicina, uma vez que não eram encontradas causas orgânicas.

    A Associação Americana de Psiquiatria propõe a construção do primeiro DSM (1952) para funcionar como uma ferramenta confiável de classificação dos comportamentos humanos; este seguia os critérios de compreensão da Psicanálise. O objetivo era orientar a clínica médica e sistematizar quais sintomas seriam tratados primeiro.

     No entanto, a clínica médica propõe como cura a eliminação do sintoma ou transtorno; e os transtornos ou sintomas que podem ser observados são muito mais numerosos e diversos dos que encontrados no primeiro DSM! 

    Mais uma vez um enigma, desta vez localizado pela Medicina no diagnóstico psicanalítico, uma vez que encontram a necessidade de mais categorias que digam do comportamento humano ao considerarem as classificações anteriores imprecisas e pouco científicas.

    Pois bem, aí estão os dois saberes sendo construídos a partir dos desencontros e enigmas gerados nesta interface! 

    De fato, a Medicina e a Psicanálise são saberes diferentes! Principalmente porque partem de pressupostos distintos. Enquanto a Medicina é uma clínica que diagnostica e atua a partir daquilo que está no alcance dos olhos (“Me mostre onde dói!”), a Psicanálise encontra como principal elemento diagnóstico o que escuta do analisante (“Fale sobre o que dói”).

    Olhar e escuta marcam posições distintas; estas dão origem a duas compreensões, dois manejos, duas técnicas e duas direções para tratar a dor. 

    Este não é um cenário diferente do que as perguntas iniciais deste texto evidenciam, uma vez que nelas há uma visível inquietação frente ao encaminhamento para tratar do “emocional” quando o mal-estar se manifesta no "corpo”; ou vice-versa.

    Se há um desencontro porque devo me consultar com este ou aquele profissional? 

   A questão é que neste raciocínio o abismo diz respeito a um impeditivo, um desencontro que gera afastamento. Um momento! É disso que se trata? De um desencontro que impossibilita, que faz atravessar apenas fonemas, ruídos sem sentido, sem conversa?

    Ora, e não foram os próprios enigmas, abismos e desencontros que movimentaram e constituíram saberes como recursos tão importantes para tratar a Dor? Porque tratá-los como excludentes?

    A potência destes tratamentos é a de funcionarem como motores; tanto na construção de um lugar social para o sofrimento humano; quanto na produção de subjetividade! Sempre diante do abismo e não sem ele.

 

 

 

O analista silencioso

Por Carolina Escobar

        Um atendimento psicanalítico possui alguns elementos que são facilmente identificáveis: o divã, um analista silencioso e a fala de quem procurou por análise. Estas são ferramentas fundamentais para o caminhar de uma análise, uma vez que possibilitam um dos pressupostos básicos da Psicanálise: o acesso ao que há de mais particular em cada sujeito.

          Teremos a oportunidade de pensar cada um deles, no entanto, a proposta deste texto será a aproximação de um tema que, muitas vezes, é entendido como ponto de tensão por interessados e curiosos em Psicanálise. 

          Muitas vezes o silêncio do analista é entendido e vivenciado com desconforto, mas quais poderiam ser suas funções?

          No Estudos sobre a Histeria* (1996), Sigmund Freud relata os casos das mulheres que atendeu no final do século XIX; elas manifestavam angústia, dores e alterações corporais, como paralisias, sem que estas fossem justificadas por causas orgânicas. 

            Diante do fato de que os tratamentos médicos convencionais não surtiam efeitos diante deste tipo de sintomatologia, Freud se propôs a escutar- não sem antes ser repreendido por uma de suas pacientes que o acusou de falar demais- o que essas mulheres tinham a dizer sobre seu sofrimento e se deu conta da potência que a fala possui para tratar a dor de existir.

            O que o psicanalista percebeu a partir da experiência de escuta dessas mulheres deu origem ao que se tornaria a técnica mais característica da Psicanálise: a associação livre. 

             Desde então, cada paciente é convidado a dizer tudo aquilo que lhe vier à cabeça, sem qualquer tipo de censura ou omissão, por mais banal que lhe pareça o assunto. Ao analista, é preciso escutar o que cada sujeito diz sobre si, contar com a linguagem para intervir e apostar que, ao conhecer a verdade particular que cada um constrói a respeito de si, o sujeito possa inventar outras possibilidades para sua vida e para lidar com seu sofrimento.

            A questão que se coloca é: para escutar é preciso silenciar.

            O silêncio não é a ausência de palavras. É com a linguagem que o analista opera, por isso, a intervenção que o analista faz com sua voz possui tanta importância quanto seu silêncio no manejo e direção do tratamento.  A ausência e/ou a presença da voz do analista possuem – ambas – a função de intervenção.

            Neste sentido, qual poderia ser o incômodo com o vazio que o silêncio apresenta? 

           Talvez o equívoco seja pensar que a linguagem é feita apenas de palavras, sons e sentido. Quando, na verdade, é o sem sentido, o silêncio e o negativo que a colocam em movimento. Eles estão presentes, de forma intrínseca, em cada palavra pronunciada. 

           O motor para a construção de linguagem que dá sentido para a existência de cada um, é exatamente o sem sentido. Ao se deparar com ele, cada um irá contar com a linguagem para poder interpretar suas vivências e construir seu mundo, construir a sua verdade

          Advertido de que o sofrimento de quem procura análise diz respeito a um abalo desta construção particular, quando sustenta o silêncio, o analista convoca o pronunciamento das palavras e provoca que o analisante se apresente com sua fala.

          O espaço produzido na ausência do som é ativo. É um campo potente para que cada sujeito possa estar consigo mesmo da maneira mais íntima; acessar a cena que sustenta sua realidade e, principalmente, (re)criar novas produções de sentido quando em contato com o silêncio.

           Para isso, contamos sempre com a linguagem em seus abismos e costuras.

 

 

 

*Freud, Sigmund. Estudos sobre a histeria[1893-1895]. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Inconsciente?

Texto por Carolina Prado

 

   “Você é psicanalista?! Então me diz, o que é o inconsciente, afinal?”. Esta é uma pergunta que escuto com frequência ao me apresentar como psicanalista nos mais diferentes lugares. É mesmo uma questão que intriga e não nego que ela foi a responsável por me impulsionar a ser analista.

    Entretanto, apesar de rapidamente associado à Psicanálise, o Inconsciente não foi um conceito proposto por Sigmund Freud. Esta é uma discussão preciosa é extensa; por isso, neste texto será apenas apresentada de maneira breve, já que, neste momento, pretendo dar alguns passos em relação à compreensão do Inconsciente da Psicanálise.

       O interesse pelos processos não-conscientes, ou que não acessamos de forma refletida, teve seu início na filosofia. Pensadores como Espinoza, Kant e Schopenhauer já se ocupavam da busca pela compreensão do que está para além da racionalidade do pensamento, e o compreendiam como contraponto aos fenômenos da consciência (“fiz sem saber, portanto fiz de forma inconsciente”).

        Freud era um dos estudiosos que estava inserido neste cenário cultural; no entanto,  revoluciona com o que até então era compreendido, quando localiza no Inconsciente a causa das manifestações humanas. Friso que a grande proposta freudiana foi propor que aquilo que escapa à consciência é produzido em um lugar que possui funcionamento próprio, é regido por determinadas leis do sistema inconsciente e não é, apenas, oposto à consciência.       

               A psicanálise não nega a existência do orgânico, das necessidades fisiológicas, dos neurônios ou dos órgãos; porém, propõe que cada pessoa irá relacionar-se de maneira particular e construir um saber sobre si por intermédio do campo da palavra. Ou seja, cada pessoa dará sentido para sua vida a partir da interpretação que constrói daquilo que é; seja seu corpo, suas relações, os fenômenos culturais, enfim, a realidade que o cerca. 

          Esta é uma construção particular que só pode ser feita com e pela linguagem. Com a linguagem, somos capazes de interpretar os fatos, que uma vez interpretados, se tornam uma verdade, a verdade de cada um de nós. Sem nos darmos conta, construímos uma verdade que será responsável por nortear e fornecer a consistência necessária para que possamos dizer “Eu existo”.

         Neste sentido, fica clara a importância desta construção particular inconsciente; é com e a partir dela que reconhecemos a própria existência. Não é a toa que fenômenos que sejam capazes de abalar esta verdade causam sofrimento e adoecimento àspessoas que, por vezes, chegam aflitas em suas análises com o objetivo de compreender sua dor.

        Quando um analisando fala durante a sessão, apresenta seu mundo, suas representações, a compreensão que possui de sua existência sem saber que é uma verdade particular e inconsciente. 

        Diferente do que é dito no imaginário cultural, o Inconsciente não está nas profundezas da mente e precisa ser escavado e decifrado para que encontremos a essência da pessoa; ele se encontra na superfície, no que está presente o tempo todo, no que mostra com seu corpo e, principalmente, nas palavras enunciadas na fala. 

       ‘Fale de maneira livre tudo o que lhe vier a cabeça’ é um pressuposto básico nos consultórios dos analistas. A associação livre é uma ferramenta valiosa, pois, na verdade, apesar de ser aparentemente livre, a associação produzida é determinada pelo saber sobre si que construímos sem ter consciência disto. Neste sentido, um ato falho – equívoco em uma produção de linguagem (fala, escrita, memória, ato) – é sempre um ato bem sucedido, já que comunica algo da verdade inconsciente daquele analisando. O Inconsciente se manifesta na e pela linguagem.

          Ao supor que o Inconsciente é um saber que comunica o que há de mais particular de cada pessoa, um analista possui a importante função de escutar, reconhecer este saber e sustentar a possibilidade de que cada analisando possa acessar os determinantes que operam em sua vida e, a partir disso, inventar novas possibilidades para desfrutar a própria vida. 

       


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